domingo, 16 de dezembro de 2012

PAPAI NOEL: SUA ORIGEM E SUAS CONTROVÉRSIAS

  
Nessa matéria você lerá, dentre outras curiosidades, sobre: (1) de onde vem a brincadeira de amigo oculto; (2) a origem do Papai Noel depois de Nicolau; (3) a primeira vez que o cinema retratou esse personagem; (4) como o protestantismo conviveu com o Natal e com o Papai Noel durante a Reforma, durante o século XIX e a partir do início do século XX; (5) como a Igreja Católica estimulou a morte do Papai Noel; (6) os primeiros estudos acadêmicos sobre a necessidade ou não de se manter a ficção do Papai Noel; (7) como a OMS cuidou do caso na década de 1950; (8) a origem da relação entre a Coca-Cola e o Papai Noel.

 
Já vimos noutras matérias que Jesus nasceu “antes de Cristo”; que o Natal foi oficializado no século IV, com o aparente objetivo de sufocar a festa pagã chamada Sol Invictus, comemorada no dia 25 de dezembro; agora, vamos contar os bastidores do surgimento e ascensão de Papai Noel.
 
Inicialmente vale ressaltar que, nos primeiros séculos, várias comunidades cristãs não eram favoráveis à comemoração do Natal, tanto que Orígenes, no século III, posicionou-se abertamente contra as festas comemorativas do aniversário de Jesus, assentindo que tal procedimento faria de Cristo um tipo de faraó, ou seja, uma divindade humana. Outros, no entanto, defendiam que, se o “mundo” via razões de sobra para honrar seu imperador, muitos mais motivos tinha a comunidade cristã para comemorar o nascimento daquele que seria o salvador da humanidade.
 
O mundo romano, por sua vez, enxertado em seu paganismo histórico, valorizava sobremaneira as festas de finais de ano, notadamente a Saturnália, cujo início se dava em 17 de dezembro. Na ocasião, as casas eram cuidadosamente enfeitadas, havia brincadeiras, troca de presentes, jogos, tréguas de brigas, banquetes, homens se vestindo de mulher, etc.
 
A troca de presentes no Natal, ainda apreciada nos dias de hoje (veja, por exemplo, as brincadeiras de amigo secreto), fora veementemente combatida por um bispo católico no início do ano 400. O bispo dizia, por exemplo, que a “festa ensina até mesmo as crianças bem pequenas, ingênuas e simples, a serem gananciosas, e acostuma-as a irem de casa em casa e a oferecerem novos presentes...”.
 
Por mais que várias autoridades da Igreja tenham tentado acabar com as festas de fim de ano, a tradição persistiu na Idade Média e chegou aos dias de hoje com bastante força, como já assinalamos acima. De nada valeu um édito londrino do século XV, através do qual se proibiu pedir presentes de Natal em Londres.
 
Mas o Papai Noel, quando e como entra nesta história? Para começar, o bom velhinho (trajado de Nicolau) só passa a se relacionar com o Natal em torno de mil anos depois do início da referida festa. Os primeiros registros mostrando um presenteador mágico na época do Natal apontam para o século XII. Nicolau (santo católico), falecido supostamente em 6 de dezembro de 343, vivia, no século 12, sob a fama de ser um santo milagreiro.
 
Nicolau, sabendo que um pai se achava impossibilitado de prover o dote de suas três filhas, decide entregá-las à prostituição e à escravidão. O santo consegue, em três noites consecutivas, atirar sacos de ouro na casa das três filhas, livrando-as, assim, do infortúnio que se avizinhava. O pai, descobrindo a atitude de Nicolau, espalha sua bondade, embora tivesse sido advertido para não divulgar o milagroso feito.
 
Curiosamente, é também no século XII que se propaga a forma de presentar como o concebemos hoje, quando freiras francesas, tentando homenagear o santo protetor das criancinhas, deixa secretamente presentes nas casas das crianças pobres na véspera do dia de São Nicolau.
 
Gradativamente, o santo é incorporado no psicológico social cristão, e passa a ser visto como o presenteador infalível nas noites de Natal (ainda não recebia o nome de Papai Noel). Só havia uma única condição para não ser presenteado na madrugada natalina: a desobediência aos pais durante o ano inteiro. Com isto, os pais tinham em suas mãos um forte motivo para invocar a obediência por parte de seus filhos. Estes, por sua vez, comumente dirigiam ao santo as mais variadas petições: “São Nicolau, protetor das crianças boas, eu me ajoelho para que o senhor interceda. Ouça a minha voz através das nuvens e esta noite me dê alguns brinquedos. O que mais quero é uma casa de bonecas com flores e pássaros, uma montanha, uma campina e carneirinhos bebendo água do regato”, dizia uma delas.
 
O Natal era, então, aguardado ansiosamente pelas criancinhas, que tinham o hábito de colocar sapatos ou meias embaixo da cama, a fim de que os presentes fossem colocados dentro dos mesmos. Comumente havia casos em que crianças não eram presenteadas na noite de Natal. Em vez de um presente, uma vara era colocada dentro do sapato, significando que o presenteador Nicolau estava triste com a referida criança. A vara, no caso, era sinal de disciplina. Logo, o santo era visto sob o dualismo benevolência x disciplina. Nicolau tinha tanto de misericordioso quanto de punitivo, e tal fama durou muito séculos, inclusive na Idade Moderna.
 
Já no final da Idade Média houve, por parte de membros da Igreja, quem enxergasse a necessidade de substituir o bom Nicolau pelo Menino Jesus. A fama, então, deveria ser transferida para o “filho de Deus”, a quem cabia, por mérito, a boa fama. Por razoável tempo coexistiram os dois presenteadores natalinos em questão. O reformador Martinho Lutero, por exemplo, chegou a declarar em 1532: “É isso o que fazemos quando ensinamos nossas crianças a jejuar e rezar, e a pendurar suas meias para que o Menino Jesus e São Nicolau possam lhes trazer presentes. Mas, se não rezam, elas não ganham nada, ou então ganham apenas uma vara e maçãs de cavalo [cocô]”.
 
No entanto, o advento do protestantismo trouxe sérias acusações contra as tradições de então, notadamente a de comemorar o Natal e a de acolher seu respectivo presenteador natalino. Nos países onde a fé calvinista teve maior destaque, não somente o santo como o próprio Natal foi banido. Na Escócia e na Inglaterra puritana, por exemplo, foram promulgadas leis que proibiram incondicionalmente o Natal e o ato de se presentear na referida data, pelo menos de 1645 a 1660. No mesmo período, deixar de trabalhar e ficar em casa no dia 25 de dezembro, ir à igreja para cantar músicas natalinas ou mesmo se reunir com a família em momento festivo poderia resultar em multa ou mesmo em prisão. Havia forte fiscalização no sentido de proibir em definitivo qualquer comemoração que relembrasse o Natal.
 
Houve casos em que foram registradas inclusive atitudes extremistas: mulheres condenadas e presas por dançarem na noite de Natal; padeiros que fizeram o pão natalino foram arrastados aos tribunais e julgados; aplicação de multas por suspeitas de comemoração; excomunhão para os relutantes. Um ministro calvinista chegou a dizer que comemorar o Natal é a mesma coisa que fornicar. O período natalino nos países protestantes (principalmente calvinista) do final do século XVII se tornou reconhecidamente propício a uma série de punições, muitas das quais manifestamente extremistas.
 
O período que vai da Renascença à Revolução Industrial só fez ampliar o número de presenteadores natalinos. Nicolau e o Menino Jesus haviam perdido tal monopólio. Desta vez outros elementos sobrenaturais passaram a cumprir a mesma função: fadas, espantalhos, feiticeiras, figuras fantasmagóricas vestidas de branco, anjos (até demônios com correntes). Mas nenhum conseguiu ocupar a proeminência de Nicolau.
 
No início do século XIX (por volta de 1809), São Nicolau dá indícios de que irá perder, de vez, o posto para outro velhinho: o Papai Noel. A razão encontrada parecia óbvia: Nicolau era caridoso, mas também punitivo. Costumeiramente castigava as criancinhas por suas travessuras. Estava na hora de se aposentar. Entra em cena o bom velhinho que conhecemos hoje. Papai Noel é retratado sobrevoando uma cidade num carroção (depois se converte num trenó) na noite natalina, depois descendo pelas chaminés. Esta invenção vem dos Estados Unidos e só aos poucos é que a Europa aceita a substituição proposta pelos americanos.
 
Os passos seguintes vieram com a imaginação de poetas e cartunistas. Em 1810 aparece a primeira menção impressa do vocábulo Papai Noel, escrito num poema de 15 de dezembro do mesmo ano. Os anos e as décadas seguintes deslancharam o velhinho presenteador, dando-lhe um rosto, um corpo, um comportamento peculiar, uma longa barba. Um poema de 1844 dizia que ele tinha um metro e meio de altura e sua morada era numa árvore (esta, a árvore natalina como conhecemos hoje, tem origem por volta de 1184).
 
Num poema de 26 de dezembro de 1857, pela primeira se tem maior nitidez de suas vestimentas: Papai Noel é descrito como um homem gordo, vestido de vermelho e ornamentado de branco e com longas botas pretas. Sua residência é descrita num castelo polar, com uma inscrição na entrada que dizia: “Aqui não entra ninguém que fica na cama até tarde”. No mesmo poema o autor dizia: “Todos os que esperam uma meia cheia de presentes não devem perder muito tempo brincando; tenham sempre em mente os livros e o trabalho e levantem-se ao raiar do dia”. Estava aqui, a velha tática de controlar aqueles que pretendiam receber presentes na noite de Natal.
 
Em 1869 novos poemas trazem algumas inovações sobre Papai Noel. Sua morada é reafirmada como sendo no Polo Norte. Ele é dono de uma luneta, capaz de vigiar todas as crianças do mundo; possui um livro para registrar todos os pedidos que lhe são dirigidos e ainda é mostrado cingido por um cinto largo, o mesmo usado nos dias de hoje.
 
Nas três últimas décadas do século XIX os Estados Unidos sentiram de perto o alto prestígio do Papai Noel e das festas natalinas. A chaminé, porta de entrada do bom velhinho, passou a ser alvo inevitável de visitas das crianças na noite de Natal. Durante todo o dia 24 de dezembro e principalmente antes de dormir, elas se aproximavam da chaminé, ora gritando, expondo seus pedidos, ora fazendo suas petições em silêncio, como se o Papai Noel fosse um ser onipresente e onisciente, capaz de, num só instante, estar em todos os lugares ao mesmo tempo e capaz de anotar um a um e de uma só vez todos os pedidos que lhe eram dirigidos.
 
No início da década de 1850 surgem os primeiros cartões de Natal impressos. Poucos anos após a criação do cinema, o personagem fictício já havia conquistado as telas em preto e branco: um filme chamado Santa Claus, de 1899, trazia em seu catálogo a seguinte descrição: “Nesse filme vocês verão o Papai Noel entrar na sala pela lareira e em seguida arrumar a árvore. Então ele enche as meias que as crianças penduraram previamente no console da lareira. Depois de caminhar para trás e conferir tudo o que fez, ele subitamente se arremessa para a lareira e desaparece subindo pela chaminé. Esse filme surpreende a todos e deixa as pessoas imaginando como o velhinho desaparece”.
 
A fama era tanta que muitas igrejas protestantes, historicamente hostis ao Papai Noel e às comemorações natalinas, voltaram não só a celebrar o Natal como também a convocar o bom velhinho a estar presente em vários momentos festivos das igrejas. A partir de 1850, essas mesmas igrejas passaram a usar o lendário Papai Noel nas escolas dominicais, assim como toda a indumentária natalina (árvore e presentes). Três décadas depois, essas igrejas já pareciam aceitar numa boa a presença do bom velhinho em algumas de suas liturgias, notadamente nas escolas dominicais. Tudo tinha uma explicação lógica: todo esse espetáculo proporcionou um grande aumento na frequência daqueles que visitavam principalmente as ditas escolas dominicais, bastante em voga na segunda metade do citado século, uma vez que elas (as igrejas) enxergaram no novo método (escola dominical) uma forma eficiente de levar o conhecimento bíblico a todos os visitantes.
 
É de se estranhar, talvez, essa mudança de visão das igrejas protestantes em poucas décadas. Meio século antes, líderes evangélicos chegaram a declarar: “A palhaçada que nessa ocasião acontece em algumas das igrejas, sob o ministério de um tipo de professores mercenários, e as ideias pueris e superficiais propagadas por via desse meio corrupto e interesseiro, referentes à natureza e ao modo da redenção cristã, são maravilhosamente calculadas para ampliar a esfera da estupidez e para aumentar as sombras da escuridão moral sobre a mente da humanidade”.
 
Mas, segundo alguns especialistas que estudaram o protestantismo americano do século XIX, vários líderes religiosos passaram a valorizar a conversão pessoal em Deus e não necessariamente a forma estereotipada de como se processava essa conversão. Daí justificarem que as festas natalinas eram apenas um chamariz, uma forma de seduzir aqueles que outrora se achavam hostis à própria religião.
 
Coincidentemente, o desenvolvimento econômico e social dos Estados Unidos no final do século XIX e início do século XX parece ter mexido com a cabeça das crianças. Em 1897, um periódico comparou dois pedidos feitos ao Papai Noel, um chamado de “antiquado” e o outro de “moderno”. O primeiro, escrito sob a luz de um lampião de querosene, diz: “Papai Noel, por favor, me traz um trenó novo e uma faca e um saquinho de doces, pois eu estou tentando ser um bom menino”. O segundo, escrito à luz elétrica, diz: “Querido Papai Noel, quero uma bicicleta e uma carruagem com cavalos, um iate e é bom você me trazer outro revólver porque o meu é muito pequeno”.
 
Na década de 20, quando a Coca-Cola sofria pesadas críticas feitas pela União Cristã Feminina da Temperança, pelo Governo Federal e por outros críticos por causa da fórmula de seu refrigerante (um senador chegou a declarar que coca-cola causava esterilidade nas mulheres, sem contar que era capaz de dissolver “as capacidades mental e digestiva e tecido moral”), ela decidiu investir pesado invocando o Papai Noel na pretensão de ser vista com outros olhos pela comunidade americana. Surgiu, aí, a tradição que dura ainda nos dias hoje: a íntima relação entre a Coca-Cola, o Natal e o Papai Noel.
 
Mas nem tudo são flores. Embora sempre criticado em toda a sua existência, as primeiras críticas acadêmicas surgiram por volta de 1896. Uma universidade americana fez estudos e concluiu que não parecia bom manter essa mentira junto às criancinhas. Dois anos antes, um inglês refletiu sobre a importância de manter ou não essa tradição em seu país, e concluiu, levando em conta as recentes mudanças sociais da Inglaterra que já havia chegado a hora de acabar com a tradição de manter vivo o Papai Noel. Ele declarou:
 
“Acredito que haja algum benefício no uso de todas essas tradições enquanto elas vivem e, se assim for, devemos mantê-las vivas; mas em sua maioria elas são por natureza perecíveis. Morrem porque já fizeram tudo o que estavam destinadas a fazer, e também para deixar espaço para formas novas e melhores da velha vida. Precisamos enterrar o que está morto, e não fazer de conta que essas coisas ainda estão vivas e galvanizá-las num falso aspecto de vida. Fazemos muitas asneiras, isso é inegável; permitimos que morram – ou até nós mesmos destruímos – muitas coisas que ainda continham vida, e continuamos tentando manter vivas muitas coisas que já morreram há muito tempo e aborrecem a todos, inclusive a nós mesmos".
 
Pouco depois, a Rússia comunista empreende os mais consistentes esforços no sentido de banir em definitivo tudo o que estivesse associado à religião, inclusive o Natal e o velho Papai Noel. Vendedores de árvores de Natal eram presos; igrejas foram fechadas; ícones religiosos quebrados; profissionais que participavam de festas natalinas eram expulsos de seus sindicatos. No dia 25 de dezembro, o golpe de misericórdia: as crianças eram obrigadas a assistir a filmes e concertos antirreligiosos. A festa de Natal havia sido transferida para 31 de dezembro, com uma nova roupagem, inclinada exclusivamente para tudo que fosse contrário à religião.
 
A ofensiva não vinha, no entanto, somente de países ateus, como a Rússia. A própria Igreja Católica, em 1951, protagoniza algo que até então parecia improvável: um de seus templos franceses promoveu, em dezembro do mesmo ano, a queima pública de Papai Noel. O ato chamou a atenção do mundo, mas a explicação parecia óbvia: o velho bonzinho havia chegado longe demais: seu notório prestígio junto às famílias havia deixado de lado outros símbolos considerados pela Igreja como mais importantes, dentre os quais o presépio e o Menino Jesus. Tal ressentimento se justificava pelo fato de que, segundo a explicação local, o Papai Noel americano representava, na interpretação do estudioso Gerry Bowler, “a paganização de uma importante festa cristã e era mito destituído do valor religioso; e era um herege e um usurpador”.
 
Assim, o Papai Noel foi queimado ao vivo, na presença de 250 crianças. A Associação Cristã dos Moços (ligada à igreja local) emitiu uma nota que dizia: “Desejosos de combater as mentiras e as histórias falsas, queimamos esse Papai Noel. A intenção não foi fazer uma demonstração esportiva ou comercial, mas sim proclamar alto e bom som que as mentiras não podem despertar o sentimento religioso de uma criança e absolutamente não são um método de educação para a vida”.
 
Daí em diante, muitas igrejas protestantes passaram a fazer uma nova reflexão sobre a necessidade ou não de preservar essa tradição. Em 1975, uma igreja da Flórida promoveu um linchamento de duas imagens de Papai Noel. Cinco anos depois, outra igreja simbolizou o julgamento do velhinho, acusado de fraude e perjúrio, tendo o réu sido condenado e em seguida enforcado.
 
Um folheto na Carolina do Norte (não sabemos seu autor) chegou ao extremo e apresentou Papai Noel como sendo o próprio Diabo e acabou incluindo um poema chamado “Ho! Ho! Ho!”, que dizia: “O Diabo tem um demônio, o nome dele é Papai Noel. Ele é um demônio velho e sujo (...) Um dia eles vão se apresentar diante de Deus, sem o seu saco de bugigangas (...) condenados para o Inferno eterno, onde não haverá Ho! Ho! Ho!”.
 
As pesadas críticas se fizeram acompanhadas não somente de membros ligados à religião. O primeiro diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou a declarar no início da década de 1950 que iria levar o caso do Papai Noel para as Nações Unidas, com o fim de privar as crianças de todo tipo de ficção capaz de incutir em suas mentes ideias completamente distanciadas da realidade. Em décadas posteriores, houve casos em que os professores chegaram a proibir que seus alunos fossem cumprimentados com a frase “Feliz Natal”. Não vingou, e a tradição persistiu.
 
Finalizamos esta matéria com uma frase dita por um pai ficcional, publicada em 1856, quando ele chega para sua esposa e diz: “A partir de agora o Natal deve ser uma instituição em nossa família! (...) Sou um homem melhor por causa do que fiz na noite passada e da diversão inocente de hoje. Sinto-me vinte anos mais jovem e cinquenta pontos mais feliz. Compensa, minha querida, compensa!”.
 
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Resumidamente, temos: (1) as brincadeiras de amigo oculto no final de ano tiveram origem no paganismo romano; (2) as comemorações do Natal são antigas e coexistiram no tempo com as festas pagãs com significados parecidos; (3) as origens de um presenteador natalino remontam ao começo do século XII, e estão diretamente associadas a São Nicolau; (4) a origem do Papai Noel como o concebemos hoje remonta às primeiras décadas do século 19, nos Estados Unidos; (5) as igrejas protestantes ora repudiaram o Papai Noel e as festas natalinas, ora os receberam de braços abertos de acordo com as conveniências teológicas e pedagógicas.
 
Leia também:
 
Jesus não nasceu em 25 de dezembro:
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Sábado ou domingo?
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A conversão de Constantino ao cristianismo:
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segunda-feira, 30 de julho de 2012

ADOLF HITLER TINHA HÁLITO FEDIDO, UM TESTÍCULO NÃO DESCIDO E MANIA DE LIMPEZA: CURIOSIDADES SOBRE O FÜHRER

Hitler, em seu escritório (imagens da internet)
Ele ainda é mencionado como o maior genocida da história, razão por que seu nome figura entre aqueles que são considerados os maiores inimigos da humanidade. Incontáveis obras já foram lançadas a respeito da história da 2ª Guerra Mundial, bem como a vida do Führer, o que faz dos dois assuntos serem bastantes conhecidos – não só nos círculos acadêmicos.
Tentaremos sintetizar, de acordo com o que temos à disposição, algumas curiosidades (de fato interessantes) que envolvem Adolf Hitler. É o que o(a) leitor(a) poderá acompanhar nas páginas abaixo.

Adolf Hitler tinha estatura mediana, algo incomum em relação aos alemães, que eram considerados de estatura alta – pelo menos em sua grande maioria, o que não o impedia de ser uma celebridade perante os olhares daqueles que o cercavam, seja nos momentos públicos, seja nos momentos privados. Tinha a pele clara e olhos azuis. Seu hálito desagradável (provavelmente decorrente de seus problemas estomacais crônicos) não afastava de si aqueles que o admiravam. Tentava compensar o fedor que exalava de sua boca por meio de constante higiene dental.

Ao passar pelas ruas, a multidão se espremia para vê-lo. Tocá-lo, por exemplo, seria um momento inesquecível para essa legião de fãs que o seguiam na Alemanha dos anos 30 e início dos anos 40. Não era por menos que ele se vestia impecavelmente (gostava de paletós largos, para gesticular muito), pois queria sempre se apresentar bem perante o grande público e aqueles que de si se aproximavam cotidianamente.

O Führer desenvolveu um tipo de saudação (não nos referimos àquela de erguer a mão direita) na qual ele apertava, com bastante força, a mão ao cumprimentar os homens (sempre olhando bem dentro dos olhos), acrescentando, inclusive, uma espécie de “balanço” junto à mão de quem era cumprimentado, decerto com a intenção de mostrar segurança, autoridade. Quanto às mulheres, no entanto, limitava-se à gentileza, ao cavalheirismo, o que o fez ser admirado por muitas alemãs de seu tempo.

Sabia agradar e gostava de falar muito. Fazia questão de ser o centro das atenções. Contrariá-lo seria a mesma coisa que não lhe obedecer: ficava rancoroso e não hesitava na hora de dar o troco. Arrogava para si uma inteligência incomum (e de fato era inteligente), achando-se a última moeda do cofre. Chegou a declarar: “Não quero ter filhos. Já observei que descendentes de gênios geralmente sofrem demais”, uma clara demonstração de seu convencimento em matéria de supremacia própria.

Gostava de contar os feitos de quando ainda era jovem, os quais sempre o projetavam para um heroísmo estilo norte-americano dos filmes conhecidos atualmente. Narcisista por natureza. Tinha uma intuição aguçada: dos sete atentados que sofreu, pressentiu que algo lhe estava para acontecer.

Dizia-se corajoso, perspicaz, dando uma impressão de ser imortal, um semideus. De fato, embora não sendo ateu e muito menos adepto de uma religião (chegou a consultar videntes, mas zombava de suas previsões), cria numa providência sobrenatural, tanto que, mesmo quando já havia claros sinais de sua derrota militar, chegou a imaginar que essa mesma providência proporcionaria uma saída milagrosa, revertendo o destino que o selou definitivamente.

Não gostava de se apresentar vulnerável, daí o porquê de ter evitado se mostrar publicamente usando óculos. Chegou, inclusive - tentando compensar eventuais problemas visuais -, a ordenar fossem instaladas na Chancelaria máquinas de escrever com letras maiores do que as normais.

Tinha mania de limpeza. A razão se deve, muito provavelmente, pelo fato de achar que qualquer doença o conduzia à sensação de estar prestes à morte (tinha muito medo de morrer), o que explica a importância que os médicos exerceram em sua vida. Estes, por sinal, desempenharam um papel importante no tratamento de seus problemas de estômago e intestino, os quais incomodavam constantemente o ditador alemão. Consta que, no final da vida, tomava 28 medicamentos, muitos dos quais diariamente.

A partir de julho de 1944 (quando sofreu um atentado que por muito pouco não o matou), aumentou consideravelmente um tremor na mão direita, cujo mal o perseguiu até o dia em que o mesmo cometeu suicídio, em 30 de abril de 1945.

Embora Hitler fosse extremamente cuidadoso em matéria de saúde, ele se negava a fazer exames físicos completos, o que o impedia de se despir na frente de quem quer que fosse. A razão estaria na anormalidade de seus genitais: um testículo não descido. Ele também ainda sofria de outra anomalia: a uretra se abria na parte de baixo do pênis (um problema que atinge também as mulheres). Assim, o ditador que propunha a pureza e a superioridade racial, pregando o desaparecimento de quem apresentasse alguma anomalia genética, não poderia revelar os seus próprios problemas genéticos.

Adolf Hitler tinha uma dieta alimentar controlada. Adorava frutas, verduras e legumes. Não era fã de carne, principalmente depois que presenciou sua sobrinha morta (que cometeu suicídio, muito provavelmente por causa do tio ciumento – Hitler –, com quem manteve um caso amoroso).

Não bebia nem fumava, embora tivesse sido flagrado bebendo cerveja, um típico costume dos alemães. Não abria mão de bolos, principalmente se fossem cremosos e açucarados (ainda hoje é difícil saber se era Hitler que gostava mais de bolos ou se D. João VI de frangos assados). Sendo necessário, ele (o ditador alemão) abria mão dos rigores alimentares só para aumentar seu prestígio com o povo. Quando começou a criar barriga, sua amante Eva Braun (na cama, ele era masoquista e gostava de ser chamado de nenê) o convenceu a fazer caminhadas, alegando que não cabia bem a um chefe de um poderoso império se apresentar em público gordo e com uma barriga aparente.

Tinha hábitos noturnos, tanto que preferia produzir intelectualmente durante as madrugadas. Era hipersensível à luz solar, razão por que não gostava de andar sob o sol forte. Geralmente ia dormir somente depois das 4 da madrugada, e se levantava depois das 11 da manhã.

Era extremamente metódico e não se apartava de sua velha rotina. Só não foi superado pelo filósofo Kant, conhecido por sua rotina quase inabalável. Hitler tomava café da manhã ao meio-dia, e em seguida despachava com seus subordinados mais próximos. Durante o almoço (geralmente acompanhado de dez pessoas), o Führer gostava de falar muito, mostrando seus dotes intelectuais: dissertava sobre os mais variados assuntos: história, arte, política e ciências.

O maior genocida da história era dado à leitura. Gabava-se de ler um livro por dia (o que é provavelmente um exagero – do tempo recorde e não do gosto pelos livros). Sua biblioteca continha mais de 16 mil volumes, muitos dos quais obras raras e consideradas eruditas, dentre as quais as coleções completas de Goethe, Schiller, Kant e Shakespeare, cujos livros se achavam luxuosamente encadernados. Hitler tinha uma paixão especial por dicionários, tanto que entre seus livros foi encontrada uma coleção de 12 volumes. Tinha uma memória invejável, fato este que o levou a reter grande número de informações extraídas das seguidas leituras que fazia.

Não dispensava o famoso cochilo depois do almoço. Gostava de se deitar no sofá, sempre com as mãos sobre os olhos. Quem o despertava era Eva Braun (sua amante), que tinha o hábito de iniciar uma conversa ao pé do ouvido do Führer, em tom mais elevado, numa tentativa de acordá-lo de seu sono vespertino.

O jantar começava costumeiramente por volta das 20 horas. Em seguida todos iam assistir a uma sessão de cinema, cujos filmes preferidos eram King Kong, Branca de Neve e os Sete Anões e Metropolis. Depois, todos participavam de conversas informais, sempre centralizadas na figura do ditador, que tinha o costume de se prolongar em sua fala, principalmente quando estava preocupado com algo. Era comum a fadiga dos ouvintes, que disfarçavam o inconveniente.

Adolf Hitler tinha também o seu lado cômico: gostava de fazer imitações para seus convidados. Os alvos escolhidos eram os líderes estrangeiros, atentamente observados pelo Führer durante os encontros internacionais. Ele gostava de imitar seus trejeitos e maneira de falar. É de se presumir que Stalin, Mussolini, Charles de Gaulle, Roosevelt e Churchill foram imitados pelo ditador alemão, doutor em dissimulação. Com o primeiro, foi criada inclusive uma caricatura onde os dois, abraçados, firmavam o noivado (Hitler o noivo e Stalin a noiva), uma referência ao pacto de não agressão acordados pelos dois líderes, pouco antes do início da guerra.

Embora dado à arte de imitar, Hitler não gostava de sorrir. Sua secretária pessoal e seu guarda-costas relatam que o viram sorrir com maior intensidade somente em duas ocasiões: uma quando a França se rendeu, em 1940 (ele dançou na frente dos generais, que ficaram bastante surpresos), e a outra quando aconteceu a anexação da Tchecoslováquia. Neste último caso, ao sair da sala de reuniões, o ditador pediu às duas secretárias que o beijassem, uma em cada bochecha: “Minhas queridas, tenho uma boa notícia. Hacha [presidente do país] acaba de assinar. É o maior triunfo da minha vida. Vou entrar para a história como o maior dos alemães”. E deu um sorriso radiante!

Muitas vezes gentil, mas perdia a prudência sempre que era contrariado ou estivesse passando por problemas pessoais, principalmente quando a Alemanha perdia a guerra pouco a pouco. Quando isto acontecia, dava gritos em seus subordinados, cujo som ecoava nos corredores da Chancelaria.

Certa vez, lia, em pé, sob uma árvore, a alguns metros de seu segurança particular, quando uma mosca passou a incomodá-lo copiosamente. Tentou afastá-la, mas sempre sem sucesso. O segurança se conteve para não rir do episódio. Perceptivo, Hitler notou a intenção do soldado, e disparou: “Se não é capaz de manter um bicho desses longe de mim, significa que não preciso de um segurança desses!”. Não deu outra: o rapaz foi demitido de suas funções.

Hitler tinha uma paixão especial por cachorros. Cuidava, com muito carinho, de alguns deles, com quem desfrutava de momentos descontraídos, geralmente quando ele subia a montanha, em sua casa de campo – um dos lugares preferidos do Führer. Chegou a declarar que “Casamento está fora de questão. Se precisar de amor incondicional, sempre poderei contar com Blondi e Prinz [pastores-alemães]”. A frase por si só demonstra quanto carinho ele nutria pelos cães de estimação, sendo a cadela Burly sua preferida, tanto que tinha acesso a seus dossiês secretos (mordia, colocava na boca) e se achava no direito de se deitar nas poltronas da sala de estar do ditador. Hitler costumeiramente fazia carinhos nos animais, mas mudava de comportamento repentinamente quando chegavam visitas, em cujos momentos chegava a despedir os cães com brutalidade, uma forma de camuflar seu lado dócil e vulnerável.

O líder alemão era dissimulado: afirmava uma coisa e fazia outra. Chegou a declarar que jamais anexaria a Tchecoslováquia, escondendo, assim, seu plano maquiavélico. Na invasão à Polônia, ordenou que os soldados agissem brutalmente, com a máxima severidade, não poupando as crianças nem os velhos. Consta que a mãe do Führer era superprotetora, convencendo-o de que ele era o máximo. Seu pai, por sua vez, alimentou o ego do ditador com excesso de patriotismo e de autoestima.

Seus últimos dias de vida lhe foram dolorosos e angustiantes. Suas roupas, antes impecáveis, agora demonstravam o desleixo: era comum encontrar restos de bolos em seus paletós. Sua sobremesa favorita, outrora ingerida comedidamente, era devorada em vários momentos do dia, sempre às pressas, como se alguém fosse roubá-la de suas mãos. Passou a ficar hipertenso e desenvolveu o mal de Parkinson. Dormia cada vez mais tarde e menos. Andava curvado e envelheceu muito nos últimos meses. Passou a culpar seus soldados de traição e não viu outra saída senão o suicídio. Três dias antes, porém, se casou com Eva Braun. No dia 29 de abril de 1945, testou o veneno que tomaria no dia seguinte em uma de suas cadelas. Hitler também não queria que seus cães fossem mortos ou levados pelos russos. No dia 1º de maio, um dia após a morte do Führer, a esposa de Joseph Goebbels dá veneno para os seis filhos do casal e em seguida faz o mesmo.

Assim como aconteceu com o médico nazista Mengele (morto por um derrame e afogamento numa praia brasileira, em fevereiro de 1979), a forma como Hitler morreu é vista como desproporcional em relação às perversidades que ambos praticaram em vida. A dor sofrida pelos dois parece de fato insignificante ante a crueldade em questão, cabendo apenas uma observação: levando em conta o caráter e o modo de ser do líder alemão, suas ideologias e seu desejo incessante de vitória, é prudente afirmar que a partir de 1943 (quando o exército alemão sofre uma decisiva derrota na Rússia), e principalmente nos últimos meses de vida, ele (Hitler) sofreu de uma dor que machuca profundamente (a popular “dor na alma ou emocional”), tanto que seu comportamento e sua estrutura física e psicológica revelaram de forma inequívoca seu pesar, ainda que isto seja incomparavelmente menor do que suas monstruosidades praticadas principalmente nos seus últimos dez anos de vida.

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domingo, 22 de abril de 2012

SÁBADO OU DOMINGO? DOCUMENTOS HISTÓRICOS REVELAM A CRENÇA DO CRISTIANISMO PRIMITIVO


Devemos guardar o sábado ou o domingo? A igreja primitiva guardava um dos dois dias? O que nos dizem os documentos históricos? O que podemos extrair da história do cristianismo nos seus primeiros séculos de existência? Constantino foi mesmo o grande responsável pela mudança do sábado para o domingo?
Essa velha disputa entre sabatistas e dominicais tem pelo menos o marco cronológico em que não se questionava a guarda do sábado como sendo o dia sagrado, conforme os termos bíblicos. Pode-se dizer, seguramente, que antes da morte (e ressurreição) de Jesus Cristo não se reivindicava a utilização do domingo com essa finalidade. A questão estaria, pois, a partir de sua morte (e ressurreição), quando deu início a saga cristã.

Quando, enfim, o cristianismo primitivo passou a adotar o domingo em substituição ao sábado?

Os sabatistas alegam que foi a partir de Constantino, notadamente porque a fundadora da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Ellen White (1827 – 1915), sustentou que foi o referido imperador romano o grande vilão, sendo o falsário e o maior responsável por esse embuste.

Uma coisa pelo menos é certa: Constantino deu a palavra final, decididamente capaz de manter, no seio da nova igreja, o costume de se guardar o domingo e não mais o sábado. No entanto, parece ser, do ponto de vista histórico, uma acusação precipitada no que concerne à afirmação de que ele teria sido seu grande inventor, ainda que movido pelas muitas razões políticas e religiosas da época – a exemplo da criação do Natal em 25 de dezembro, uma clara tentativa de sufocar a festa pagã do culto ao Sol Invictus, patrono oficial de todo o Império romano a partir do governo de Aureliano (270 – 275).

Assim, antes mesmo de trazermos alguns textos históricos, fica a observação de que a questão da adoção do domingo como dia sagrado e a adoção do dia 25 de dezembro como sendo o dia de nascimento de Cristo têm contextos próprios, e não se sujeitam às mesmas bases históricas, de modo que se pode assegurar que, em relação ao primeiro questionamento, temos documentos que sustentam essa tese (a de que muito antes de Constantino os cristãos já guardavam o domingo), ao passo que em relação ao segundo, nada se sabe, do ponto de vista documental, acerca da real data de nascimento de Cristo, sendo, portanto, seguro afirmar, até aqui, que se trata de uma invenção da Igreja Católica quando a mesma ainda sequer havia sido oficializada.

Quais são, enfim, os textos documentados que corroboram a tese de que ainda no primeiro século os cristãos já observavam o domingo e não mais o sábado?

Preliminarmente vamos citar um trecho de Plínio, o Jovem, escrito por volta de 112 d.C. Vale ressaltar, no entanto, que nesta passagem não fica evidenciado o dia da semana, mas já nos mostra que havia um dia específico para as práticas litúrgicas em questão:

“... tinham os cristãos o hábito de reunir-se em um dia fixo antes de sair o sol, quando entoavam um cântico a Cristo como Deus e se comprometiam, mercê de solene juramento, a não praticar nenhum ato mau, a abster-se de toda fraudulência, furto e adultério, a jamais quebrar a palavra empenhada ou deixar de saldar um compromisso em chegando a data do vencimento, após o quê era costume separarem-se e reunir-se novamente para participar do banquete comum, servindo-se de alimento de natureza ordinária e inocente”.

Inácio de Antioquia (68 – 107) escreveu:

“Aqueles que estavam presos às velhas coisas vieram a uma novidade de confiança, não mais guardando o sábado, porém vivendo de acordo com o dia do Senhor (domingo)”.

Tertuliano de Cartago (160 – 220) também abordou o presente tema:

“Nós (os cristãos) nada temos com o sábado, nem com outras festas judaicas, e menos ainda com as celebrações dos pagãos. Temos nossas próprias solenidades: O Dia do Senhor...”

Justino, o Mártir, escreveu, por volta de 150 d.C., uma carta ao imperador Antonino Pio, na qual ele faz uma enfática apologia à fé cristã. Consta, do referido documento, um trecho que disserta, em palavras esclarecedoras, sobre o costume dos primeiros cristãos quanto a guarda do domingo e não mais do sábado, como pretendem os sabatistas. Leiamos o valioso texto, que mostra, ainda, outros costumes litúrgicos dos primeiros cristãos.

No dia que se chama do sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se leem, enquanto o tempo o permite, as Memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas. Quando o leitor termina, o presidente faz uma exortação e convite para imitarmos esses belos exemplos. Em seguida, levantamo-nos todos juntos e elevamos nossas preces. Depois de terminadas, como já dissemos, oferece-se pão, vinho e água, e o presidente, conforme suas forças, faz igualmente subir a Deus suas preces e ações de graças e todo o povo exclama, dizendo: 'Amém'. Vem depois a distribuição e participação feita a cada um dos alimentos consagrados pela ação de graças e seu envio aos ausentes pelos diáconos. Os que possuem alguma coisa e queiram, cada um conforme sua livre vontade, dá o que bem lhe parece, e o que foi recolhido se entrega ao presidente. Ele o distribui a órfãos e viúvas, aos que por necessidade ou outra causa estão necessitados, aos que estão nas prisões, aos forasteiros de passagem, numa palavra, ele se torna o provedor de todos os que se encontram em necessidade. Celebramos essa reunião geral no dia do sol, porque foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, fez o mundo, e também o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos. Com efeito, sabe-se que o crucificaram um dia antes do dia de Saturno e no dia seguinte ao de Saturno, que é o dia do Sol, ele apareceu a seus apóstolos e discípulos, e nos ensinou essas mesmas doutrinas que estamos expondo para vosso exame”. [Destaques de nossa autoria]

Vimos, pelos textos acima transcritos, especialmente neste de Justino, que o domingo já era observado pelos cristãos do primeiro século, e não mais o sábado. Não é pretensão assinalar, assim, que havia no seio da Igreja primitiva o hábito de adotar o domingo como o dia sagrado, de modo que atribuir a Constantino a substituição aqui mencionada nos parece um tanto sem base histórica, ainda que o dito imperador tenha oficializado tal prática litúrgica.

Vale dizer ainda, para se evitar eventual especulação, que a oficialização nada tem a ver, em sua essência, com a adoção abrupta de um ato litúrgico. Em outras palavras, o que Constantino fez foi apenas confirmar, formalmente, uma antiga prática cristã, nascida muito provavelmente a partir da morte dos apóstolos Pedro e Paulo.

Ao se afirmar que o imperador cristão ratificou uma velha tradição, não se está dizendo, no entanto, que ele o fez movido somente por intenções tendenciosas. Falamos assim porque, da mesma forma como ocorreu em relação à invenção do Natal em 25 de dezembro, nos termos já dissertados nesta matéria, pode-se deduzir que os planos de Constantino eram exatamente eliminar toda e qualquer data especial das festas pagãs.

A primeira refutação se concentra no fato de que o dito imperador não era, declaradamente, inimigo do paganismo, do qual ele próprio foi seguidor antes de se julgar cristão. Depois, a reiterada utilização da expressão “Dia do Sol” se deve por razões históricas, cronologicamente localizadas. Ou seja: os escritores que se referiram a essa prática cristã (a adoção do domingo) o fizeram se utilizando de uma terminologia bastante conhecida da época, ainda que ela tenha ligação direta com o paganismo. O mesmo fenômeno é observado, por exemplo, quando o historiador Cornélio Tácito, em 115 d.C., se referiu a Pôncio Pilatos como sendo procurador, embora na época o título correspondente fosse de prefeito. A expressão “Dia do Sol” era muito conhecida e empregada entre os século II e V, razão por que os apologistas cristãos adotavam-na em seus escritos.

Conclui-se, portanto, que a substituição do sábado para o domingo não é uma invenção da Igreja Católica, muito menos de autoria do polêmico imperador Constantino, ainda que temos razões de sobra para afirmar que a referida igreja inventou dogmas que, no decorrer dos séculos, revelaram o afastamento de vários ensinamentos bíblicos. Conforme vimos, é altamente provável que a adoção do domingo como o dia consagrado para os cristãos, em detrimento do sábado, tenha tido sua origem ainda no final do primeiro século do cristianismo.

NOTA DO AUTOR DO BLOG*: A presente matéria não é, como é de se ver, uma análise teológica da questão, mas unicamente histórica. Pelos relatos dos textos canônicos do NT, embora esteja evidente a abolição da obrigatoriedade de se guardar o sábado. Quanto à guarda do domingo, frequentemente são utilizadas as seguintes passagens do Novo Testamento: Atos 20:7 e I Coríntios 16:1-2.

*O presente texto sofreu algumas alterações em 30.04.2016.
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Leia também:

Jesus não nasceu em 25 de dezembro:


A conversão de Constantino:


A relação entre Constantino e a Igreja Católica:

http://historiaesuascuriosidades.blogspot.com.br/2012/02/cartas-de-constantino-mostram-estreita.html.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

DOAÇÃO DE DINHEIRO E RESTITUIÇÃO DE ANTIGOS BENS IMÓVEIS: CARTAS DE CONSTANTINO MOSTRAM A ESTREITA RELAÇÃO ENTRE A IGREJA CRISTÃ E O IMPÉRIO ROMANO (IMPERDÍVEL)


No mês de maio de 2010 este blog publicou trechos de uma carta do imperador Constantino ao rei persa, na qual ele dá claras demonstrações de que havia de fato se convertido ao cristianismo. Há quem duvide de sua conversão. O Edito de Milão, em 313 – através do qual Constantino concede liberdade religiosa em todo o Império - é apontado como uma saída política, uma vez que o crescimento do número de cristãos (mesmo duramente perseguidos) era um fenômeno irreversível, de modo que já não valia a pena o Estado militar contra tal segmento religioso.

Ratificamos o que dissemos outrora e, por questões de ênfase, mais uma vez transcrevemos o referido trecho e, em seguida, trechos de outras cartas e de dispositivos legais, inéditos no blog, nos quais o imperador revela seu interesse em solucionar velhos problemas que envolvem os cristãos, notadamente a questão dos bens imóveis da Igreja, os quais se achavam em poder de terceiros, assim como a doação de dinheiro a líderes cristãos. Os textos abaixo transcritos são, indiscutivelmente, de grande valor histórico. Recomendamos uma leitura despreocupada, desprovida de qualquer pressa.

Carta ao rei persa:

"Somente pela minha fé em Cristo Jesus é que os subjuguei. Por isso, Deus foi meu ajudador, deu-me a vitória na batalha e faz-me triunfar sobre meus inimigos. Da mesma maneira me tem ampliado os limites do Império Romano, de modo que se estende desde o Oceano Ocidental até quase os confins do Oriente. E nestes domínios não tenho oferecido sacrifícios às antigas divindades, nem usado os encantamentos ou adivinhações: só tenho oferecido orações ao Deus Onipotente, e seguido a cruz de Cristo. Muito me regozijaria se o trono da Pérsia achasse também glória e abraçasse os cristãos, de modo que tu comigo, e eles contigo, pudéssemos gozar a verdadeira felicidade."

Eusébio de Cesareia registrou, em sua famosa História Eclesiástica (século IV d.C.), algumas cartas do imperador e dispositivos legais, nos quais ele revela a estreita relação entre Igreja e Estado.

Vale relembrar que era uma prática bastante comum em todo o Império o envio de cartas entre os imperadores e seus subordinados e entre aqueles e o Senado. De igual modo era bastante comum qualquer do povo enviar cartas ao imperador e ao Senado.

Lei imperial acerca dos cristãos:

“Quando eu, Constantino Augusto, e eu, Licínio Augusto, nos reunimos felizmente em Milão, e nos pusemos a discutir tudo o que importava ao proveito e utilidade públicas, entre as coisas que nos pareciam de utilidade para todos em muitos aspectos, decidimos sobretudo distribuir umas primeiras disposições em que se asseguravam o respeito e o culto à divindade, isto é, para dar, tanto aos cristãos quanto a todos em geral, livre escolha para seguir a religião que quisessem, com o fim de que tanto a nós quanto aos que vivem sob nossa autoridade nos possam ser favoráveis a divindade e os poderes celestiais que existem.”

Prossegue Constantino:

“Portanto, foi por um saudável e retíssimo arrazoamento que decidimos tomar esta nossa resolução: que a ninguém se negue em absoluto a faculdade de seguir e escolher a observância ou a religião dos cristãos, e que a cada um se dê a faculdade de entregar sua própria mente à religião que creia que se adapta a ele, a fim de que a divindade possa em todas as coisas outorgar-nos sua habitual solicitude e benevolência”.

Continua:

“Assim era natural que déssemos por decreto o que era de nosso agrado: que, suprimidas por completo as condições que se tinham em nossas primeiras cartas a tua santidade acerca dos cristãos, também se suprimisse tudo o que parecia ser inteiramente sinistro e alheio a nossa mansidão, e agora cada um dos que sustentam a mesma resolução de observar a religião dos cristãos, observe-a livre e simplesmente, sem impedimento algum. Tudo isto decidimos manifestar da maneira mais completa a tua solicitude,para que saibas que nós demos aos mesmos cristaos livre e absoluta faculdade de cultivar sua própria religião”.

No trecho abaixo, Constantino parece tentar convencer a elite cristã de que, uma vez já foram atendidos os interesses do cristianismo em relação à liberdade de crença, os mesmos devem respeitar outras crenças, tudo com o fim de manter a paz em todo o império.

“Já que estais vendo o que precisamente lhes demos sem restrição alguma, tua santidade compreenderá que também a outros, a quem queira, da-se-lhes faculdade de prosseguir suas próprias observâncias e religiões – o que precisamente está claro que convém à tranquilidade de nossos tempos -, de sorte que cada um tenha possibilidade de escolher e dar culto à divindade que queira. Isto é o que fizemos, com o fim de que não pareça que desprezamos o mínimo a honra ou a religião de ninguém”.

Logo em seguida, o imperador se mostra benevolente para com o cristianismo, e explica sua decisão em relação ao direito dos cristãos de receberem de volta quaisquer bens imóveis objetos de prática litúrgica.

“Mas, além disto, em atenção às pessoas dos cristãos, decidimos também o seguinte: que seus lugares em que anteriormente tinham por costume reunir-se e acerca dos quais já em carta anterior enviada a tua santidade havia outra regra, delimitada para tempo anterior, se parecer que alguém os tenha comprado, seja de nosso tesouro público, seja de qualquer outro, que os restitua aos mesmos cristãos, sem reclamar dinheiro nem compensação alguma, deixando de lado toda negligência e todo equívoco. E se alguns, por acaso, os receberam como doação, que estes mesmos lugares sejam restituídos o mais rapidamente possível aos mesmos cristãos”.

Constantino se dispôs, inclusive, a indenizar aqueles que se achavam - na ocasião da lei imperial – donos de bens imóveis sujeitos à restituição aos cristãos:

“... guardada, evidentemente, a razão exposta acima: que aqueles, como dissemos, que os restituírem sem recompensa, esperem de nossa benevolência sua própria indenização”.

O imperador parecia não só ter pressa em relação ao cumprimento de tal decisão, como também interesse em se certificar de que sua ordem havia sido fielmente cumprida. Em uma carta endereçada a Anulino, governador proconsular da África, veja o que ele escreve à referida autoridade:

“Daí que queiramos que, ao receber esta carta, se, em cada cidade ou inclusive em outros lugares, alguns destes bens pertenciam à Igreja católica* dos cristãos e agora os detenham cidadãos ou outras pessoas, faças com que ditos bens sejam restituídos imediatamente às mesmas igrejas, posto que decidimos que precisamente aquilo que as ditas igrejas prossuíam antes seja restituído a seu direito (...) apressa-te para que tudo, sejam jardins, casas ou qualquer outra coisa que pertença ao direito das ditas igrejas, seja-lhes restituído o mais rapidamente possível, de sorte que chegue ao nosso conhecimento que aplicaste a esta nossa ordem a mais escrupulosa obediência...”.

Havia interesse do imperador, ainda, de prover financeiramente a Igreja. Os trechos de uma carta mediante a qual se faz doações de dinheiro às igrejas cristãs mostram bem tal interesse:

“Constantino Augusto e Ceciliano, bispo de Cartago. Posto que em todas as províncias, particularmente nas Áfricas, nas Numídias e nas Mauritânias [o uso no plural se deve à divisão da diocese da África em províncias por parte de Diocleciano], determinei que se outorgasse algo para os gastos de alguns ministros designados da legítima e santíssima religião católica*, despachei uma carta para o perfeitíssimo Urso, diretor geral das finanças da África...”.

Prossegue o imperador:

“Tu, por conseguinte, quando acusardes o recebimento da indicada quantia de dinheiro, manda que este dinheiro seja repartido a todas as pessoas acima mencionadas conforme o documento que Osio te enviou. Mas se perceberes que falta algo para o cumprimento deste meu plano relativo a eles, deverás pedir sem denoma a Heráclides, o procurador de nossos bens, o quanto saibas que é necessário, já que, achando-se aqui presente, dei-lhe ordens para que se preocupasse de pagar-te sem menor vacilação, no caso de que tua firmeza lhe pedisse algum dinheiro”.

Conforme vimos, os documentos acima transcritos não deixam dúvidas de que a Igreja cristã recebeu o incondicional apoio do Império Romano, após longos e cansativos anos de perseguição.
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* O termo “católico”, empregado por Eusébio de Cesareia mesmo antes do nascimento oficial da Igreja Católica Apostólica Romana em 381 d.C., não implica dizer, necessariamente, que se tratava da referida Igreja como a concebemos hoje. O citado termo passou a ser usado, muito provavelmente, no final do segundo século (depois de Cristo), e de forma não generalizada, uma vez que havia muitos segmentos cristãos, cada um com variantes diferentes em relação às próprias crenças cristãs. O termo aqui tratado passou a ser empregado, gradativamente, por um grupo de cristãos que se impuseram pelo significativo número de seguidores que guardavam as mesmas crenças (ou muito parecidas), de sorte que, aos poucos, se pôde observar o surgimento de um corpo eclesiástico distribuído hierarquicamente, matriz da atual Igreja católica. Só aos poucos a citada Igreja foi adotando dogmas que, ao que parece, foram se afastando cada vez mais da igreja primitiva.

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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O MASSACRE NA FURNA DOS CABOCLOS: O RELATO DE UMA JOVEM INDÍGENA QUE SOBREVIVEU COMENDO INSETOS E FOI OBRIGADA A VIVER AMARRADA EM UM CANTO DA CASA, E APÓS ANOS DE ESCRAVIDÃO, SE CASOU COM SEU ALGOZ


O que você vai ler agora não está nos livros de história do Brasil. Não está nas salas de aula, e não há quaisquer perspectivas de que o fato ganhe notoriedade ou seja trasladado para os livros didáticos em questão. A única fonte de que dispomos vem de “Na mata do sabiá, contribuições sobre a presença indígena no Ceará”, uma obra que traz vários artigos sobre a atuação dos índios em nosso estado.

Abordaremos o relato acerca de um massacre indígena ocorrido no início do século 19, de cuja chacina restou provavelmente uma única sobrevivente, que teria sido caçada e posteriormente obrigada a viver confinada em um canto de parede. Transcreveremos, ainda, pequenos trechos do depoimento de um descendente dessa jovem, que nos conta em detalhes como se deu o referido massacre e seu desfecho.

Crateús, Ceará, início do século 19. Embora o Ceará já tivesse sido há muito tempo explorado pelo homem branco, os índios ainda encontravam aqui algum espaço para praticar seus rituais e viver da coleta de frutos, raízes e da caça de animais (cotias, mocós, jacus, tatus, veados, pássaros, etc.).

Em todo o Nordeste havia terra de sobra, sem dono, pronta para ser explorada. Vários fazendeiros se diziam proprietários de grandes extensões territoriais, onde criavam gado, ovelha, cujo bem não pretendia disputar com os indígenas, os quais já residiam anteriormente nestas terras.

Os índios não tinham a exata noção de propriedade. Não lhes havia claro discernimento acerca do que o homem branco chamava de “seu”, de sorte que o gado que pastava passou a ser visto pelos nativos como uma excelente opção em tempos de estiagens. O confronto era inevitável: de um lado os fazendeiros prontos para defender a ferro e fogo seus víveres e do outro o índio, acostumado à caça de todo animal vertebral que se movia ao seu redor.

Na cidade de Crateús (CE), há um distrito de nome Monte Nebo (hoje Montenebo), palco da tragédia em questão. Segundo a tradição oral, lá viviam vários índios, os quais tinham o hábito de dormir em uma furna de pedra, provavelmente para se protegerem das onças e do frio. Os mesmos teriam atacado, por diversas vezes, o gado e as ovelhas de um fazendeiro de nome José de Barros.

Sentindo falta dos animais, o proprietário mandou um de seus vaqueiros investigar o motivo do sumiço, cujos culpados teriam sido prontamente apontados pelo espião. Revoltado, o fazendeiro montou um plano traiçoeiro. Ordenou que um de seus criados fizesse amizade com os índios, a fim de que fosse estudado o passo a passo de seus roteiros, principalmente o local onde eles dormiam. Dito e feito. Restava efetivar o plano.

Acostumado ao dia a dia dos índios e já familiarizado com os mesmos, o espião conseguiu ganhar a confiança deles, a ponto de dormir na furna acima mencionada. O papel do espião era basicamente um: cortar as linhas dos arcos, fazendo com que os indígenas ficassem desarmados. Assim foi feito e o plano só não foi completo porque uma única jovem, de 13 ou 14 anos, teria escapado na noite do massacre.

A jovem arredia passou a viver na caatinga, sozinha, lutando em prol de sua sobrevivência, acompanhada da dor que a seguia pela perda de seus familiares. Diz a tradição que o vaqueiro de nome Pedro, a serviço do fazendeiro José de Barros, teria encontrado a indiazinha em pleno mato, a quem o mesmo empreendeu uma dura caçada, disposto a capturá-la ou matá-la, de acordo com a conveniência.

Os dois teriam brigado corpo a corpo, até que ela “pegou aqui nas goela dele … torou o couro... torou e comeu...” e conseguiu fugir. Insatisfeito e muito revoltado com a primeira derrota, o vaqueiro partiu em busca da índia, a quem conseguiu alcançá-la e por fim capturá-la. Em vez de matá-la, ele resolveu criá-la em casa, onde passou a viver amarrada em um canto interno da sala. Arredia, ela se negava a comer e pouco bebia água. Passou a se alimentar de baratas e outros insetos que arrodeavam seu leito. Daí o apelido dado ao senhor Mariano, “Seu Barata”.

Com o passar dos anos, o ódio teria se convertido em afeto. Os dois se casaram, e da união uma descendência, que teria ultrapassado as décadas vindouras, o século 19, e atingiu a geração de seu Mariano, nascido em 1915, casado – segundo ele, com uma descendente dos holandeses que habitaram o Maranhão.

Na noite do massacre foram mortos muitos índios. Não se sabe precisar a quantidade, embora na década de 50 tenha sido encontrado elevado número de ossos humanos. Seu Mariano, descendente da única sobrevivente, afirma que em 1950, a convite de um padre, se dirigiu à gruta - sob pretexto de que lá haveria uma celebração religiosa - , onde foi assediado pelo sacerdote a cavar o local, com o fim de encontrar joias ou algo de valioso deixado pelos índios. No dizer de seu Mariano “... e nós cavemo...nós fizemo uma ruma de osso que dava mais de que o reboque dum trator hoje...”.

Seu Mariano narrou ainda, que na seca de 1952, sustentou várias pessoas somente da caça. Segundo ele, só no referido ano, matou 60 veados, dos quais tirava um pequeno pedaço para almoçar e jantar, e o restante distribuía para os seus. O fato aqui retratado é batizado de “O massacre na furna dos caboclos”.

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