quarta-feira, 1 de junho de 2016

O MASSACRE DOS INOCENTES: VERDADE OU MENTIRA? HERODES MANDOU MESMO MATAR AS CRIANÇAS DE ATÉ DOIS ANOS DE IDADE?

 
 
 
1. O RELATO BÍBLICO
 
De acordo com o Evangelho de Mateus (MT 2:16), o rei Herodes, que governava a Judeia na época em que Jesus nasceu, mandou matar todas as crianças do sexo masculino que tivessem dois anos para baixo e fossem de Belém e região circunvizinha. Estamos diante de um fato com respaldo histórico ou apenas se trata de uma narrativa fictícia?
 
 
2. A HISTORICIDADE DE HERODES
 
Não iremos tratar, nesse momento, sobre a historicidade de Herodes (o Grande), visto que hoje já não se tem nenhuma dúvida quanto à sua realidade histórica.
 
 
3. QUEM MAIS, NOS DOIS PRIMEIROS SÉCULOS, CITAM O CASO?
 
Dos textos bíblicos, apenas Mateus alude ao fato. No segundo século, o fato é mencionado num livro apócrifo (Protoevangelho de Tiago, por volta de 150 d.C.).
 
 
4. O QUE DIZEM OS HISTORIADORES?
 
Uma consagrada coletânea mundial intitulada A História da Vida Privada, composta por cinco volumes, aborda, em seu primeiro volume, sobre a situação das crianças recém-nascidas no Império Romano. Reforçamos que a referida obra desfruta de grande privilégio no meio acadêmico, sendo o referido volume dirigido pelos prestigiados historiadores franceses Philippe Ariès e Georges Duby e organizado pelo também historiador e arqueólogo francês Paul Veyne.
 
4.1 Afirmam os autores:
 
"Certo dia correu pela plebe um boato: informado pelos adivinhos de que um rei nascera naquele ano, o Senado queria obrigar o povo a abandonar todas as crianças nascidas no mesmo ano. Como não pensar no massacre dos inocentes (que, diga-se de passagem, provavelmente é um fato autêntico e não uma lenda)?".
 
Por clareza gramatical, cabe observar que a expressão entre parênteses não é de nossa autoria, mas dos autores do texto. Ou seja, para os referidos historiadores, o massacre dos inocentes a que alude a Bíblia é, muito provavelmente, um fato autêntico.
 
4.2 Qual então a fonte histórica dos mencionados historiadores?
 
Infelizmente a fonte não é mencionada. Entretanto, a leitura dos cinco volumes nos permite assegurar com total garantia que os autores da prestigiada obra não mencionam fontes acerca dos intermináveis eventos históricos mencionados na aludida obra, de sorte que, se colocarmos em dúvida essa afirmação autoral, devemos fazê-lo, por honestidade intelectual, em tantas outras afirmações feitas nos referidos volumes.
 
O que se depreende facilmente da transcrição feita há pouco é que os supracitados autores tinham conhecimento histórico de que o Senado romano pretendeu obrigar o povo a abandonar todas as crianças nascidas no mesmo ano em que se deu a pretensão senatorial. A menção "informado pelos adivinhos" não significa dizer que os autores colheram essa informação diretamente da Bíblia, por duas razões óbvias: uma, porque ela não é semelhante ao texto de Mateus em todos os seus pontos; segundo, porque os romanos eram dados à crença em adivinhos, como bem atestam os escritores Tácito e Suetônio, ambos nascidos no primeiro século.
 
4.3 A narrativa da Bíblia, nesse caso, apresenta discrepâncias históricas?
 
 Não, não apresenta. O fato narrado pelos historiadores provavelmente não é o mesmo citado na Bíblia. O que os historiadores estão dizendo é que a narrativa bíblica é perfeitamente compatível com outro fato ocorrido durante o império romano, sobre os quais os prestigiados escritores tinham conhecimento por fontes históricas.
 
 
5. POR QUE OS HISTORIADORES DA ÉPOCA SILENCIARAM SOBRE ESSA MATANÇA?
 
O texto bíblico diz que a ordem foi dada por Herodes para matar as crianças que residiam em Belém e em seus arredores. Muito provavelmente na época houvesse poucas crianças nessa faixa etária. Talvez no máximo poucas dezenas. Isso já sinalizaria, com grande probabilidade de acerto, o desinteresse por parte dos historiadores da época, até porque a morte de crianças por abandono dos pais era uma constante em todo o Império, pois não somente tinha o aval da sociedade da época como também do próprio Estado.
 
Afora o numerário "pequeno" e o costume já mencionado, outro ponto que merece destaque diz respeito ao fato dos escritores da época não dedicarem nenhuma - ou pouca atenção - à região de Belém e circunvizinhança, como bem o atestam os citados Cornélio Tácito e Caio Suetônio, os quais, juntos, escreveram em detalhes a vida pública do Império Romano no primeiro século de nossa era, fazendo quase absoluto silêncio histórico não somente em relação às cidades como aos personagens ligados à Judeia, com exceção de Flávio Josefo que, sendo judeu, não lhe encantaram os tratados cristãos da época.
 
 
5.1 Ademais, veja-se o que escreveu o historiador Tácito no ano 115 d.C.:
 
"Não levo o intento de relatar todas as propostas feitas ao Senado, mas apenas as que se tornaram notáveis por decorosos ou vis, e isto penso ser o principal dever de quem escreve a história, para que não sejam esquecidas as virtudes e se desperte o medo da infâmia, do desprezo dos pósteros para os maus ditos e feitos" (ANAIS, pág. 157).
 
Ou seja, somente os fatos considerados virtuosos e somente aqueles considerados risíveis o foram peças de destaque em sua obra.
 
A Bíblia não entra em detalhes, mas é quase certo que a ordem para matar as crianças de Belém teve o crivo do imperador Otávio Augusto, depois de ouvir o Senado (como era de costume), cuja proposta inicial indiscutivelmente partiu de Herodes, a cuja governabilidade cabia o território de Belém. Isso implica dizer que, se o próprio Tácito, sendo um dos mais festejados escritores da época, omitiu muitas mensagens endereçadas ao Senado, quiçá outros.
 
Ademais, a medida protagonizada por Herodes era compatível com seu modus operandi governamental, afeito a ordens para matar. Otávio Augusto, por sua vez, também nutria sérias objeções em relação aos judeus, como bem narrou Tácito, de sorte que não lhe custava nada enviar tal mensagem ao Senado que, por sua vez, era afeito às mensagens imperiais.
 
 
6. CONCLUSÃO
 
 A falta de documentos históricos comprovando o massacre dos inocentes, tal qual narrado em Mateus, em nada depõe contra a credibilidade bíblica, até porque a ausência de prova acerca de um fato não é prova de que esse fato não existiu. Antes, a soma de elementos em consideração só coopera no sentido de se acreditar que estamos diante de um evento verdadeiro, como bem consignaram os prestigiados escritores franceses.

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sexta-feira, 29 de abril de 2016

"AO DEUS DESCONHECIDO": INSCRIÇÃO CITADA NO NOVO TESTAMENTO PODE ESTAR PELA METADE

 
 
 
O Novo Testamento, mais precisamente em Atos dos Apóstolos, capítulo 17 e versículo 23, registra um diálogo entre o apóstolo Paulo e alguns dos filósofos gregos, nos seguintes termos:

"Pois passando eu e vendo os vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Ora, esse que vós honrais sem conhecer é o que eu vos anuncio".

O famoso humanista holandês, Erasmo de Rotterdam (1466 - 1536), assegurava que a inscrição completa que havia nos santuários gregos era a seguinte:

"Aos Deuses da Ásia, da Europa e da África, e aos Deuses desconhecidos e estrangeiros".

Segundo o mesmo humanista, que viveu no tempo da Reforma Protestante, "Paulo forçou seu significado em proveito da fé cristã e, deixando de lado as outras palavras, que teriam prejudicado o seu objetivo, tirou do contexto apenas as últimas três (...)".
 
Não se trata de usurpação da verdade por parte do escritor bíblico, vez que o termo reducionista usado na Bíblia tinha, na verdade, um fundo pedagógico, pois o emprego completo da inscrição em nada mudaria o sentido usado pelo apóstolo.

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sábado, 16 de abril de 2016

IMPÉRIO ROMANO REGISTROU EM DOCUMENTOS OFICIAIS A CRUCIFICAÇÃO E ALGUNS DOS MILAGRES ATRIBUÍDOS A JESUS CRISTO



INTRODUÇÃO

Atualmente é reduzidíssimo o número de pesquisadores que ainda duvida da existência histórica de Jesus Cristo. Sua divindade, no entanto, não é matéria de pesquisa histórica, muito embora existam vários pesquisadores e historiadores que são protestantes e, portanto, estão convencidos da  missão espiritual de Cristo aqui na Terra. Mas não é bem sobre este último ponto que a matéria vai tratar. Antes, iremos discorrer em brevíssimo tomo sobre uma obra bibliográfica produzida por volta do ano 155 d.C., que tem sido apontada pelos pesquisadores como uma daquelas que sinalizam a historicidade de Cristo. Estamos falando da obra Apologia, de Justino Mártir (o autor deste blog tem a íntegra da referida obra em suas mãos, que por sinal pode ser encontrada na internet).
 

QUEM FOI JUSTINO MÁRTIR?

Justino Mártir (100 - 165 d.C.) foi um grande estudioso das filosofias gregas, às quais seguiu durante muito tempo de sua vida, convertendo-se ao cristianismo por volta do ano 130-137 d.C. depois de se decepcionar com a cosmovisão dessas filosofias e, principalmente, depois que conheceu um ancião, quando se preparava para uma vida eremita. Justino, que era atualizado com as ocorrências de seu tempo, se impressionou como os cristãos do primeiro século suportaram, sem perder a fé em Cristo, as duras perseguições infligidas pelo Império Romano, notadamente a protagonizada pelo imperador Nero, cujo feito também é narrado pelo escritor Cornélio Tácito, por volta do ano 115 d.C.


AS CITAÇÕES DE JUSTINO SOBRE AS ATAS OFICIAIS DO IMPÉRIO ROMANO
 
Em Apologia 1:35, Justino registrou o seguinte:
 
"'Transpassaram as minhas e os meus pés' significava os cravos que na cruz transpassaram seus pés e mãos. E depois de crucificá-lo, aqueles que o crucificaram lançaram sorte sobre as suas roupas e as repartiram entre si. Que tudo isso aconteceu assim, podeis comprová-lo pelas Atas redigidas no tempo de Pôncio Pilatos" (Destacamos).
 
Mas Justino foi mais além. Em Apologia 1:48 registrou ainda:
 
"Que nosso Cristo curaria todas as enfermidade e ressuscitaria dos mortos, escutai as palavras com que isso foi profetizado. São estas: Diante dele, o coxo saltará como cervo e a língua dos mudos se soltará, os cegos recobrarão a vista, os leprosos ficarão limpos e os mortos ressuscitarão e começarão a andar. Que tudo isso foi feito por Cristo, vós podeis comprovar pelas Atas redigidas no tempo de Pôncio Pilatos" (Destacamos).
 
 
PILATOS REALMENTE EXISTIU?
 
Sim. Numa expedição italiana, o arqueólogo Antônio Frova (1914 - 2007) descobriu uma inscrição que diz: "Pôncio Pilatos, Prefeito da Judéia". Essa recente descoberta arqueológica veio confirmar o que já há muito era conhecido por outras fontes, como os livros neotestamentários e a volumosa obra de Flávio Josefo, historiador do primeiro século (o autor deste blog dispõe da obra completa desse historiador).
 
 
 
Inscrição comprovando a historicidade de Pilatos
 
 
PILATOS REGISTROU MESMO SUAS ATAS ? 
 
Não resta nenhuma dúvida quanto a isso. Havia, desde Júlio César, a determinação imperial para que todos os gestores provinciais registrassem em atas públicas não somente seus feitos governamentais, como também os principais acontecimentos que diziam respeito à gestão local. O mais famoso dos diários oficiais do Império Romano foi o Acta Diurna Populi Romani, bastante citado por historiadores dos dois primeiros séculos, como Tácito e Suetônio (num artigo publicado pelo site Monergismo tratamos mais apuradamente sobre essa questão, cujo link está no final deste texto). Essa prática de se registrar em atas públicas os feitos governamentais e os principais acontecimentos locais ainda está bem documentada em registro do segundo século, como bem atestou, na época, Plínio, o Jovem.
 
Assim, do ponto de vista historiográfico, não há nenhuma dúvida de que os gestores provinciais romanos faziam esses registros oficiais.
 
 
PILATOS TERIA MESMO REGISTRADO EM DOCUMENTOS PÚBLICOS A CRUCIFICAÇÃO E OS MILAGRES ATRIBUÍDOS A JESUS? 
 
As Atas em questão não existem mais, assim como praticamente todos os registros oficiais da época. Isso não é, por si só, nenhum embaraço para não se confiar nas palavras de Justino.
 
Apologia não foi, originalmente, uma obra bibliográfica. Foi uma carta (uma longa carta, por sinal) que Justino endereçou ao então imperador Antonino Pio, em cuja missiva fez uma vigorosa apologia da fé cristã, defendendo-se das acusações que foram imputadas a ele (a Justino) por um filósofo de nome Crescêncio. Na época, seguindo já uma longa tradição romana, pessoas do povo escreviam para os imperadores, que também tinham o hábito de ler o que recebia.
 
Uma pergunta crucial a ser feita é a seguinte: o que levaria Justino Mártir a desafiar o imperador a conferir nas Atas públicas de Pilatos esse registro acerca de Jesus Cristo? A resposta é simples: Justino não seria louco de fazer tal desafio se ele não tivesse a convicção de que esse registro de fato constava tal qual mencionado por ele! É uma questão de honestidade intelectual deduzir desse modo.
 
Uma eventual objeção sobre a existência dessas Atas em meados do segundo século seria o fato de Tácito ter registrado, no início do século II, que, a mando do Senado, foram queimados muitos documentos do imperador Tibério, que governou Roma no tempo em que Jesus foi crucificado. Esse embaraço é facilmente desfeito quando sabemos, pelo próprio Tácito, que os documentos destruídos foram aqueles de valor pessoal e não de valor público. Isso sugere, indubitavelmente, que essas Atas não estavam no rol daquelas destruídas. Ademais, ainda cabe observar que os documentos públicos na velha Roma eram de fácil acesso, visto que esse era, na verdade, o sentimento público que levou o Império Romano a criar os diários oficiais, não somente em sua sede como também em suas províncias.


POR QUE ESSES REGISTROS DE PILATOS NÃO FORAM INVOCADOS INICIALMENTE PELA IGREJA COMO PROVA HISTÓRICA DE JESUS CRISTO?

Nos primeiros séculos não havia discussão relevante sobre a historicidade de Jesus Cristo. As discussões eram sobretudo teológicas, razão dos vários Concílios. A bem da verdade, quando ousaram debater a historicidade de Jesus nos quatro primeiros séculos, Atos de Pilatos foram invocados no terceiro e quarto séculos por cristãos e pelo Império Romano. A referência a esse registro de Pilatos chegou, em dado momento, à importância tal que no quarto século houve a compilação de uma obra forjada sobre o referido registro. 
 
 
CONCLUSÃO 
 
A conclusão é que o historiador, usando de sua imparcialidade acadêmica, é fatalmente levado a tributar a esse registro de Justino como de relevante valor histórico-documental como forte evidência não somente da historicidade de Jesus, mas, inclusive, de que na época lhe atribuíam feitos considerados extraordinários, comumente chamados de "milagres".


OUTRAS FONTES HISTÓRICAS ACERCA DA HISTORICIDADE DE JESUS CRISTO
 
Há muitas outras fontes históricas que atestam a existência histórica de Jesus Cristo: Tácito, Suetônio, Flávio Josefo, Plínio (o Jovem), Júlio Africano, Mara Bar-Serapião, Luciano de Samosata, o Sanhedrin 42a e os escritos gnósticos.

 
MATÉRIA DE NOSSA AUTORIA PUBLICADA PELO SITE MONERGISMO EM 2008, POR MEIO DA QUAL TRATAMOS, EM MAIS DE 20 PÁGINAS, SOBRE ESSA CARTA DE JUSTINO MÁRTIR (Se o estudo não estiver disponível, digite "Robério Fernandes" em PESQUISA e em seguida clique na seta onde tem TÍTULO, rolando seguida o cursor até a palavra AUTOR. Depois clique em OK):
 
 
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terça-feira, 5 de abril de 2016

HISTÓRIAS POUCO CONTADAS SOBRE CALVINO




 
Até hoje, corre a má fama de Calvino pelo fato dele ter tido participação direta na condenação do médico Miguel Servet (1511-1553), que não escondia sua descrença em relação à Trindade e à predestinação (conceito teológico no qual se afirma convictamente que Deus escolhe, sem critérios objetivos, as pessoas que irão se salvar e as que serão condenadas no fogo eterno).

Calvino, assim como santo Agostinho, não tinha a menor dúvida de que a predestinação era algo divino, e não estava disposto a aceitar opiniões divergentes, de sorte que o reformador e o médico trocaram várias correspondências de cunho teológico, até que Calvino desistiu de debater com seu oponente: estava certo de que Servet se encontrava totalmente sob forte heretismo.

Miguel de Servet passou a ser alvo de católicos e protestantes. Fugindo da Inquisição da Igreja Católica na França, foi parar em Genebra (Suíça), onde Calvino presidia o Conselho de Genebra – que tinha por função, dentre outras, a de julgar casos de heresia. Os protestantes não foram menos tolerantes que os rivais católicos: Servet foi julgado à fogueira, embora conste que Calvino opinou no sentido de que o condenado fosse morto por decapitação. Vale destacar ainda que Calvino consultou outros reformadores, inclusive Lutero, e todos concordaram com a condenação de Servet à morte.

A atitude de Calvino parece ir de encontro aos ensinamentos bíblicos, pois, ao invés de defender a condenação por decapitação, Calvino poderia ter dito: “Não podemos julgar esse homem só pelo fato dele pensar diferente de nós”. O certo é que ele agiu exatamente como agiram aqueles a quem tanto o protestantismo tem condenado: o catolicismo histórico, a Inquisição.

A intolerância religiosa de Calvino parecia ir ao extremo: expulsou de Genebra um franciscano que mendigava nas ruas, pedindo comida em nome de Deus e da Virgem Maria. O reformador autorizava invasões aos lares, com o fim de investigar os costumes dos moradores. Foi imposta uma verdadeira ditadura moral: vários foram os casos de mulheres punidas por “má conduta”. Livros foram proibidos e a moda duramente vigiada. Pode-se dizer, seguramente, que as atitudes acima mencionadas em nada devem à histórica intolerância católica, a quem o protestantismo imprime pesadas críticas, uma das quais de agirem sob possessão demoníaca.

Muitos apologistas têm sustentado que Calvino agiu de acordo com o senso e o costume da época, ainda assim persiste a pergunta: é possível conciliar sua atitude com os ensinamentos do Novo Testamento?

Para finalizarmos sobre Calvino, leiamos este texto, de autoria do próprio reformador:

“Quem sustenta que é errado punir hereges e blasfemadores, pois nos tornamos cúmplices de seus crimes (…). Não se trata aqui da autoridade do homem, é Deus que fala (…). Portanto se Ele exigir de nós algo de tão extrema gravidade, para que mostremos que lhe pagamos a honra devida, estabelecendo o seu serviço acima de toda consideração humana, que não poupamos parentes, nem de qualquer sangue, e esquecemos toda a humanidade, quando o assunto é o combate pela Sua glória”.

Não restam dúvidas de que, mesmo agindo em desacordo com a razão e com os preceitos bíblicos para o caso em questão, Calvino crê piamente que está dentro da vontade de Deus, de modo que a condenação de quaisquer eventuais hereges é, segundo sua consciência, um dever, uma obrigação, uma tarefa sacra, quase um sacramento. Por acaso não foi a mesma justificativa dada pela Inquisição durante séculos de história? Como separar o trigo do joio?
 
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Nota: O autor deste blog, embora reprove os fatos supracitados, declara peremptoriamente que tributa à Reforma Protestante um mover de Deus para a humanidade.  Se atentarmos cuidadosamente para o Novo Testamento, vemos que até mesmo os apóstolos, em momentos pontuais, protagonizaram alguns feitos dignos de censura, embora estivessem em plena atividade evangelística. É o caso, por exemplo, do apóstolo Pedro, duramente advertido pessoalmente pelo apóstolo Paulo, quando aquele procedia com dissimulação perante os gentios em Antioquia. Assim, acredita o autor deste blog que esses acontecimentos atribuídos ao reformador não têm o aval neotestamentário, mas acredita que ele tenha sido usado por Deus, em muitos outros momentos, para ser um dos nomes responsáveis por despertar na sociedade de seu tempo os valores espirituais das Escrituras sagradas, há muito esquecidos na época pelo catolicismo dominante.
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