domingo, 28 de agosto de 2011

A EDUCAÇÃO COMO ALTERNATIVA PARA O PROGRESSO PESSOAL E SOCIAL: O PROVÁVEL BERÇO HISTÓRICO DESSA RELAÇÃO QUE AINDA ESTÁ EM VOGA

Em todo discurso, populista ou não, é comum ouvirmos frases mais ou menos assim: "Invista em educação, pois só assim seu filho terá a chance de crescer, de progredir, de evoluir".

O "progresso" em questão é uma referência à ascensão social, àquilo que comumente chamamos de "crescer na vida"; enfim, a oportunidade de ganharmos mais dinheiro.

Como dizia Max Weber, o intenso desejo pelo dinheiro, pelo lucro, não está relacionado unicamente com o capitalismo: "O impulso para o ganho, a persecução do lucro, do dinheiro, da maior quantidade possível de dinheiro, não tem, em si mesmo, nada que ver com o capitalismo. Tal impulso existe e sempre existiu entre garçons, médicos, cocheiros, artistas, prostitutas, funcionários desonestos, soldados, nobres, cruzados, apostadores, mendigos, etc...Pode-se dizer que tem sido comum a toda sorte de condições humanas em todos os tempos e em todos os países da Terra, sempre que se tenha apresentado a possibilidade objetiva para tanto".

Encontramos no Terceiro Concílio de Latrão, realizado em 1179, evidências de que a educação já era vista como a real possibilidade de uma ascensão social. Vejamos este texto, extraído do referido concílio (colocamos em negrito o trecho que guarda relação direta com o que estamos retratando aqui):

"A Igreja de Deus, como uma mãe piedosa, é obrigada a velar pela felicidade do corpo e da alma. Por esta razão, para evitar que os pobres cujos pais não podem contribuir para o seu sustento percam a oportunidade de estudar e progredir, cada igreja catedral deverá estabelecer um benefício suficientemente largo para prover as necessidades de um mestre, o qual ensinará o clero da respectiva igreja e, sem pagamento, os escolares pobres, como convém".

Notemos, no texto acima, que o progresso pessoal estava diretamente associado ao estudo. A própria Igreja já assim o concebia, e, oportunamente, estava em sintonia com o sentimento que tomava conta de alguns círculos urbanos, como Paris e Bolonha.

Os séculos XII e XIII registraram acentuado crescimento das universidades em vários centros urbanos da Europa.

Como bem está colocado nos livros de história (até mesmo nos didáticos), o crescimento urbano foi um dos fatores que levaram inevitavelmente ao surgimento das universidades, que, por sua vez, despertaram o interesse pela leitura e pelo saber.

Aos poucos, médicos e advogados iam ganhando status de homens diferenciados, os quais eram recompensados financeiramente por suas habilidades profissionais.

A Universidade de Bolonha, por exemplo, berço do Direito, formava profissionais para as funções de governo, cujo fenômeno o Brasil também presenciou no século XIX, quando as duas universidades de Direito (a de Olinda e a de São Paulo) eram acusadas de formar profissionais unicamente para ingressarem no serviço público, com fins estritamente financeiros.

Curiosamente, os estudantes universitários da Idade Média passaram a compartilhar de alguns privilégios, os quais não eram desfrutados por outras classes sociais, que, por sua vez, não aceitavam tais privilégios, alcançados unicamente por quem se dedicava aos estudos.

Assim, os universitários tinham isenção fiscal e militar, tabelamento de preços em locação de quartos, sem contar os privilégios eclesiásticos e judiciais, a exemplo da isenção em relação às custas processuais.

Tal condição gerou a inveja de outros grupos sociais, dentre os quais os próprios burgueses, que, em disputas judiciais, estavam obrigados ao pagamento das custas do processo. E, visto que o burguês era de fato apegado ao dinheiro, viu, na universidade, a chance de fechar mais uma saída do esvaziamento de seu capital.

Com isto, as classes mais favorecidas financeiramente perceberam as vantagens de um curso universitário para seus filhos, assim como os menos favorecidos  também enxergaram a chance de um crescimento social: a possibilidade, enfim, de ganhar dinheiro sem muitos esforços físicos. Vale lembrar que na Idade Média, o ensino universitário era gratuito para todas as classes sociais.

Podemos concluir, portanto, que a Idade Média não foi tão negra como pretenderam os renascentistas (falo da criação das universidades e de algumas de suas consequências).

É possível inferir, também, que a cidade e a universidade foram responsáveis por muitas revoluções na trajetória humana: ajudaram a destronar o pensamento católico vigente, reforçaram a incredulidade na Bíblia, praticamente infundiram a relação da importância da educação com o progresso pessoal e social (portanto, bem antes do evolucionismo de Darwin), expandiram o saber - humano, científico, teológico, etc. -, mas também contribuíram fortemente para a concepção de que existem classes mais evoluídas do que outras (cuja acepção é hoje duramente combatida pelos cursos de ciências humanas, como a História e a Antropologia), de tal modo que, juntamente com o capitalismo moderno, as pessoas são levadas a acreditar que a ascensão social é de fato sinônimo de evolução.

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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O RELATO HISTÓRICO SOBRE OS ÚLTIMOS MOMENTOS DE SÓCRATES: PLATÃO PODE NÃO TER SIDO FIEL AOS FATOS HISTÓRICOS


Imagem da internet

Não é de hoje a afirmação de que Sócrates e Jesus Cristo têm muito em comum. Dentre tais coincidências, as mais conhecidas são: não deixaram nenhum registro escrito; seus ideais e história de vida foram contados por seus próprios discípulos; os dois foram condenados por suas ideias e foram vistos como inimigos potenciais do Estado.

Das coincidências em questão, uma merece atenção especial, e tem relação direta com a credibilidade de suas mensagens: como seus discípulos puderam se lembrar de fatos, os quais foram contados nos mínimos detalhes?

Citemos apenas dois exemplos de cada lado: Marcos e Lucas não acompanharam Jesus, mas ainda assim puderam contar em riqueza de detalhes não só a mensagem de Cristo como também conversas das quais  Jesus teria participado. Por outro lado, Platão conta, igualmente em riqueza de detalhes, a defesa de Sócrates quando este foi processado, bem como relata suas últimas palavras (que renderam um livro, no caso Fédon) antes de tomar cicuta.

Para os cristãos, os evangelistas foram usados pelo Espírito Santo, o que justificaria a riqueza de detalhes, embora haja quem aponte discrepâncias entre os próprios evangelistas - o que comprometeria a afirmação de que o Espírito Santo é, efetivamente, o grande mentor dos Evangelhos. Isso não vem ao caso, agora.

No caso de Platão, o problema pode ser maior do que o esperado, ainda que tais objeções tenham sido lançadas com menor força do que em relação à Bíblia. 

Para uma melhor compreensão do que pretendemos analisar, é imprescindível a leitura integral de Fédon. Só assim o leitor terá a dimensão do que se pretende nesta matéria.

Como é de praxe nos diálogos platônicos, o autor se utiliza de personagens para discorrer sobre suas ideias, por cujo meio também retrata fatos relacionados à vida de Sócrates.

No diálogo em questão (Fédon), o personagem Equécrates indaga ao personagem Fédon se este se encontrava na prisão quando Sócrates tomou cicuta. A resposta é positiva. A introdução, portanto, já nos remete a fatos ditos históricos, no caso à própria morte do filósofo.

Um pouco mais adiante, Fédon é questionado sobre quem se encontrava lá, e afirma seguramente que Platão se achava doente, razão por que não compareceu. Ou seja, Platão não presenciou a conversa que Sócrates teve com seus discípulos no último dia de vida.

Então temos um problema: Platão não estava presente, mas por outro lado registrou uma longa conversa (o que daria aproximadamente 60 páginas) entre Sócrates e os discípulos, nas quais fez constar fatos minimamente sequenciais, os quais sugerem tratar-se de acontecimentos reais e não meras ilustrações.

No dia em que Sócrates bebeu o veneno, ele (Sócrates)  recebeu vários de seus discípulos, com quem teve uma demorada conversa acerca da vida pós-morte e dos meios pelos quais o ser humano poderia alcançar um destino feliz. Todo o desenrolar da conversa acontece de forma ininterrupta, tanto que o autor registrou alguns dissabores enquanto durou a preleção do filósofo.

Tomemos como exemplo, o choro de Xantipa (esposa de Sócrates), que, ao notar a presença dos discípulos de seu marido entrarem na prisão, ficou aos prantos. Na ocasião ela estava com um filho do casal nos braços (provavelmente ainda criança), quando bradou: "Sócrates, é a última vez que teus amigos irão conversar contigo e que tu irás conversar com eles". Platão nos conta que, ao ouvir o choro de sua esposa, Sócrates se dirigiu a Críton (um dos discípulos presentes) e teria dito: "Levem-na para casa". Xantipa teria saído aos prantos, batendo no próprio peito. É uma história real.

Platão também narra que o carrasco (aquele que levou o veneno para Sócrates) não se conteve e chorou. O autor também descreve, em detalhes, as últimas palavras do filósofo, através das quais a posteridade soube que Sócrates morreu devendo um galo, e teria rogado que um de seus discípulos (provavelmente o mais rico deles), quitasse sua dívida.

Fédon é um livro extraordinário. Depois de A República, talvez o melhor que Platão já produziu. É suficiente para compreendermos a opinião de Sócrates acerca da alma, da vida pós-morte, da relação entre o homem e os deuses gregos. É nele que encontramos a resposta para uma pergunta que ainda existe: Sócrates era ou não era ateu? Não, definitivamente Sócrates estava longe de ser ateu.

Afinal, Fédon é fiel à história ou mera ilustração de Platão para compor suas ideias? Se Platão inventou situações, se ele colocou palavras na boca dos discípulos, por que a historiografia tem aceito o fato de Sócrates ter morrido pelo uso de cicuta, e mais do que isso, ter protagonizado talvez o mais longo bate-papo ininterrupto já registrado na história? E se Platão foi fiel aos fatos, como ele pôde reproduzir, nos mínimos detalhes, a conversa que Sócrates teve com seus discípulos, inclusive retratando diversas situações e dissabores, a exemplo do que trouxemos acima, se Platão não estava presente? se Platão foi capaz de tal feito, ou melhor, se Fédon foi capaz de memorizar nos mínimos detalhes todo o desenrolar da conversa, por que não Marcos e Lucas?

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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

TEXTOS MEDIEVAIS (1) RETRATAM O DESEJO FEMININO DE SER RESPEITADA PELO MARIDO EM AMBIENTES PÚBLICOS; (2) EDUCAM A ESPOSA EM RELAÇÃO À BOA MANEIRA DE AGRADAR AO MARIDO

A concepção de que a mulher tem a obrigação de obedecer ao homem é antiga, perpassa o brio religioso e atinge, embora com menor força (bem menor mesmo), o presente século.

Na Europa medieval, tal visão estava bastante em voga, o que explica o fato de o homem se sentir no direito de repreender (publica ou reservadamente) sua esposa, sem se importar com a desonra moral a que elas estavam sujeitas.

As mulheres estavam em um "beco sem saídas": se elas se mostravam acolhedoras e corteses, corriam o risco de uma interpretação maliciosa por parte dos homens; se, ao contrário, deixam a cortesia de lado, são conceituadas de orgulhosas.

Na igreja, deveria se manter em silêncio, e o riso, durante as missas, estava proibido. O véu deveria ser tirado com sobriedade, de modo a demonstrar piedade. O olhar, este inegável indicador de desejos contidos, deveria estar atento, pois não poderia revelar seu lado sexual.

Um manual francês, de 1393, retratou, num personagem fictício, a relação entre marido e esposa, no tocante à forma como aquele deveria se reportar a esta publicamente. Leiamos com atenção:

"Pedistes-me humildemente em nosso leito, lembro-me, que pelo amor de Deus eu não vos repreendesse jamais de maneira desagradável diante dos estranhos ou diante de nossos criados, mas que vos fizesse observações toda noite, a cada dia, em nosso quarto, e que vos lembrasse as faltas de conduta ou as ingenuidades cometidas durante o dia ou nos dias passados, e que vos indicasse como vos comportar e vos desse conselhos a esse respeito; então não deixaríeis de mudar vossa conduta seguindo meus conselhos e faríeis o melhor possível o que eu vos pedisse".

Em outro trecho, o manual recomenda às mulheres:

"(...) deveis ser muito amorosa e muito íntima de vosso marido acima de todas as outras criaturas vivas, medianamente amorosa e íntima de vossos bons e próximos parentes carnais e parentes de vosso marido, manter-vos absolutamente à distância dos presunçosos e ociosos rapazes (...)".

Tratando sobre a felicidade do marido ao ser bem recepcionado no lar pela esposa, escreve:

"[o marido gosta] de ser descalçado com bom fogo, ter os pés lavados, ter meias e sapatos limpos, ser bem alimentado, ter boa bebida, ser bem servido, bem honrado, bem dormido em lençóis brancos, e toucas de dormir brancas, bem coberto com boas peles e saciado das outras alegrias e divertimentos, intimidades, amores e segredos sobre os quais me calo. E no dia seguinte, camisas e trajes novos".

Na tentativa de conscientizar a esposa sobre a necessidade de seguir à risca os ensinamentos em questão, foi inserido no manual um provérbio rural "que dizia que três coisas afastam o homem prudente de sua casa, a saber, a casa aberta, chaminé fumosa e mulher briguenta".

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