terça-feira, 26 de julho de 2011

TUDO POR MUITO DINHEIRO: OBRA CONSTRUÍDA ÀS PRESSAS FOI RESPONSÁVEL POR UMA DAS MAIORES TRAGÉDIAS DA ANTIGUIDADE

Dizem que no Brasil é comum os gestores públicos roubarem os cofres públicos, principalmente em licitações, por cujo método legal contratam uma empreiteira, a quem é paga uma fortuna (pois teoricamente a dita contratada tem que usar material de primeira qualidade; mas, na prática, o material utilizado na construção é de segunda qualidade - quando não é de terceira). Eis, enfim, um método de enriquecimento ilícito.

Poder-se-ia pensar que artimanhas do tipo são coisas da nossa geração - ou quem sabe, no máximo da geração de nossos bisavós. Estaríamos certos se desprezássemos o desejo incontido que o ser humano tem pelo dinheiro. Com muita propriedade, o consagrado escritor alemão Max Weber nos deixou um ensinamento:

"O impulso para o ganho, a persecução do lucro, do dinheiro, da maior quantidade possível de dinheiro, não tem, em si mesmo, nada que ver com o capitalismo. Tal impulso existe e sempre existiu entre garçons, médicos, cocheiros, artistas, prostitutas, funcionários desonestos, soldados, nobres, cruzados, apostadores, mendigos, etc. Pode-se dizer que tem sido comum a toda sorte de condições humanas em todos os tempos e em todos os países da Terra, sempre que se tenha apresentado a possibilidade objetiva para tanto."

Sem dúvida a frase merece uma releitura - para efeito de memorização. O pesquisador alemão, autor de A ética protestante e o espírito capitalista, não se posicionou em vão, e a história da humanidade está aí como testemunha incólume.

Embora não figure nos livros didáticos, no ano 27 d.C. foi registrada uma das maiores tragédias (senão a maior) envolvendo uma estrutura física utilizada para comportar seres humanos. A irresponsabilidade foi protagonizada pelo idealizador e pela mão de obra empregada na empreitada.

Os historiadores latinos Caio Suetônio e Cornélio Tácito não deixaram passar em branco a tragédia e, em menos de cem anos depois do ocorrido, deixaram os registros em suas famosas obras. Tácito, que foi mais detalhista, conta, em Anais, algumas particularidades do infausto acidente.

Existiu um liberto, chamado simplesmente de "Atílio", que decidiu construir, em Fidenas (que ficava a nordeste de Roma), um anfiteatro destinado a promover lutas entre gladiadores.

Segundo o mesmo autor, a construção ocorrera sobre terreno insólito, sem falar que todo o madeiramento utilizado não fora devidamente "travado" com segurança. Na opinião de Tácito, Atílio "não tinha em vista ostentar riqueza nem adquirir popularidade, mas apenas fazer um negócio lucrativo".

Uma análise preliminar da justificativa de Tácito poderia causar estranheza: quer dizer que o idealizador não ostentava riqueza nem poder, mas lucro, sim? Por acaso não são pretensões indissociáveis? Para o antigo romano, não necessariamente!

A fama (chamada por Tácito de "popularidade") era um alvo certo para muitos, e ela poderia vir com ou sem riqueza, com ou sem poder. Fama e virtude, estas sim, é que eram inseparáveis. Quanto mais famoso, mais presumível seria a virtude. A busca incansável por esta (ou seja, pela virtude), levava o romano a construir prédios públicos (e batizá-los com seu nome, assim como acontece nos prédios públicos de hoje) com o único objetivo de ser lembrado na posteridade. Atílio parecia não se importar com esta tal popularidade.

Assim, Atílio não estava interessado na fama, nem pretendia ostentar riqueza (ou seja, não queria exibir-se socialmente como um homem rico), mas pretendia a riqueza, porém de forma dissimulada (assim como hoje existem políticos que roubam e depois colocam os bens em nome dos "laranjas").

Justificada, pois, a opinião de Tácito.

Os dois historiadores nos relatam que houve mais de 20.000 mortos, e outros 30.000 feridos. O autor de Anais justifica tantas mortes: a construção teria caído parte para dentro e parte para fora, atingindo também o aglomerado que cercava o anfiteatro. O evento atraía admiradores de toda a região, e Tácito nos lembra que "afluíram de Roma os que gostavam de tais diversões", o que se presume fossem muitos.

A narrativa de Anais nos conta que para o local foram designados médicos e houve um clamor geral. A população se mobilizou a fim de salvar os sobreviventes, e o imperador se mostrou benevolente, tanto que o Senado reconheceu publicamente a atitude governamental de Tibério.

Atílio fora condenado somente ao desterro. Foi criado um senatus-consulto que proibia, a partir de então, a construção de anfiteatros "senão em terreno de provada firmeza", bem como o Senado determinou que qualquer empreendedor somente estaria autorizado a empreender obras de tamanha importância caso dispusesse no mínimo de quatrocentos mil sestércios.

Em outras palavras, o Senado entendeu que Atílio não agiu de má-fé, e sim que dispunha de pouco dinheiro para pesado investimento, tanto que fora condenado somente ao desterro. Os historiadores, no entanto, pensaram diferente.

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sexta-feira, 22 de julho de 2011

OS BASTIDORES DO TERCEIRO SEGREDO DE FÁTIMA: UM REGRESSO À IDADE MÉDIA?

O chamado Terceiro Segredo de Fátima já foi divulgado por João Paulo II, de modo que hoje, diferentemente de outrora, o tema está em desuso, embora existam setores que contestam a autenticidade do teor revelado, alegando que o verdadeiro segredo continua guardado pelo Vaticano.

Independentemente de tais acusações serem verdadeiras ou não, há muita informação de valor histórico em torno da questão que parece não ter chegado ao grande público, cuja essência pode comprometer a credibilidade das declarações feitas pelo Vaticano durante o tempo em que o segredo ainda era de fato um segredo.

Atentemo-nos aos fatos. Antes, vejamos a transcrição (na íntegra) do Terceiro Segredo de Fátima:
« J.M.J.

A terceira parte do segredo revelado a 13 de Julho de 1917 na Cova da Iria-Fátima.

Escrevo em acto de obediência a Vós Deus meu, que mo mandais por meio de sua Ex.cia Rev.ma o Senhor Bispo de Leiria e da Vossa e minha Santíssima Mãe.

Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fôgo em a mão esquerda; ao centilar, despedia chamas que parecia iam encendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! E vimos n'uma luz emensa que é Deus: “algo semelhante a como se vêem as pessoas n'um espelho quando lhe passam por diante” um Bispo vestido de Branco “tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre”. Varios outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dôr e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de juelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam varios tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de varias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, n'êles recolhiam o sangue dos Martires e com êle regavam as almas que se aproximavam de Deus.
Tuy-3-1-1944 ».

A primeira impressão é a de que não há uma referência ao fim do mundo, a catástrofes climáticas, à fome, etc. como se pensou. De fato, a própria Igreja concordou que a Visão não faz menção a tais assuntos.

A segunda impressão é a de que o texto é de difícil interpretação, tal quais os textos apocalípticos da Bíblia (tanto o canônico como os não canônicos), de modo que uma interpretação infalível é quase inacreditável.

Mas o texto fora, em enfim, interpretado e o Vaticano concluiu, em suma, que a revelação retrata a luta da Igreja contra o comunismo ateu da antiga União Soviética, bem assim o sofrimento a que se submeteram os papas do século XX em manter a fé católica de seu rebanho.

Por que, então, a persistência no segredo por tanto tempo?

A primeira resposta vem da própria Irmã Lúcia, quando advertiu que o segredo não deveria ser contado antes de 1960. Perguntada no ano 2000 sobre o porquê de tal data, ela respondeu: "Não foi Nossa Senhora; fui eu que meti a data de 1960 porque, segundo intuição minha, antes de 1960 não se perceberia, compreender-se-ia somente depois. Agora pode-se compreender melhor. Eu escrevi o que vi; não compete a mim a interpretação, mas ao Papa".

Vale lembrar que inicialmente a Irmã Lúcia afirmou que a visão era de Nossa Senhora das Dores, depois disse que se tratava, na verdade, de Nossa Senhora do Carmelo. Escreveu ainda, na Visão, que o papa seria morto. O atentado sofrido por João Paulo II em 1981 seria o retrato profético desta parte do segredo. Mas o papa não morreu! Ratzinger justificou dizendo que a sobrevivência do papa ao atentado significa que não existe um destino imutável (na prática: Nossa Senhoria falhou na profecia).

O segundo motivo não se sabe ao certo, sendo certo que, gradativamente, a cúpula católica foi revelando a monstruosidade do segredo.

Embora o Terceiro Segredo tenha sido escrito em janeiro de 1944, somente treze anos depois o Vaticano aceitou guardar o envelope. Até então estava sob os cuidados de um padre, visto que a Igreja havia recusado proteger o documento.

Foi lido pela primeira vez em 1959, pelo então papa João XXIII. Um ano depois (data em que poderia ser divulgado), a Igreja decidiu que a divulgação do segredo seria adiada por tempo indeterminado.

O papa seguinte leu e se recusou a divulgar. Tudo indicava que algo terrível estava registrado na carta de Lúcia. Após ser baleado em Fátima (Portugal), no dia 13 de maio de 1981, João Paulo II decidiu ler o tão protegido segredo, ato seguido pelo então cardeal Ratzinger (hoje papa Bento XVI).

Em longa entrevista a um jornalista italiano em 1984, Ratzinger - que já havia lido a carta - declarou: "Uma severa advertência foi lançada daquele lugar, dirigida contra a frivolidade predominante, um chamado à seriedade de vida, de história, dos perigos que ameaçam a humanidade".

Um ano antes, João Paulo II declarou: "Precisamente ao fim do segundo milênio, acumulam-se no horizonte de toda a humanidade nuvens enormemente ameaçadoras, e as trevas baixam sobre as almas humanas".

Em um de seus livros (publicado em 1994), João Paulo II é mais enfático: "Maria apareceu as três crianças de Fátima em Portugal e disse-lhes palavras que agora, no fim do século, parecem próximas do seu cumprimento".

Por acaso o papa falava do comunismo russo? Impossível: a União Soviética caíra em 1989. Teria a afirmação do papa alguma relação com o Terceiro Segredo? Uma revista católica chegou a publicar que João Paulo II se preocupava diariamente com o Terceiro Segredo de Fátima. Estariam João Paulo II e Ratzinger, como no velho costume medieval, gerando medo na sociedade, com o objetivo de resgatar o rebanho católico (que, por sinal, em 1994 saía aos montes da Igreja)? Fica a indagação.

PARA LER SOBRE MAIS APARIÇÕES MARIANAS, NOTADAMENTE ANTES DO TERCEIRO SEGREDO DE FÁTIMA, ACESSE:

http://historiaesuascuriosidades.blogspot.com/2011/09/aparicoes-marianas-um-pe-no-calo-da.html

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quarta-feira, 13 de julho de 2011

MESMO COM A ADOÇÃO DO CASAMENTO CIVIL, O DIVÓRCIO NÃO SE TORNOU SIMPLES COMO SE DESEJAVA NA ÉPOCA

Em outras postagens já falamos sobre o processo histórico que levou à origem do casamento civil e o consequente fim do monopólio católico, bem como já tratamos sobre a origem dos cartórios de registros civis.

Casamento e divórcio são dois institutos jurídicos cada vez mais presentes em nosso dia a dia. Recentemente a Constituição Federal brasileira foi alterada, de modo que não mais existe o intervalo de dois anos entre a separação de fato e o divórcio - sem falar que este pode se dar, em alguns casos, no próprio cartório, sem a intervenção do Judiciário.

No passado (guardadas as devidas proporções e peculiaridades), mais precisamente nos primeiros séculos do cristianismo, romanos se casavam e se separavam da mesma forma que atualmente é comum jovens "ficarem" e "terminarem" no mesmo dia, embora o Estado tenha, no governo de Otávio Augusto, endurecido as leis que previam o divórcio. Não adiantou: o crescente e seguido número de casos extraconjugais levou o Estado a ceder, de sorte que o casamento havia perdido a essência (digamos assim) daquela de outrora.

A legislação do casamento produzida pela Igreja se deu em 1215, mas só depois que se tornou oficialmente o sétimo sacramento, no Concílio de Florença (em 1439), o casal tinha, por obrigação, que ser submetido à benção do padre. Na ocasião, já estava firmada a crença de que o homem não poderia separar o que Deus havia unido. Um século depois, no Concílio de Trento, a Igreja exigiu que duas pessoas fossem, oficialmente, as testemunas da união. Foi no mesmo Concílio que ficou acertado que a Igreja passaria a registrar todos os casamentos (daí surgiram os famosos batistérios).

A viúva, esta sim, além de perder o marido, estava submetida a uma série de obrigações enquanto durasse o luto. Os homens deveriam cumprir o período de luto por seis meses, ao passo que elas deveriam se reservar durante um ano e meio em tal condição. Nos seis primeiros meses, ela deveria andar sob um véu, usar luvas e saias longas (não deveria estar exposta; não poderia despertar a tentação no homem), sem falar que todas as peças tinham que ser de cor preta. Nos seis meses seguintes, ela já poderia usar a seda (antes era a lã) e nos meses restantes, poderia usar o preto e o branco.

Com o advento da Revolução Francesa e a ascensão de Napoleão Bonaparte, a França se divorciou da Igreja Católica. Uma das medidas do imperador foi abolir o controle da Igreja em relação ao registro do casamento, nascimento e óbito. Outra famosa medida foi a criação do casamento civil e o controle sobre o divórcio por parte do Estado.

Mesmo com a laicização do casamento e do divórcio, este último não se tornou tão simples como pretendiam muitos. A França não permitiu o que Roma havia permitido: o divórcio não se tornou uma banalidade, embora fossem vários os motivos que poderiam suscitá-los.

Dentre as causas, podem ser citadas: a falta de notícias pelo tempo de cinco anos, servícias e injúrias graves e loucura por parte de um dos cônjuges. O Estado entendeu, também, que o deliberado abandono do lar por um dos cônjuges poderia suscitar o divórcio.

Hoje, é costume - inclusive entre denominações protestantes -, a afirmação de que somente é possível o casamento religioso se primeiro houver o civil, mesmo sabendo que as leis brasileiras aceitam o religioso sem o civil. O sentido histórico (e espiritual) do casamento religioso de outrora já não é o mesmo da atualidade. Tal constatação pode ter explicação no fato da Igreja, lenta e progressivamente, ter perdido campo para o Estado, de sorte que a sociedade (religiosa ou não) passou a acreditar que o verdadeiro casamento é o civil e que, sem o tal, Deus não abençoa o casal (e vice-versa).

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