quarta-feira, 2 de novembro de 2016

A MEMÓRIA DOS MÁRTIRES E AS VISITAS AOS TÚMULOS NOS PRIMEIROS SÉCULOS DO CRISTIANISMO

 
 
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
O hábito de fazer oferendas e petições junto aos túmulos dos mortos (e para os mortos) não tem origem cristã, tampouco há registros apostólicos sustentando tal prática. Partiremos dessa perspectiva, porém não nos deteremos em demonstrar a origem histórica não cristã, e muito menos faremos uma análise teológica de textos bíblicos utilizados pró e contra esse antigo costume.
O QUE DIZ A APOLOGIA CATÓLICA?
Segundo a apologia católica, desde o século II existem registros de que os vivos se dirigem aos sepulcros com a finalidade de render orações pelos mortos. Personagens como Tertuliano e Cipriano (no século III), Cirilo de Jerusalém (no século IV) e Crisóstomo (no século V) são citados como defensores desse costume, que é apontado como sendo de tradição apostólica.
BISPO CATÓLICO SE POSICIONA CONTRÁRIO À OFERENDA AOS MORTOS
De acordo com Agostinho (354-430), o Bispo Ambrósio (um dos principais doutores da igreja dos primeiros séculos) proibiu o costume de se fazer oferenda aos mortos por duas razões principais: uma, porque os fiéis tinham o hábito da embriaguez durante os atos litúrgicos; a segunda, porque tal costume se assemelhava a uma festa pagã, chamada de parentales (ou parentais). Vejamos as palavras de Agostinho, em Confissões, em cuja oportunidade ele falava de Mônica, sua mãe:
“Assim, um dia, como costumava na África, levou papas, pão e vinho puro à sepultura dos mártires, mas o porteiro não quis permitir suas ofertas. Quando soube que essa proibição vinha do bispo, resignou-se tão piedosa e obedientemente, que eu mesmo me admirei de quão facilmente passasse a condenar o hábito, e não a criticar a proibição de Ambrósio”.
Um pouco adiante, Agostinho prossegue:
“Tão logo, porém, soube que o ilustre pregador e mestre da verdade [Ambrósio] proibira tal costume – mesmo para os que o praticavam sobriamente [ou seja, sem se embriagarem], para não dar aos ébrios azo de se embriagarem, e porque essa espécie de parentales era muito semelhante à superstição dos pagãos – ela se absteve de muito boa vontade”.
Notamos, facilmente, que a mãe de Agostinho (canonizada como Santa Mônica) se absteve de praticar oferendas aos mortos depois de ser advertida pelo bispo católico acerca da semelhança que havia entre essa tradição e o costume pagão.
No entanto, segundo o próprio Agostinho, sua mãe não deixou de fazer visitas aos túmulos dos mártires, mesmo após os conselhos do bispo católico. Assim prossegue o autor de Confissões:
“No lugar da cesta cheia de frutos da terra, ela aprendeu a levar ao túmulo dos mártires um coração cheio de puros desejos, dando o que podia aos pobres. Celebrava assim a comunhão com o corpo do Senhor, cuja paixão serviu de modelo aos mártires em seu sacrifício e coroação”.
Conforme se vê, Mônica não deixou de visitar os túmulos dos mártires, mas apenas deixou de lhes fazer oferendas. Nota-se, mais ainda, que aparentemente ela não tinha o hábito de peticionar junto ao sepulcro, mas apenas o de fazer oferendas, cuja prática foi substituída pelas orações depois da advertência do bispo, que, segundo se sabe de sua biografia, não rompeu com a tradição de render orações pelos mortos.
A MEMÓRIA DOS MÁRTIRES PASSOU A SER VISTA COMO ESTÍMULO À PERSISTÊNCIA NA FÉ
Provavelmente na transição do primeiro para o segundo século, quando a igreja já havia experimentado duras perseguições, os cristãos que, naquela ocasião, mantinham firme o pensamento apostólico, passaram a dar maior significância à memória de cristãos cuja vida piedosa servia de exemplo a ser seguido, especialmente pelo fato deles não negarem a fé diante da espada romana. Os mártires cristãos eram vistos como modelos a serem seguidos.
Veja-se, por exemplo, o próprio Justino Mártir (100-165), que se converteu ao cristianismo depois que tomou conhecimento de como os mártires cristãos não abdicavam de sua fé, ainda que pagassem com a própria vida pelo fato de permanecerem crentes em Jesus Cristo. Ou seja, ser assassinado pela simples razão de não negar essa crença era visto como um ato encorajador, nascendo daí o costume de perpetuar a memória desses mártires, inclusive com visitas aos túmulos, como foi o caso de Mônica.
A MEMÓRIA DOS MÁRTIRES E A PERMISSÃO PARA A LEITURA DOS LIVROS APÓCRIFOS DURANTE OS CULTOS
Não entraremos no mérito sobre os motivos pelos quais são rejeitados os livros apócrifos, mas pontuar que, embora alguns dos pais da igreja tivessem objeções em relação à canonização de alguns desses livros, por sua vez assentiam que alguns deles poderiam ser lidos na igreja, “para edificação” (veja-se a posição de Jerônimo a esse respeito), como foi o caso da carta de I Clemente e de uma carta enviada pelo bispo de Roma ao bispo de Corinto, por volta do ano 170 d.C., cujas obras eram constantemente lidas, para edificação, na igreja da referida cidade grega.
No Cânon 47 do terceiro Concílio de Cartago, em 397 d.C., chegou-se ao consenso de “... que seja, contudo, permitido que as paixões dos mártires sejam lidas na celebração das datas dos mártires”, demonstrando um prenúncio para a oficialização das datas comemorativas dos então futuros santos católicos, todos considerados mártires para a referida denominação eclesiástica.
O que se quer dizer, portanto, é que, no século IV (o mesmo em que viveram Agostinho, Mônica e o bispo Ambrósio), a igreja concebia uma significativa importância à memória daqueles que haviam morrido em nome da fé cristã.
MÔNICA VISITA OS TÚMULOS DOS MÁRTIRES E NÃO DOS MORTOS “COMUNS”
Cabe inicialmente esclarecer a diferença entre um mártir e um não mártir. O primeiro é uma pessoa que sofreu duras perseguições por causa da fé que professa. Não se trata, aqui, de uma pessoa que opera milagres depois da morte. O não mártir é aquele que não sofreu duras perseguições pela fé que abraçou.
De posse desse ligeiro esclarecimento, voltemos agora para o caso de Mônica. Note-se que, em todo o momento, Agostinho não faz alusão aos túmulos dos parentes, mas apenas aos túmulos dos mártires, ou seja, de cristãos que, em vida, eram considerados exemplos a serem seguidos. Na verdade, Agostinho não sinalizava de forma positiva no que concerne à prática de orar pelos mártires ou pelos mortos “comuns” (para saírem do purgatório), mas para fazer súplicas aos mártires – uma demonstração de que naquele século já estava bastante solidificada a crença de que os “santos” operavam milagres.
QUANDO E COMO SURGIU A CRENÇA DE QUE OS MÁRTIRES PODEM OUVIR AS ORAÇÕES DOS VIVOS?
Antes de entrarmos no mérito da pergunta, convém esclarecer que o fato dos cristãos que viveram nos primeiros séculos seguintes à morte dos apóstolos terem adotado o hábito de fazer visitas aos túmulos com a intenção de render súplicas aos mártires não é prova cabal que autoriza essa crença, a saber, a de que os mortos ouvem a oração dos vivos (e aqui fazemos um juízo de valor frente às Escrituras).
O que aconteceu é bem simples de explicar: com a difusão de doutrinas ditas apócrifas (gnósticas, pagãs, etc.), a igreja foi perdendo gradativamente a identidade original, notadamente quando pensamentos e práticas pagãs passaram a se confundir com pensamentos e práticas cristãs. A própria conversão de Constantino e os efeitos dessa conversão contribuíram maciçamente para essa mistura de doutrinas e de atos litúrgicos, embora no primeiro século já havia falsos mestres entre os cristãos. Nascem e difundem daí as crenças e as práticas de oferendas e intercessões pelos mortos, bem como a de que eles podem ouvir as súplicas dos vivos.
CONCLUSÃO
Não está claro, do ponto de vista documental, que, no primeiro século, os primeiros cristãos tivessem o hábito de se dirigirem aos túmulos com a missão de fazer oferendas ou de renderem súplicas aos mártires, ou ainda de orarem pelos mortos. Pelo menos é certo que em suas epístolas, os escritores neotestamentários não se reportaram, tampouco abonaram essa prática. Tal costume nasceu, indubitavelmente, da perda da identidade original dos cristãos, cujo marco cronológico se deu muito provavelmente a partir do último meado do segundo século ou mesmo do início do terceiro século.
Uma coisa é perpetuar a memória dos parentes mortos - inclusive dos mártires. Outra coisa é valer-se dessa tradição milenar como um imperativo dogmático, capaz de romper com o ensinamento apostólico. Ou seja, a igreja apóstata não somente recepcionou como também difundiu a ideia de que os mártires podem ouvir e atender às súplicas dos vivos, contrariando a Bíblia sagrada.
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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A GUERRA CRISTERA E A CONSTITUIÇÃO MEXICANA DE 1917: QUANDO O ESTADO LAICO SE TRANSFORMA EM ESTADO ATEÍSTA

 
 

Imagem da internet

A FRASE QUE DEFINE O ESPÍRITO ANTICLERICAL DA ÉPOCA
“É preciso penetrar nas famílias, quebrar as estátuas e as imagens dos santos, pulverizar os rosários, despregar os crucifixos, confiscar as novenas e outras coisas, trancar as portas contra o padre, suprimir a liberdade de associação para que ninguém vá às igrejas conviver com os padres, suprimir a liberdade de imprensa para impedir a publicidade clerical, destruir a liberdade religiosa e afinal, nessa orgia de intolerância satisfeita, proclamar um artigo único: na República, só haverá garantia para aqueles que pensam como nós” (1).
A frase acima foi proferida na década de 1920. É de autoria de um deputado pró-governo Calles, que ficou conhecido por seu vigor anticlerical. Revela, ainda, o espírito determinista do Estado mexicano, com amparo na Constituição de 1917, para minar do solo daquele país o catolicismo romano.
PUBLICISTAS DO MUNDO INTEIRO ELOGIAM A CONSTITUIÇÃO MEXICANA DE 1917
Até hoje, a referida Constituição é festejada por publicistas do Direito do mundo inteiro quando o tema é Direitos Sociais. Não por menos, afinal ela de fato foi um marco nessa seara. O que não divulgam é o vigor com que essa Carta Magda tratou os direitos individuais, notadamente aqueles relacionados à liberdade religiosa. Aliás, registre-se oportunamente, que esse tratamento dado à religião na época fazia parte da crença bastante solidificada de que o Estado Social somente seria alcançado se fossem varridas do solo mexicano as crenças metafísicas, daí por que a referida Constituição trouxe consigo um matiz flagrantemente socialista. 
O CONTEÚDO ANTICLERICAL DA REFERIDA CONSTITUIÇÃO
A situação desesperadora dos católicos mexicanos chegou ao ápice quando assumiu o poder o anticlerical Plutarco Calles (1924-1928), responsável direto por levar a cabo as prescrições da Constituição de 1917.
Havia pelo menos cinco artigos na referida Constituição que faziam clara afronta ao catolicismo romano: proibição das escolas monásticas, proibição de missas fora dos templos, restrição de propriedade por parte da igreja, extinção de direitos civis dos clérigos, dentre outros. Note-se que essas normas estavam textualmente assentadas na Constituição, fazendo com que, na prática, nenhuma legislação infraconstitucional pudesse suprimir ou contrariar as prescrições em voga.
A situação piorou quando o presidente Calles baixou uma lei restringindo ainda mais direitos e liberdades dos católicos, dentre os quais o de não andar nas ruas com vestes sacerdotais, prevendo, inclusive, punição de até cinco anos para sacerdotes que contestassem a Constituição e a Lei Calles. 
AS MORTES CAUSADAS PELA GUERRA CRISTERA
A consequência não demorou a chegar: a população, insuflada por clérigos locais, se rebelou contra o governo autoritário, nascendo daí um confronto armado que ceifou em torno de 90 mil vidas humanas. O fim da guerra se deu quando Calles concluiu seu mandato, embora no final de seu governo tenha abrandado suas forças graças à intervenção americana. 
CONSTITUIÇÃO LAICA OU ATEÍSTA?
A Guerra Cristera mostra um retrato daquele período, quando as ideias marxistas eram constantemente insufladas no meio dito intelectual, sendo uma dessas ideias a crença e a afirmação de que a religião era indubitavelmente um obstáculo para o Estado feliz e próspero. A mesma guerra mostrou, ainda, um lado nada agradável, que foi o uso da Constituição como mecanismo repressor de liberdades individuais, de sorte que a tão afamada Constituição Mexicana de 1917 não pode ser inserida no rol daquelas ditas Laicas, pelo próprio conteúdo em si. Antes, ela era indiscutivelmente uma Constituição anticlerical, própria do Estado ateísta, ainda que se propusesse a alcançar o tão sonhado Estado Social. O erro, como sempre ocorre nos modelos comunistas, não está no desejo final propriamente dito, mas nos meios para alcançá-lo.
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(1) Frase citada em História do Medo no Ocidente, de Jean Delumeau.


terça-feira, 26 de julho de 2016

CONTRADIÇÃO: POR QUE A SUÉCIA TEM ALTO ÍNDICE DE QUALIDADE DE VIDA, DESPONTA COMO UM DOS PAÍSES MAIS FELIZES DO MUNDO, MAS APRESENTA UM CRESCENTE NÚMERO DE DEPRESSÃO EM SUA POPULAÇÃO?



INTRODUÇÃO
Você já deve ter assistindo ou lido alguma reportagem sobre a Suécia. No mínimo tomou conhecimento que juiz de direito por lá vai ao trabalho em transporte coletivo, que o Estado proporciona à sociedade uma excelente qualidade de vida por meio dos bens de consumo coletivo, que o nível de corrupção é baixíssimo ou quase inexistente, etc. Você não foi enganado, mas o país que ocupa um dos primeiros lugares no ranking dos países mais felizes do mundo tem um lado sombrio, desconhecido do grande público. Esse lado, no entanto, não parece causar inveja a ninguém. É sobre isso que vamos tratar agora. 

AUMENTO DE CASOS DE DEPRESSÃO E ALTO ÍNDICE DE SUICÍDIO
Nas últimas três décadas, a Suécia (assim como a Noruega) teve um aumento de 1.000% no uso de antidepressivos. Isso mesmo: mil por cento. Esse dado alarmante parece contrastar com a informação de que ela está entre os países mais felizes do mundo. E de fato é um contraste.
 Além desse crescimento assustador, outro dado concorre ainda mais para ofuscar o brilhantismo propagado: a Suécia tem índice proporcional de suicídio três vezes maior do que o Brasil, ocupando o 23º lugar no mundo (o Brasil está em 40º). Não é piada. E o mais curioso ainda é saber que a Suíça, que desponta como um país mais feliz do que a Suécia, tem um índice proporcional de suicídio em torno de 50% ainda maior do que este. Algo está errado. 

COMO É MEDIDO O ÍNDICE DE FELICIDADE?
A pesquisa não é feita de porta em porta; muito menos pela internet. Os dados não são colhidos a partir de critérios subjetivos, mas objetivos. Como assim? São adotados os seguintes critérios:
1 – PIB;
2 – Expectativa de vida;
3 – Liberdade;
4 – Generosidade;
5 – Ausência de corrupção
6 – Violência;
7 – Número de mortes. 

ONDE ESTÁ O ERRO NA ESTATÍSTICA?
O erro está exatamente nos critérios adotados. Tendo em vista que os elementos são objetivos, deduz-se que, numa casa onde há riqueza, também há muita felicidade. Deduz-se que, pelo fato da sociedade estar bem avançada em termos de moralidade pública, o povo é muito feliz. E assim sucessivamente.
Conforme se vê, são critérios esdrúxulos e estão aquém de corresponderem à verdade dos fatos. É a velha crença cientificista de que a qualidade de vida, por meio da ciência, traria a redenção definitiva para a sociedade.
O erro na medição do índice de felicidade foi explicado, mas em relação ao aumento de casos de depressão no referido país, como explicar? 

QUAIS AS JUSTIFICATIVAS QUE OS ESTUDIOSOS ATRIBUEM AO ELEVADO ÍNDICE DE DEPRESSÃO NA SUÉCIA?
As justificativas são basicamente duas: (1) num país muito feliz a tendência é que aqueles que não são felizes entrem num quadro depressivo, pois, segundo os tais, a comparação que fazem uns com os outros leva à autotristeza pelo fato de não acompanharem o mesmo nível de felicidade dos grupos de pessoas comparadas, e (2) a Suécia recebe pouca insolação, cuja condição natural estaria contribuindo para o quadro de depressão de seu povo.
Você, assim como eu, já deve ter se dado conta de que essas justificativas não convencem. Uma, porque a primeira delas ignora fatores ligados aos próprios critérios adotados; a segunda, porque a pouca insolação na Suécia nos dias de hoje é a mesma há três ou cinco décadas.

O QUE REALMENTE ESTÁ POR TRÁS DA CORTINA?
Muita coisa mudou na Suécia nos últimos anos, inclusive a forma como a família é avaliada pelo Estado e pela própria sociedade. A esposa é vista com maus olhos pela sociedade e pelo Estado se optar por ficar em casa e cuidar de sua prole. É taxada de retrógrada, graças a uma maciça campanha por meio da qual se defendia que homens e mulheres não deveriam ter papéis distintos, tal qual prega o ativismo feminista. Lugar de mulher não é em casa, defendem os formadores de opinião. Consequência? Desde cedo o bebê, ainda não apartado do leito materno, é enviado para creches públicas, e lá vai crescendo sem o convívio mais de perto de seus pais – algo imprescindível para o bem-estar tanto dos pais quanto dos filhos –, recebendo, em troca, a doutrinação estatal.
Se isso não bastasse, o governo vem adotando de forma contundente a ideologia de gênero nas escolas infantis, rompendo paradigmas até então existentes. Só para se ter uma ideia, algumas escolas aboliram os pronomes “ele” e “ela”, os quais foram substituídos por um pronome neutro. O objetivo é fazer com que a criança não se veja a partir de sua biologia sexual, mas a partir de sua construção social, sem falar que são doutrinadas a aceitar tudo o que lhes geram felicidade própria, inclusive no campo da sexualidade (a bissexualidade é um tema recorrente nas salas infantis).
A Suécia tem constatado o aumento do número de aborto, pois, além de ser legalizado, é incentivado como sendo uma alternativa boa. Esse elevado índice de aborto tem contribuído para o aumento dos casos de depressão nas mulheres, que, por sinal, apresentam o dobro de suicídios do que os homens no referido país.
Ainda há outros agravantes: é elevado o número de atestados médicos, aumento de estresse por parte dos trabalhadores e falta de sintonia entre pais e filhos. A redução do rendimento escolar por parte dos alunos já é uma realidade.
A Inglaterra também vem apresentando um grande aumento no índice de depressão em crianças.
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FONTES:
https://vidaeestilo.terra.com.br/turismo/internacional/cnn-lista-os-10-lugares-mais-felizes-do-mundo-confira,6f14018cc55e4410VgnVCM5000009ccceb0aRCRD.html
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quarta-feira, 1 de junho de 2016

O MASSACRE DOS INOCENTES: VERDADE OU MENTIRA? HERODES MANDOU MESMO MATAR AS CRIANÇAS DE ATÉ DOIS ANOS DE IDADE?

 
 
 
1. O RELATO BÍBLICO
 
De acordo com o Evangelho de Mateus (MT 2:16), o rei Herodes, que governava a Judeia na época em que Jesus nasceu, mandou matar todas as crianças do sexo masculino que tivessem dois anos para baixo e fossem de Belém e região circunvizinha. Estamos diante de um fato com respaldo histórico ou apenas se trata de uma narrativa fictícia?
 
 
2. A HISTORICIDADE DE HERODES
 
Não iremos tratar, nesse momento, sobre a historicidade de Herodes (o Grande), visto que hoje já não se tem nenhuma dúvida quanto à sua realidade histórica.
 
 
3. QUEM MAIS, NOS DOIS PRIMEIROS SÉCULOS, CITAM O CASO?
 
Dos textos bíblicos, apenas Mateus alude ao fato. No segundo século, o fato é mencionado num livro apócrifo (Protoevangelho de Tiago, por volta de 150 d.C.).
 
 
4. O QUE DIZEM OS HISTORIADORES?
 
Uma consagrada coletânea mundial intitulada A História da Vida Privada, composta por cinco volumes, aborda, em seu primeiro volume, sobre a situação das crianças recém-nascidas no Império Romano. Reforçamos que a referida obra desfruta de grande privilégio no meio acadêmico, sendo o referido volume dirigido pelos prestigiados historiadores franceses Philippe Ariès e Georges Duby e organizado pelo também historiador e arqueólogo francês Paul Veyne.
 
4.1 Afirmam os autores:
 
"Certo dia correu pela plebe um boato: informado pelos adivinhos de que um rei nascera naquele ano, o Senado queria obrigar o povo a abandonar todas as crianças nascidas no mesmo ano. Como não pensar no massacre dos inocentes (que, diga-se de passagem, provavelmente é um fato autêntico e não uma lenda)?".
 
Por clareza gramatical, cabe observar que a expressão entre parênteses não é de nossa autoria, mas dos autores do texto. Ou seja, para os referidos historiadores, o massacre dos inocentes a que alude a Bíblia é, muito provavelmente, um fato autêntico.
 
4.2 Qual então a fonte histórica dos mencionados historiadores?
 
Infelizmente a fonte não é mencionada. Entretanto, a leitura dos cinco volumes nos permite assegurar com total garantia que os autores da prestigiada obra não mencionam fontes acerca dos intermináveis eventos históricos mencionados na aludida obra, de sorte que, se colocarmos em dúvida essa afirmação autoral, devemos fazê-lo, por honestidade intelectual, em tantas outras afirmações feitas nos referidos volumes.
 
O que se depreende facilmente da transcrição feita há pouco é que os supracitados autores tinham conhecimento histórico de que o Senado romano pretendeu obrigar o povo a abandonar todas as crianças nascidas no mesmo ano em que se deu a pretensão senatorial. A menção "informado pelos adivinhos" não significa dizer que os autores colheram essa informação diretamente da Bíblia, por duas razões óbvias: uma, porque ela não é semelhante ao texto de Mateus em todos os seus pontos; segundo, porque os romanos eram dados à crença em adivinhos, como bem atestam os escritores Tácito e Suetônio, ambos nascidos no primeiro século.
 
4.3 A narrativa da Bíblia, nesse caso, apresenta discrepâncias históricas?
 
 Não, não apresenta. O fato narrado pelos historiadores provavelmente não é o mesmo citado na Bíblia. O que os historiadores estão dizendo é que a narrativa bíblica é perfeitamente compatível com outro fato ocorrido durante o império romano, sobre os quais os prestigiados escritores tinham conhecimento por fontes históricas.
 
 
5. POR QUE OS HISTORIADORES DA ÉPOCA SILENCIARAM SOBRE ESSA MATANÇA?
 
O texto bíblico diz que a ordem foi dada por Herodes para matar as crianças que residiam em Belém e em seus arredores. Muito provavelmente na época houvesse poucas crianças nessa faixa etária. Talvez no máximo poucas dezenas. Isso já sinalizaria, com grande probabilidade de acerto, o desinteresse por parte dos historiadores da época, até porque a morte de crianças por abandono dos pais era uma constante em todo o Império, pois não somente tinha o aval da sociedade da época como também do próprio Estado.
 
Afora o numerário "pequeno" e o costume já mencionado, outro ponto que merece destaque diz respeito ao fato dos escritores da época não dedicarem nenhuma - ou pouca atenção - à região de Belém e circunvizinhança, como bem o atestam os citados Cornélio Tácito e Caio Suetônio, os quais, juntos, escreveram em detalhes a vida pública do Império Romano no primeiro século de nossa era, fazendo quase absoluto silêncio histórico não somente em relação às cidades como aos personagens ligados à Judeia, com exceção de Flávio Josefo que, sendo judeu, não lhe encantaram os tratados cristãos da época.
 
 
5.1 Ademais, veja-se o que escreveu o historiador Tácito no ano 115 d.C.:
 
"Não levo o intento de relatar todas as propostas feitas ao Senado, mas apenas as que se tornaram notáveis por decorosos ou vis, e isto penso ser o principal dever de quem escreve a história, para que não sejam esquecidas as virtudes e se desperte o medo da infâmia, do desprezo dos pósteros para os maus ditos e feitos" (ANAIS, pág. 157).
 
Ou seja, somente os fatos considerados virtuosos e somente aqueles considerados risíveis o foram peças de destaque em sua obra.
 
A Bíblia não entra em detalhes, mas é quase certo que a ordem para matar as crianças de Belém teve o crivo do imperador Otávio Augusto, depois de ouvir o Senado (como era de costume), cuja proposta inicial indiscutivelmente partiu de Herodes, a cuja governabilidade cabia o território de Belém. Isso implica dizer que, se o próprio Tácito, sendo um dos mais festejados escritores da época, omitiu muitas mensagens endereçadas ao Senado, quiçá outros.
 
Ademais, a medida protagonizada por Herodes era compatível com seu modus operandi governamental, afeito a ordens para matar. Otávio Augusto, por sua vez, também nutria sérias objeções em relação aos judeus, como bem narrou Tácito, de sorte que não lhe custava nada enviar tal mensagem ao Senado que, por sua vez, era afeito às mensagens imperiais.
 
 
6. CONCLUSÃO
 
 A falta de documentos históricos comprovando o massacre dos inocentes, tal qual narrado em Mateus, em nada depõe contra a credibilidade bíblica, até porque a ausência de prova acerca de um fato não é prova de que esse fato não existiu. Antes, a soma de elementos em consideração só coopera no sentido de se acreditar que estamos diante de um evento verdadeiro, como bem consignaram os prestigiados escritores franceses.

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