quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

AS MAIS BIZARRAS PRECAUÇÕES PARA EVITAR O MAL E AS TENTAÇÕES DEMONÍACAS

Em outra ocasião, aqui mesmo no blog, tratamos de um caso ocorrido na Idade Média envolvendo uma mulher que se esqueceu de cumprir alguns rituais e acabou sendo cavalgada pelo diabo enquanto dormia. Já em outro momento vimos que a expressão "Deus te dê saúde", empregada logo que alguém espirra, também veio da Idade Média e tinha por finalidade expelir os demônios que haviam infectado o doente.

Rituais do tipo naquela época eram abundantes. A fiel crença de que o capeta estava por todo lado a importunar os viventes fez com que muitas fórmulas fossem utilizadas. Vejamos mais algumas delas.

Acreditavam que o diabo não poderia incomodar durante o dia quem fizesse o sinal da cruz pela manhã e lavasse as mãos antes de sair de casa. Por sua vez, quem não rezar antes do jantar, terá o diabo sentado, invisível, à mesa, e, juntamente com os demais presentes, comerá e beberá.

Havia, também, a crença de que, se caçarolas ferviam fora do fogo, era a prova de que não havia feiticeiras na casa.

A água-benta entregue na missa de domingo tinha o poder de proteger o agraciado (por toda a semana), das investidas dos demônios. O poder da referida água ia mais além: o capeta jamais poderia tocar na pessoa, pois ficaria a uma distância mínima de dois metros.

E por falar em água-benta, aquele que não a recebesse no domingo, teria o diabo sentado sobre seus ombros dia e noite, de forma invisível. Ela (a água), só teria eficácia se fosse entregue pelas mãos do padre. Caso contrário, não surtiria efeito.

Para espantar os lobos (comuns em um grande período medieval), bastava tirar o cinto que cingia o próprio corpo, arrastá-lo pelo chão, ao mesmo tempo que deveria recitar o seguinte texto: "Atenção, lobo, afaste-se para que a mãe de Deus não te chicoteie".

Para repreender tempestades, era suficiente atear fogo em quatro bastões cruzados de carvalho e fazer uma cruz por cima.

Sobre a tempestade, ainda é comum no Nordeste brasileiro fazer uma cruz com os dedos e proferir uma citação, a fim de que a ventania mude de rumo.

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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

TESTAMENTO DE PADRE CÍCERO (PARTE 14)

Abaixo, a décima quarta parte do testamento de Padre Cícero. A transcrição é fiel ao documento original, o que explica os vários erros gramaticais. No trecho abaixo o padre continua a inventariar seus bens, um dos quais parece conter uma mina de cobre, bem como ratifica seu desejo em relação ao seu funeral. Acompanhe.

"Decima Primeira - Deixo a minha propriedade a fazenda Coxá encravada nos Municípios de Aurora e Milagres e comprehendendo na mesma área os sitios Coxá propriamente dito, Contendas, Escondido, Taveira e Bandeira com todas as bemfeitorias e com todos os meus direitos nas minas cobre que ditas terras possam conter bem como o sitio Lameiro sito mo municipio de Missão Velha para que sejam vendidos e com importancia adquirida pela venda dessas mesmas propriedades sejam pagas as dividas que eu possa deixar quando morrer, as despezas do meu enterramento e os sufragios de minh'alma.

E o que sobrar dessa mesma importancia seja entregue a Maria das Malvas, a Maria de Jesus (vulgo Babá), a Thereza Maria de Jesus (vulgo Therezinha do Padre), a Beata Jeronyma (vulgo Geluca), Maria Eudoxia da Assumpção e a cada uma das duas filhas de meu primo Francisco Belmiro Maia quinhentos mil reis (500$000) para cada uma e o que sobrar seja entregue a Congregação Salesiana que aqui se fundar para os seus respectivos Padres celebrarem missas por minh'alma e na intensão de Nossa Senhora das Dores e das almas do Purgatorio.

Decima Segunda - Deixo ainda para Maria das Malvas, Maria de Jesus (Babá), Therezinha do Padre, Beata Geluca e Maria Eudoxia de Assumpção, o sitio Barro Branco, neste Municipio, para desfructarem enquanto viverem, o qual por morte da ultima sobrevivente passará a pertencer aos Salesianos.

Decima Terceira - Desejo ser sepultado conforme já disse no começo deste testamento na Capella de Nossa Senhora do Perpetuo Socorro no Cemiterio desta cidade e que os meus funeraes sejam feitos com simplicidade, bem como que sejam rezadas pelo eterno repouso de minha alma dôze missas em cada anno durante cinco annos igualmente o mesmo numero de missas durante o mesmo tempo pelas almas do Purgatorio."

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terça-feira, 28 de dezembro de 2010

SEXO, PEDOFILIA, BEIJO NA BOCA ENTRE PROFESSOR E ALUNO, MASTURBAÇÃO... TUDO ERA NORMAL PARA ELES

As antigas culturas grega e romana representaram, por muitos séculos, um verdadeiro divisor de águas. Por um lado atraiu a atenção de filósofos, como Nietzsche (que condenou duramente o cristianismo por tentar destruí-las - além de outros motivos) e por outro lado fez com que a Igreja agisse de forma dura contra quem pretendesse viver segundo alguns princípios morais gregos e romanos, os quais foram vistos como imorais.

Já vimos que o imperador Tibério tinha o hábito de fazer sexo oral com meninos de pequena idade. Galeno, famoso médico romano do segundo século d.C., relatou que havia um gramático em Pérgamo que só ia ao banho se levasse um de seus escravos com ele, que tinha inclusive a tarefa de despi-lo e vesti-lo.

Marco Aurélio, imperador romano que fora conterrâneo de Galeno, era (quando adolescente), constantemente beijado na boca por seu professor particular. Na época o beijo na boca entre homens era interpretado como uma forma de obediência do servo em relação a seu senhor, do aluno em relação ao seu professor (e vice-versa). Até Sócrates era adepto da prática sexual com adolescentes. Ele, no caso, era o agente ativo.

O poeta italiano Estácio, que viveu no primeiro século d.C. e que na Idade Média inspirou homens como Dante Alighieri e Giovanni Boccaccio, deixou um poema que retrata bem a questão:

"Mal nascera, ele me dirigiu seu vagido, envolveu-me com isso, traspassou-me; ensinei-o a usar as palavras, acalmei-lhe as dores e as penas na idade em que engatinhava pelo chão e me abaixava para pegá-lo nos braços e beijá-lo; enquanto ele viveu, não desejei filhos".

A relação entre o "maior" e o "menor" era de completa obediência. Escravos tinham que dormir bem ao lado do quarto de seu senhor. Eram recomendados a observar atentamente o que acontecia ao seu redor. Sempre que fosse percebido algo em matéria de sexo, eles deveriam correr ao ouvido de seu senhor e lhe relatar o acontecido.

Heitor e Andrômaca, casal que teria participado da Guerra de Troia, foram vítimas dos olhares indiscretos de seus próprios escravos. Estes flagraram os dois "fazendo amor" justamente no momento em que a esposa cavalgava sobre o marido. Sem o menor pudor, todos passaram a se masturbar ali mesmo.

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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O MAIOR VEXAME NA TRANSIÇÃO PRESIDENCIAL BRASILEIRA

No próximo dia 1º de janeiro será empossada a primeira presidenta da história brasileira. Como é de se imaginar, o ato cerimonial é cheio de ritos, todos devidamente estudados para que nada dê errado. Há, no entanto, na história brasileira, uma transição presidencial que foi o maior vexame. Abaixo, os detalhes dos sucessivos dissabores.

Trata-se da transição do governo do presidente Floriano Peixoto para o de Prudente de Moraes, que aconteceu no dia 15 de novembro de 1894. Para começar, o presidente antecessor sequer apareceu. Floriano alegou que estava doente e não deu a mínima atenção.

O presidente eleito chegou ao Rio de Janeiro (então capital) de trem a fim de ser empossado na capital federal. Não havia ninguém o esperando, nenhuma autoridade estava lá para recepcioná-lo, muito menos um carro oficial. As flores murchas que enfeitavam a estação eram a prova de que dias antes um general uruguaio havia passado por lá. As flores não eram para homenagear Prudente de Moraes.

Como naquela época ainda não havia o governo de transição (como ocorre hoje), o presidente eleito mandou um telegrama para Floriano a fim de tratar de assuntos relacionados à administração, mas nada de resposta.

Chegou o dia de tomar posse no Senado. Como nenhum carro foi enviado para buscá-lo no hotel, ele pegou carona em uma carruagem, sem escolta oficial, como era de se imaginar.

Do Senado ao Palácio do Governo teve que alugar três carros, pois também não lhe foi dada nenhuma concessão nesse sentido.

Quando chegaram à sede do Governo, outra grande decepção: encontrou os móveis destruídos, muitos a facadas. Ao ver a cena, o recém-empossado presidente deu um "sorriso doloroso", como foi registrado na época.

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domingo, 26 de dezembro de 2010

OS PRIMEIROS MIJADOUROS PÚBLICOS NO BRASIL

A última metade do século 19 trouxe muitas inovações em várias cidades brasileiras, como a iluminação pública, água encanada, o carro, a construção de pontes, calçamento público e muitas outras benfeitorias.

A cidade do Rio de Janeiro, que se tornava cada vez mais vaidosa por ser a sede imperial, não deixou de olhar para a Europa e sempre que possível queria copiá-la.

Numa linguagem bem popular, todo mundo queria ser "chique".

Foi publicada, no governo da princesa Isabel, a primeira legislação sobre os mijadouros públicos no Brasil. Foi em tal administração que surgiu, também, um neologismo que acabou ficando na boca do povão. Trata-se do vocábulo "mictório".

Os legisladores fluminenses acharam feia a palavra "mijadouro", de modo que entenderam por bem substituí-la - literalmente.

O motivo da substituição não teria sido somente a feiura da palavra. Pretendiam evitar palavras populares (pois "mijar" era bastante difundida entre a grande população), de modo que criaram a palavra "mictório".

O citado vocábulo é, portanto, uma inovação do Rio de Janeiro do final do século 19.

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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

JESUS NÃO NASCEU NO DIA 25 DE DEZEMBRO


Tradicionalmente é aceito que Jesus Cristo nasceu no dia 25 de dezembro, o que teria dado início às comemorações do Natal, cuja etimologia nos remete à palavra nascer. Historicamente falando, não é possível dizer qual o dia e o mês de nascimento desse personagem (alguns estudiosos dizem que ele nasceu em março; outros, em setembro), embora seja possível explicar a origem do Natal, que, por sinal, tem tudo a ver com uma tentativa da Igreja Católica de cristianizar o paganismo romano. Abaixo, os detalhes desse embuste.

A Igreja Católica Apostólica Romana nasceu, oficialmente, no século 4 d.C. Desde que o cristianismo surgiu (depois da morte de Jesus) o paganismo romano se viu fadado ao desaparecimento, principalmente a partir do século terceiro, mesmo sabendo que vários imperadores tentaram sufocar de vez o cristianismo e reerguer as crenças pagãs.

Havia, no Império Romano, por parte de muitos, a veneração ao Sol, então visto por muitos como um deus, como um elemento de valor espiritual.

No início do século 3, Heliogabalo, imperador de Roma, deu o título religioso de Deus Sol Invictus a um grupo de divindades romanas. Algumas décadas depois, através do imperador Aureliano (270 - 275), foi oficializado o culto ao Sol Invictus (sol invencível), que se tornou patrono de todo o Império, uma clara tentativa de reerguer o paganismo, que, naquele momento, vivia ameaçado pelo rápido aumento do cristianismo.

Ocorre que o dia 25 de dezembro foi a data escolhida para as comemorações do deus Sol, festa pagã que atraía a atenção dos não cristãos (e até dos cristãos, que se sentiam incomodados).

A transição do século 3 para o século 4 foi de grandes disputas entre cristianismo e paganismo. Diocleciano (284-305), imperador autoritário, empreendeu uma das maiores perseguições ao povo cristão de que se tem notícia. Fez questão de difundir ainda mais a festa do 25 de Dezembro, então uma comemoração pagã, como assinalamos acima.

Em 313, Constantino concedeu liberdade de culto em todo o Império. Em 325, Império e Igreja põem as alianças de noivado, cujo casamento vem ocorrer oficialmente em 381, com o Concílio de Constantinopla I.

Foi exatamente neste século que a Igreja Católica cria o Natal, e passa a afirmar que Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, a mesma data em que era comemorada a festa do Sol Invictus.

Em outras palavras, o 25 de Dezembro foi uma tentativa da Igreja de afogar a festa pagã ao deus Sol, numa época em que estava ocorrendo a cristianização do paganismo. Ou seja, o Natal surgiu de um desejo de vingança, de destronação do paganismo. O Natal, portanto, não é a data do nascimento de Jesus Cristo.

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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

TESTAMENTO DE PADRE CÍCERO (PARTE 13)

Abaixo, a décima terceira parte do testamento de Padre Cícero. A transcrição é fiel ao documento original, o que explica os vários erros gramaticais. No trecho abaixo o padre continua a inventariar seus bens. Acompanhe.

"Quinta - Deixo para Capellinha de São Miguel nesta cidade, construida no antigo Cemiterio dos variolosos pelo bom servo de Deus Manoel Cégo, sob os meus auspicios, o terreno cercado de arame que possuo no Arisco, conhecido por terreno do Seminário.

Sexta - Deixo para o meu amigo e compadre Conde Adolpho Van den Brule e seus legitimos herdeiros o sitio Veados, deste Municipio.

Setima - Deixo para a Capellinha de Nossa Senhora do Rosario, no antigo Cemitério desta cidade, sito á Avenida Doutor Floro, antiga Rua Nova, o sitio São José que pertenceu a Gonçallo e sua mulher Dona Anna Rodrigues.

Oitava - Deixo para as duas filhas do meu primo Francisco Belmiro Maia a casa onde residem nesta cidade, á rua Padre Cícero e o sitio Carité, neste Municipio, os quaes bens por morte da ultima passarão a pertencer a Congregação dos Salesianos, salvo se durante a vida quizerem entrar em accordo com os Padres Salesianos para com elles trocarem por outros bens com a mesma condição de por morte de ambas, passarem os bens trocados aos Padres Salesianos.

Nona - Deixo para o meu amigo José Ignacio Cordeiro, pelos bons serviços que me tem prestado, o sitio Arraial, no Municipio de Missão Velha.

Decima - Deixo a casa de Caridade do Crato o sobrado onde residio José Joaquim Telles Marrocos, sito á rua Grande, na cidade do Crato, e a pequena casa encravada nos fundos do mesmo sobrado, á rua da Laranjeira, na mesma cidade."

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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

BRASIL: A COMPRA DE NAVIOS GEROU A PRIMEIRA MOBILIZAÇÃO NACIONAL EM TORNO DE UMA CAUSA COMUM

A primeira mobilização nacional de que se tem notícia no Brasil ocorreu em 1822-1823, quando o país estava na iminência de ser atacado por Portugal, então inconformado com a independência do Brasil.

A causa comum girava em torno da compra de um navio de guerra. Deu certo: várias doações foram enviadas dos mais diversificados locais do país.

O Brasil precisava urgentemente comprar navios de guerra, uma vez que os disponíveis na época estavam muito aquém da capacidade naval do então rival. Muitas listas percorreram o país com o fim de arrecadar fundos para a aquisição dos referidos navios, além de armas e munições.

O imperador e a imperatriz também fizeram doações públicas, pois precisavam dar exemplo e com isto estimular os brasileiros a fazerem o mesmo.

Não somente pessoas ricas doaram, como também brasileiros muito humildes "abriram mãos" de alguns pertences e participaram ativamente. Quem poderia doar dinheiro, assim procedia. Quem não dispunha de tal condição, fazia questão de doar bens, muitos dos quais bastante pessoais, como alianças e anéis de casamento.

No dia 12 de fevereiro de 1823, em sessão solene, o imperador entregou ao país o fruto da mobilização nacional: o navio Caboclo, com 18 canhões. Em março do mesmo ano, o país adquiriu um navio inglês, rebatizado de Guarani.

O período envolveu demasiadamente D. Pedro I, que costumava chegar muito cedo aos estaleiros do Rio de Janeiro e somente saía ao entardecer.

O Brasil vivia, na época, um caos em matéria de capacidade militar, pois faltavam navios, armas, munição e homens que estivessem dispostos a compor oficialmente o grupo militar do recém-fundado Império.

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O "AR" DA CIDADE LIBERTA?

Ainda hoje há quem prefira a vida no campo à vida na cidade, não importa se esta é grande ou pequena. Outros, pelo contrário, não suportam o silêncio da vida rural e se declaram amantes das grandes metrópoles. As opiniões divergentes em torno da cidade não são invenções da Modernidade, como veremos adiante. Antes, até mesmo concepções teológicas enriqueceram o debate em torno da vida urbana - que chegou inclusive a ser interpretada como uma personificação do inferno.

Uma era a cidade na Idade Antiga e outra era a cidade na época da transição da Idade Média para a Idade Moderna/Contemporânea. Inicialmente eram os muros o maior referencial de uma cidade. Quanto mais fortificada mais bem conceituada era pelos moradores e visitantes.

A Idade Média, no entanto, abraça uma concepção incorporada por Aristóteles e Cícero, grandes defensores de uma nova visão, pois defendiam que o maior referencial de uma cidade não é o muro e sim o ser humano que nela reside.

Alguns expoentes medievais, como Agostinho, Isidoro de Sevilha (téologo da Igreja) e Alberto Magno endossaram a nova visão, o que favoreceu ainda mais sua expansão a partir do início do século 13.

Alberto Magno, por exemplo, considerado o maior filósofo e teólogo alemão da Idade Média e considerado o primeiro a aplicar a filosofia aristotélica no cristianismo, divulgou, em muitos de seus sermões, que cidades com ruas estreitas e sombrias são comparadas ao inferno, ao passo que os grandes palácios, ao paraíso. Na verdade, o estudioso estava afirmando um modelo de urbanização, que deveria primar pelo espaço, pela liberdade.

E por falar em liberdade, é na própria Idade Média que surge um conhecido provérbio alemão: "O ar da cidade liberta". A explicação existia, sobretudo, pelo fato da cidade ter possibilitado uma maior liberdade - aliás, bem mais - do que a vida rural, então marcada pelo feudalismo, quando os servos estavam ligados à propriedade, de modo que não poderiam se mudar para outras localidades. Era comum gerações inteiras nascer e morrer numa mesma localidade rural. "Liberdade", aqui, também é uma referência à possibilidade de se conhecer algo novo, seja em relação à vida sexual, à vida material e a novas concepções de mundo.

Havia, no entanto, quem condenasse a vida na cidade. Uma das maiores personalidades do século 12, Bernardo de Claraval (São Bernardo), foi a Paris, então a maior cidade europeia, e afirmou: "Fugi do meio da Babilônia, fugi e salvai vossas almas, fugi todos juntos para as cidades de refúgio, ou seja, os mosteiros".

Em contrapartida, Filipe de Harvengt, escritor esclesiástico do século 12 e conhecedor da vida nos mosteiros, pregava: "Impelido pelo amor da ciência, eis que estás em Paris e encontraste essa Jerusalém que tanto desejam". Ou seja, o religioso estava dizendo que Paris é a cidade perfeita para se morar.

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domingo, 19 de dezembro de 2010

OS PRIMEIROS ANOS DA MEDICINA NO BRASIL

A primeira escola de medicina no Brasil foi criada em 1808, em Salvador (Bahia). A assinatura do ato se deu assim que D. João VI chegou de Portugal (vinha fugindo de Napoleão Bonaparte), em direção ao Rio de Janeiro. Embora criada no referido ano, somente sete anos depois é que passou de fato a funcionar. Em 1813, foi a vez do Rio de Janeiro ganhar a segunda escola de medicina do país.

No início do século 19 a Europa já revelava alguma preocupação em matéria de saúde pública, tanto que já praticava a vacinação coletiva.

No dia 6 de julho de 1829, o governo brasileiro apresentou à Câmara um projeto em que regulamentava o sistema de vacinação permanente em todo o Brasil. Abaixo, leiamos um trecho do projeto, cujo conteúdo é rico em informações históricas:

"A vital instituição vacínica veio da Europa para a Bahia em 1804, e passou dali no mesmo ano para esta Corte, aonde foi cuidadosamente conservada até que o alvará de 4 de abril de 1811 criando uma junta denominada de Instituição Vacínica, deu a este importante instituto forma regular; e pede a verdade que se confesse que tem resultado imenso benefício público dos seus trabalhos: quarenta e nove mil, quatrocentos e sessenta e um indivíduos vacinados, desde aquele ano até o fim de 1828 na casa de suas sessões, além de outros muitos em casas particulares."

Há registros de que, em São Paulo, já ocorrera vacinação no ano de 1805 (portanto 24 anos antes do projeto acima citado e, obviamente, antes do Brasil se tornar Império). Embora houvesse muitas mortes por epidemias, a população se mostrava relutante em relação à vacina. Confiava mais nas receitas caseiras, nos remédios caseiros, muitos dos quais eram ensinados pelos índios.

Havia inclusive médicos que optavam pela medicina popular. Um conhecido médico dos Estados Unidos publicou, em 1829, um livro defendendo o uso de medicamentos caseiros. Na referida obra sustentava que a criança deveria se alimentar de muito leite materno, usar roupas folgadas e limpas, comer pão, fazer muitos exercícios físicos e respirar ar puro. Dizia que a febre (doença mais comum no Brasil do início do século 19) "é somente um esforço da Natureza para se libertar de uma causa ofensiva".

Em 1826, José Bonifácio defendeu, em discurso feito na Câmara, que houvesse, "em cada capital das províncias, e nas vilas principais, um facultativo médico ou cirurgião pago pelos cofres das províncias quando as respectivas câmaras não tenham para isso, os quais serão obrigados a vacinar duas vezes por semana no palácio do governo, ou na sala da câmara a todos os indivíduos que se apresentarem em circunstâncias a serem vacinados...".

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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

O JÚLIO CÉSAR QUE NÃO É DESCRITO NOS LIVROS CONVENCIONAIS

O famoso general romano certa vez viajou ao sul da Espanha e encontrou, num templo de Hércules, uma estátua de Alexandre, o Grande e, diante do ídolo, chegou a lamentar e confessou que sentia fraqueza pelo fato de nada ter ainda feito algo de memorável, numa idade em que Alexandre já havia dominado parte do mundo.

Em seguida pediu autorização para, em Roma, realizar as maiores façanhas no menor tempo possível. Na véspera havia sonhado que estuprava sua mãe. Consultou os áugures (os romanos eram altamente supersticiosos), que o informaram de que ele seria o árbitro do mundo, de modo que sua mãe - no sonho -, nada mais seria do que a Terra. Saiu de lá muito esperançoso.

Em outra ocasião já vimos que os romanos associavam a virtude aos grandes feitos, daí a preocupação em deixar para a posteridade algo memorável.

Preocupado com a diminuição da população italiana, determinou, por lei, que nenhum cidadão entre 20 e 40 anos de idade deveria sair da Itália por mais de 3 anos seguidos.

Nos últimos anos de vida costumava desmaiar e tinha terríveis pesadelos.

Vaidoso, mantinha os cabelos sempre curtos e raspava a barba constantemente (somente deixu a barba crescer uma voz, em cumprimento a um voto de vingança). Embora calvo - o que o tornava sujeito ao escárnio -, adquiriu o vício de puxar para a testa os poucos cabelos que lhe restavam.

Durante as expedições sempre levava consigo pavimentos de mosaico para enfeitar o chão de sua tenda. Gostava de homens e de mulheres. Não media esforços para comprar escravos bonitos.

Quando morreu, seu sucessor, Augusto - que em matéria de superstição nada tinha a dever a Júlior César -, viu em um fenômeno natural a prova de que o velho César fora recebido no Céu: a passagem de um cometa que brilhou no Cosmo por algum tempo, cujo fenônemo chamou a atenção de muitos.

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

TESTAMENTO DE PADRE CÍCERO (PARTE 12)

Abaixo, a décima segunda parte do testamento de Padre Cícero. A transcrição é fiel ao documento original, o que explica os vários erros gramaticais. No trecho abaixo o padre continua a inventariar seus bens, fala de uma moléstia grave que por pouco não lhe tirou a vida, bem como pede para ser enterrado junto à mãe e à irmã. Acompanhe.

"Terceira - Deixo para Maria de Jesus (vulgo Babá), para Thereza Maria de Jesus (vulgo Therezinha do Padre), para Beata Jeronyma Bezerra (vulgo Geluca) e Para Maria Eudoxia de Assumpção o predio onde residio e falleceu minha saudosa irmã Angélica Vicencia Romana, sito á rua Padre Cícero, para nelle residirem ou morarem em quanto viverem, sendo que por morte da ultima sobrevivente passará o dito predio a pertencer a Congregação dos Salesianos.

Entretanto poderão estas mesmas minhas herdeiras durante a vida passar o referido predio aos Padre Salesianos caso entendam e queiram ou entrem em accordo em trocar com os mesmos Padres este mesmo predio por outro onde possam morar, comtanto que por morte da ultima sobrevivente fique o mesmo predio trocado para os Padres Salesianos.

Quarta - Deixo para Nossa Senhora do Perpetuo Socorro d'aqui do Joazeiro, cuja Capella está construída no Cemiterio desta cidade, os seguintes bens: - o sitio Porteiras que pertenceu ao Velho Raymmundo Pinto, sito neste Municipio, á estrada do Crato, e uma importancia em dinheiro conforme vae declarado mais adiante.

Devo declarar que esta Capella de Nossa Senhora do Perpetuo Socorro, que por prohibição do meu superior ainda não foi benta para ser entregue ao culto dos fiéis, fiz construir no Cemiterio publico desta cidade, para cumprir um voto feito pela virtuosa e fallecida Herminia Marques de Gouveia, quando eu tive a morte de uma molestia muito grave.

Nesta Capella fiz sepultar o seu corpo, como ultima recompensa do seu grande esforço, e bem assim os corpos das bôas servas de Deus Maria Joaquina, Maria de Araujo, minha bôa mãe Joaquina Vicencia Romana e minha querida irmã Angelica Vicencia Romana. E desejo e peço que não sejam d'ali retiradas seus restos mortaes e supplico mais que nesta mesma Capella seja sepultado parasempre meu corpo."

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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A SEXUALIDADE NO BRASIL DE 200 ANOS ATRÁS

O modo como o sexo é tratado no século 21 é bem diferente daquele no início do século 19, embora alguns traços ainda têm resistido às inovações. Mexer com mulher alheia e com moça virgem era algo sério, muito sério mesmo.

No Brasil, país então profundamente católico e guardião dos "bons costumes", adultério dava processo, dava cadeia.

A palavra "virgem" era evitada, tinha conotação direta com a sexualidade. Até bem pouco tempo atrás, muitas mulheres brasileiras evitavam também usar o vocábulo "menstruação". Preferiam usar expressões do tipo "Fulana está naqueles dias", para enfim dizer que a mulher estava menstruada.

Em vez de "virgem", alguns achavam melhor dizer "três vinténs", uma referência ao hímen, à virgindade. Daí teria surgido a expressão "tirar os três vinténs" como uma forma de dizer que uma moça foi desvirginada.

O sogro de D. Pedro I ficou conhecido como "o quebra vintém". Há, até o momento, dúvidas quanto ao apelido em questão, se pelo fato dele ter sido um homem de força extraordinária (era capaz de quebrar uma moeda de cobre - também conhecida como 'vintém' - com os dedos) ou se pelo fato de ter o hábito de tirar a virgindade de várias moças brasileiras.

Outro fato curioso diz respeito aos homens que eram traídos. Assim como era praticado em Portugal desde o século 16, eles eram chamados de "corno" ou de "corno manso".

Felício Pinto perdeu a esposa, marquesa de Santos, para D. Pedro I. Antes, porém, havia tentado matá-la a facadas, uma vez que fora vítima de adultério. Chegou inclusive a processá-la judicialmente.

Os adultérios da marquesa se tornaram públicos. Em tais situações, era comum no Brasil daquela época, terceiros colocarem, na calada da noite, pequenos chifres pendurados na porta do traído, uma forma de tornar oficialmente público o que já era alvo de mexerico nas ruas.

Assim, não somente o pudor feminino como as zombarias em relação aos traídos tiveram suas peculiaridades no Brasil de duzentos anos atrás.

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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

MULHER TEM O FILHO ARRANCADO DE SEU PRÓPRIO VENTRE POR LOBOS FAMINTOS

O fato que você lerá a seguir aconteceu perto de Paris, na França, já próximo ao final da Idade Média e retrata um período em que a Europa se viu arrasada por fome, doenças e muitas mortes.

Historicamente, o período (1347 a 1350 d.C.) foi marcado pela peste negra, que dizimou aproximadamente um terço da população europeia. Foi um tempo de agonia, de desespero, de temores sobrenaturais e sobretudo de muita fome e mortes.

Algumas décadas antes há registros do aparecimento de muitos lobos na região próxima a Paris, que se tornaram itinerantes em busca de comida. Geralmente atacavam em bando, de sorte que se tornou perigoso para o ser humano andar sozinho pelas estradas.

Um fato lamentável marcou a história da luta pela sobrevivência desses animais e envolve um bispo, um marido assassinato, uma viúva desconsolada e um feto totalmente indefeso.

Um homem havia sido enforcado em uma árvore. A viúva procurou o bispo a fim de reclamar o corpo de seu saudoso esposo e como recebeu um "não" do religioso, decidiu, por conta própria, passar a noite junto à arvore onde o mesmo havia sido enforcado.

O detalhe é que ela, a viúva, estava grávida. Para piorar, choveu intensamente naquela noite, de modo que a mulher decidiu continuar sob a árvore. O pior estava por vir: vários lobos famintos atacaram a pobre viúva, que teve seu ventre dilacerado e o bebê arrancado pelos algozes animais. Os dois foram mortos em poucos minutos.

Não somente Paris foi alvo desses temíveis felinos. Um século antes, um cronista italiano fez um registro do que ocorrera em seu país. Assim ele relatou:

"As aldeias foram incendiadas e o número de lobos vorazes aumentou. Eles não encontram cordeiros nem carneiros para comer, como de costume. Os lobos também se reuniam ao redor dos fossos exteriores das cidades e lançavam uivos por causa da fome que os atormentava. E, de noite, entravam nas cidades, devoravam os homens que dormiam sob os pórticos, assim como as mulheres e as crianças. Às vezes, abriam buracos nas paredes das casas e matavam os bebês nos berços."

Por muito tempo esses animais foram vistos como a própria encarnação do capeta e foram duramente perseguidos em várias cidades da Europa

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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

CALVÍCIE, AFOGAMENTO E GRAVIDEZ: UM DELES INCOMODA VOCÊ? VEJA A SOLUÇÃO PROPOSTA POR NOSSOS ASCENDENTES

Até hoje o homem (sexo masculino) corre atrás da solução em definitivo para um problema que incomoda muita gente: a calvície. Tal preocupação não é uma novidade do século 20. Registros mostram que há muitos séculos existe o interesse em dizimar esse mal.

No século 18, no entanto, um missonário português tentou difundir entre os homens vaidosos de seu tempo a receita infalível para acabar com a calvície.

Para tanto, se o calvo realmente quisesse seus pelos de volta, deveria antes raspar completamente a cabeça por cinco vezes e aplicar, durante um mês inteiro, sebo retirado de um homem morto. Além de morto, este deveria ter sido esquartejado.

Receitas médicas que fogem ao senso da medicina convencional sempre estiveram presentes na história do ser humano. No Brasil, na época da mineração - que coincide com o tempo em que o missionário propôs a receita acima mencionada -, havia um médico que prometia a cura para os casos de afogamento.

Na verdade tratava-se da promessa de ressurreição. Caso alguém se afogasse, bastaria que a vítima fosse colocada de cabeça para baixo. Em seguida, ela deveria ser posta em uma cama quente. Por fim, receber, sobre seu peito (à altura do coração), um pombo ou frango escaldado vivo e borrifado com vinho.

Já para se saber se a mulher estava grávida, no Egito antigo ela deveria fazer xixi sobre sementes de trigo, por alguns dias seguidos. Uma vez germinadas, seria a prova da gravidez.

Na Idade Média, a Europa criou outro método para fazer o teste de gravidez usando a urina: esta deveria ser misturada ao vinho. Caso fosse apresentada alguma reação química - coloração esbranquiçada ou esverdeada -, a mulher estaria grávida.

Alguns séculos depois, africanas faziam xixi sobre sapos como forma de reconhecer a gravidez. Se a urina caísse sobre a fêmea da espécie, em poucas horas o animal ovularia demasiadamente. Se caísse sobre o macho, em poucas horas ele liberaria muitos espermatozoides.

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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

TESTAMENTO DE PADRE CÍCERO (PARTE 11)

Abaixo, a décima primeira parte do testamento de Padre Cícero. A transcrição é fiel ao documento original, o que explica os vários erros gramaticais. No trecho abaixo o padre continua a inventariar seus bens, dentre os quais alguns situados no Rio Grande do Norte. Acompanhe.

"Segunda - Deixo para a Santissima Virgem das Dores desta Matriz de Joazeiro os seguintes bens: o sitio Porteiras onde mora meu encarregado José Ignacio Cordeiro, neste Municipio; o sobrado onde Manoel Salins tem a loja de santos, á rua Padre Cicero; o predio onde funcciona a cadeia publica desta cidade, sito á Avenida Doutor Floro, bem como os demais que se seguem contiguamente á mesma rua e na rua Padre Cicero; o predio onde mora Dona Rosa Esmeralda, á rua Padre Cicero, bem como os predios contiguos que foi o Oratorio do Senhor Morto e em que reside a Beata Solidade e mais ainda o terreno murado a este contiguo;

o predio onde morou a Beata Isabel da Luz; o predio onde funccionaram as redacções do "O Rebate" e da "Gazeta do Joazeiro", todos á rua Padre Cicero, e os commodos situados ao Consistorio da Matriz onde funcciona o Collegio do Doutor Diniz, e mais ainda o sitio Palmeira do Municipio do Ceará-Merim, Estado do Rio Grande do Norte, com vinte braças de largura, sem plantio mas com agua permanente cujo meu encarregado é Pedro Vasconcellos; o sitio Petitinga do Municipio de Touros, do Rio Grande do Norte, com vinte braças de largura, com agua permanente e cerca de duzentos e trinta coqueiros;

o sitio Sacco, do mesmo de Touros, com cento e vinte braças de largura, agua permanentemente e com cerca de dois mil pés de côcos entre velhos e novos, também no Rio Grandedo Norte, dos quaes é meu encarregado Alexrandre Mauricio de Macêdo.

Declaro mais que esses bens que deixo para Nossa Senhora das Dores, Padroeira desta Matriz, não poderão ser vendidos nem alienados sob que pretexto fôr. E no caso de quem quer que seja encarregado da direcção do Patrimonio de Nossa Senhora das Dores entender de vendel-os ou alienal-os passarão todos esses bens a pertencer a Congregação dos Salesianos."

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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

JESUS CRISTO E SÃO PEDRO SÃO VISTOS DORMINDO EM ALPENDRE

Os séculos que se seguiram ao nascimento da Igreja possibilitaram que muitas historietas acerca dos personagens bíblicos surgissem e prosperassem, ganhando ramificações imprevisíveis. Uma delas chegou ao Nordeste brasileiro (ou foi gerada aqui mesmo) e envolve nada mais e nada menos do que Jesus Cristo e o apóstolo Pedro, mais conhecido por São Pedro.

Jesus e Pedro andavam pelo mundo, famintos e sem teto, até que chegaram a uma casa de um rico fazendeiro. Pediram comida e dormida. Depois de algumas perguntas feitas pelo fazendeiro, este aceitou que os dois comessem e dormissem em sua casa. Impôs, no entanto, duas condições: que eles dormissem no alpendre e não fizessem barulho durante o sono. Assim foi feito.

Acontece que Pedro roncava muito. Logo que se deitaram, o "santo" apóstolo começou a roncar alto e embora tenha sido advertido por Jesus, não parou de fazer barulho.

Não deu outra: o fazendeiro foi despertado de seu sono com o ronco de Pedro. Este e Jesus dormiam lado a lado em duas redes, de modo que a rede de Pedro ficava mais próxima da porta que dava para a entrada principal da casa.

Enfurecido, o fazendeiro pegou um chicote e partiu em direção ao alpendre. Sem saber qual dos dois roncava, meteu o chicote em quem estava dormindo na primeira rede - no caso, Pedro.

Satisfeito, o dono da casa voltou para dormir. Pedro, no entanto, continuou a roncar, mesmo depois da surra que levou. Temendo que Pedro fosse surrado novamente, Jesus sugeriu que os dois trocassem de rede. Assim foi feito.

Novamente o fazendeiro fora acordado com o ronco do apóstolo. Mais enfurecido ainda, pegou o mesmo chicote e partiu em direção aos dois. Chegando ao alpendre, raciocinou: "O da primeira rede já apanhou, agora vou bater naquele que está na segunda rede!".

Ocorre que era Pedro quem estava na segunda rede, pois Jesus havia mudado de lugar. Novamente Pedro foi surrado e Jesus terminou a noite ileso.

Ouvi muito dos mais velhos, pessoalmente, essa história. Quando perguntado o porquê de somente Pedro apanhar e não Jesus, me diziam que este não apanhava pelo fato dele ser Deus. Tal raciocínio parece não ter apoio bíblico, pois segundo os relatos da Bíblia, Jesus veio ao mundo e padeceu para que a humanidade fosse salva.

Pelo menos é assim que consta.

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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

BARBA, CABELO, BIGODE E SOBRENOMES: A MODA MASCULINA NO BRASIL DAS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉCULO 19

Já destacamos, em outra postagem neste blog, que em 1808 muitas mulheres do Rio de Janeiro rasparam a cabeça porque pretendiam imitar as mulheres portuguesas que faziam parte da comitiva da família real que fugia das investidas de Napoleão Bonaparte. Na verdade, não se tratava de uma moda europeia, mas uma praga de piolhos que atingiu as tripulantes, o que as obrigou a cortar o cabelo no "zero".

Duas décadas depois os homens brasileiros - desta vez não somente os cariocas - inovaram na aparência. Diferentemente das mulheres, os homens pretendiam fugir do modismo europeu - diga-se, o português -, tendo como motivo principal o sentimento patriota que tomou conta dos brasileiros depois do processo de independência ocorrido a partir de 1822.

Mais de uma década foi o tempo razoável para que os portugueses residentes no Brasil aceitassem a separação entre colônia e metrópole. Nesse intervalo, muito sangue rolou, assim como insultos e brigas de bar.

Surgiu, em poucos anos, um sentimento nacionalista que terminaria por gerar uma repugnância a tudo o que se relacionasse a Portugal. Desta feita, a aparência pessoal foi um dos itens a ser observado e urgentemente modificado.

Um deputado baiano, chamado Cipriano Barata, mudou o tipo de tecido da sua roupa. Passou a usar exclusivamente roupas de algodão e chapéu feito de palha da carnaúba. Rapidamente foi imitado.

Os nacionalistas mais declarados foram além: mudaram o penteado. Teria surgido no Brasil uma risca definida no meio da cabeça, dividindo em partes iguais os cabelos da cabeça. Batizaram tal risco de "estrada da liberdade".

Outra inovação foi o calvanhaque. Era uma tentativa de fugir da barba, típica dos europeus - e também, obviamente, dos portugueses.

As mudanças se prolongaram e atingiram inclusive os sobrenomes dos brasileiros, que, naquele momento, tentavam excluí-los, caso lembrassem algo português. Priorizaram nomes indígenas. Um famoso jornalista e advogado brasileiro, Francisco Gomes Brandão, passou a assinar Francisco Gê Acaiaba de Montezuma (uma homenagem aos astecas).

O esforço, no entanto, não foi unânime no país, nem surtiu o efeito desejado. Sobrenomes como Silva e como Costa sobreviveram e constituem os sobrenomes mais populares no Brasil. Embora os mesmos não sejam de origem portuguesa, foram estimulados por estes aqui no Brasil para associar aqueles que residiam na selva (Silva) e na costa marítima (Costa).

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domingo, 5 de dezembro de 2010

MULHER SE ESQUECE DE DORMIR COM AS PERNAS FECHADAS E É ATACADA PELO CAPETA

O que você lerá abaixo é o registro de um fato ligado à crendice popular da Idade Média, algumas das quais sobreviveram por longos séculos. As crendices ficam por conta de quem acredita, mas as precauções para evitar o capeta estão documentadas e fazem parte da história do ser humano.

Os medievais acreditavam que Satanás estava por toda parte, o qual atuava através de seus agentes (os demônios). Um dos mais famosos era o Íncubo - cuja raiz etimológica parece estar associada ao pesadelo -, que atacava as mulheres enquanto dormiam.

No caso, o objetivo do capeta era se relacionar sexualmente com a mulher enquanto ela dormia. Toda vez que a mulher tivesse sentindo prazer em seus sonhos era sinal de que estava mantendo sexo com ele. Após a relação, a energia feminina era sugada, o que explicava o cansaço sentido pela vítima no dia seguinte.

Para evitar que ela fosse seduzida pelo demônio, recomendava-se que a mesma dormisse com as pernas fechadas e praticasse um ritual antes de se deitar. Consistia em colocar uma cadeira feita de madeira com as pernas para cima, que deveria permanecer por toda a noite.

Antes de colocá-la em tal posição, a moça deveria pôr as pernas da referida cadeira diante do fogo. O objetivo era fazer com que o Diabo, ao se aproximar para observar sua vítima, se sentasse sobre as pernas da cadeira (que estariam quentes) e ficasse preso por toda a noite.

Na Idade Média, uma francesa registrou em detalhes o modo pelo qual foi assediada pelo capeta. Como se esqueceu de fazer o ritual da cadeira e dormiu com as pernas abertas, ela acabou sendo cavalgada pelo capeta.

Quando ela percebeu a presença dele já estava sem jeito, pois notou que o agente invasor já se aproveitava de seu corpo. Não tendo escapatória, abraçou o demônio e constatou que ele era peludo e macio e que sua presença só lhe trouxe muitos prazeres.

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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

MAIS DE SEIS MIL SOLDADOS FORAM EXECUTADOS PORQUE SE NEGARAM A MATAR CRISTÃOS

Os fatos narrados abaixo estão entre os mais notáveis nos anais da Igreja. Trata-se da execução de seis mil seiscentos e sessenta e seis (6.666) soldados romanos porque os mesmos se negaram a cumprir ordens do imperador para sacrificar cristãos da Gália.

O feito se deu no ano de 286 d.C., quando Maximiniano era imperador. Curiosamente toda a legião era constituída por cristãos. A Legião Tebana (porque haviam sido recrutados em Tebas) recebeu ordens do imperador para que se dirigisse à Gália, para enfim receber as últimas determinações.

Sem saber do que se tratava, a legião seguiu firmemente até o local combinado. Ao chegarem, foram informados de que tinham uma missão muito especial: sacrificar os cristãos daquele lugar. Como todos os soldados eram também cristãos, unanimente disseram um sonoro "não" às ordens imperiais.

Enfurecido, o imperador ordenou que dez por cento dos soldados fossem selecionados e mortos à espada. Assim aconteceu. O plano de Maximiniano era fazer com que os outros noventa por cento refizessem a decisão tomada. Mas não surtiu efeito, uma vez que todos se mantiveram firmes em seus propósitos.

Novamente enfurecido, o imperador ordenou que dez por centos dos restantes fossem dizimados da mesma forma. Missão cumprida: outra legião providenciou a matança dos soldados cristãos.

O segundo castigo não mudou a opinião dos soldados sobreviventes, de modo que eles continuaram firmes em seus ideais, mas a pedido de seus superiores imediatos juraram fidelidade ao imperador.

Sabendo de tal juramento, Maximiniano deduziu que agora a ordem seria cumprida, ou seja, que os soldados matariam os cristãos da Gália, mas o efeito foi o inverso. A fidelidade ao imperador não incluiu o cumprimento da ordem de matar os cristãos, o que deixou o dirigente romano irado.

Vendo que os soldados restantes não mudariam de opinião, o imperador ordenou a outra legião (a mesma que matou à espada os soldados cristãos) que dizimasse todos os soldados cristãos. A ordem foi dada no dia 22 de setembro de 286 d.C., uma data para entrar para a história do cristianismo.

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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

TESTAMENTO DE PADRE CÍCERO (PARTE 10)

Abaixo, a décima parte do testamento de Padre Cícero. A transcrição é fiel ao documento original, o que explica os vários erros gramaticais. No trecho abaixo o padre continua a inventariar seus bens e justifica a construção do Horto, onde está hoje sua estátua. Acompanhe.

"o terreno contiguo a este mesmo predio; o predio em construção junto a casa da Beata Mocinha onde resido á mesma rua São José; o sitio Fernandes no Municipio do Crato; o sitio Peripery, no pé de serra de São Pedro, no Municipio do mesmo nome, porem depois da morte da sua então proprietaria Dona Maria Souto, salvo se esta de accordo com os Padres Salesianos quizer morar em outro lugar;

os sitios Santa Rosa e Tabóca, no Municipio do Crato; o sitio Rangel, sito no Municipio de Santa-Anna do Cariry, que comprei a Dona Joanna de Araujo, e todas as propriedades com todas as suas bemfeitorias igualmente a estas por mim citadas que possúo ou venha a possuir e que não constam desde testamento, bem como todos gados que possúo por toda parte e que não pertençam a outras pessôas ou herdeiros estabelecidos nas clausulas deste testamento que ora faço, repito, deixo para os Benemeritos Padres Salesianos. Supplico aos mesmos Padres Salesianos que terminem a construcção da Capella do Horto.

Devo dizer para evitar conceitos inveridicos e suspeitos em torno do meu nome que comecei a construil-a para cumprir um voto que eu e os meus fallecidos collegas e amigos Padres Manoel Felix de Moura, Francisco Rodrigues Monteiro e Antonio Fernandes Tavora, então vigario do Crato, fizemos. Esse voto fizemos quando apavorados com resultados da secca de mil oitocentos e oitenta e nove (1889) receiamos, aliás, com razão justificada que o ano de mil oitocentos e noventa (1890) fosse tambem secco, com o povo desta terra ao Santissimo Coração de Jesus.

E como essa obra não pude terminar, muito a contra gosto, é verdade, tão somente para não desobedecer ás ordens prohibitorias do meu Diocesano, o então Bispo do Ceará, Dão Joaquim Vieira, peço aos Benemeritos Padres Salesianos que concluam esse templo de accordo com a planta que trouxe de Roma e a miniatura em fôlha de flandre que deixo depositada em logar seguro.

Deixo mais para os Padres Salesianos, a imagem em vulto grande do Senhor Morto que me veio de Lisbôa."

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