“Porque não vos fizemos saber o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas, mas nós mesmos vimos a sua majestade, porquanto ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da magnífica glória lhe foi dirigida a seguinte voz: 'Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo'. E ouvimos esta voz dirigida do céu, estando nós com ele no monte santo" (Apóstolo Pedro).
Até hoje, corre a má fama de Calvino pelo fato dele ter tido participação direta na condenação do médico Miguel Servet (1511-1553), que não escondia sua descrença em relação à Trindade e à predestinação (conceito teológico no qual se afirma convictamente que Deus escolhe, sem critérios objetivos, as pessoas que irão se salvar e as que serão condenadas no fogo eterno).
Calvino, assim como santo Agostinho, não tinha a menor dúvida de que a predestinação era algo divino, e não estava disposto a aceitar opiniões divergentes, de sorte que o reformador e o médico trocaram várias correspondências de cunho teológico, até que Calvino desistiu de debater com seu oponente: estava certo de que Servet se encontrava totalmente sob forte heretismo.
Miguel de Servet passou a ser alvo de católicos e protestantes. Fugindo da Inquisição da Igreja Católica na França, foi parar em Genebra (Suíça), onde Calvino presidia o Conselho de Genebra – que tinha por função, dentre outras, a de julgar casos de heresia. Os protestantes não foram menos tolerantes que os rivais católicos: Servet foi julgado à fogueira, embora conste que Calvino opinou no sentido de que o condenado fosse morto por decapitação. Vale destacar ainda que Calvino consultou outros reformadores, inclusive Lutero, e todos concordaram com a condenação de Servet à morte.
A atitude de Calvino parece ir de encontro aos ensinamentos bíblicos, pois, ao invés de defender a condenação por decapitação, Calvino poderia ter dito: “Não podemos julgar esse homem só pelo fato dele pensar diferente de nós”. O certo é que ele agiu exatamente como agiram aqueles a quem tanto o protestantismo tem condenado: o catolicismo histórico, a Inquisição.
A intolerância religiosa de Calvino parecia ir ao extremo: expulsou de Genebra um franciscano que mendigava nas ruas, pedindo comida em nome de Deus e da Virgem Maria. O reformador autorizava invasões aos lares, com o fim de investigar os costumes dos moradores. Foi imposta uma verdadeira ditadura moral: vários foram os casos de mulheres punidas por “má conduta”. Livros foram proibidos e a moda duramente vigiada. Pode-se dizer, seguramente, que as atitudes acima mencionadas em nada devem à histórica intolerância católica, a quem o protestantismo imprime pesadas críticas, uma das quais de agirem sob possessão demoníaca.
Muitos apologistas têm sustentado que Calvino agiu de acordo com o senso e o costume da época, ainda assim persiste a pergunta: é possível conciliar sua atitude com os ensinamentos do Novo Testamento?
Para finalizarmos sobre Calvino, leiamos este texto, de autoria do próprio reformador:
“Quem sustenta que é errado punir hereges e blasfemadores, pois nos tornamos cúmplices de seus crimes (…). Não se trata aqui da autoridade do homem, é Deus que fala (…). Portanto se Ele exigir de nós algo de tão extrema gravidade, para que mostremos que lhe pagamos a honra devida, estabelecendo o seu serviço acima de toda consideração humana, que não poupamos parentes, nem de qualquer sangue, e esquecemos toda a humanidade, quando o assunto é o combate pela Sua glória”.
Não restam dúvidas de que, mesmo agindo em desacordo com a razão e com os preceitos bíblicos para o caso em questão, Calvino crê piamente que está dentro da vontade de Deus, de modo que a condenação de quaisquer eventuais hereges é, segundo sua consciência, um dever, uma obrigação, uma tarefa sacra, quase um sacramento. Por acaso não foi a mesma justificativa dada pela Inquisição durante séculos de história? Como separar o trigo do joio?
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Nota: O autor deste blog, embora reprove os fatos supracitados, declara peremptoriamente que tributa à Reforma Protestante um mover de Deus para a humanidade. Se atentarmos cuidadosamente para o Novo Testamento, vemos que até mesmo os apóstolos, em momentos pontuais, protagonizaram alguns feitos dignos de censura, embora estivessem em plena atividade evangelística. É o caso, por exemplo, do apóstolo Pedro, duramente advertido pessoalmente pelo apóstolo Paulo, quando aquele procedia com dissimulação perante os gentios em Antioquia. Assim, acredita o autor deste blog que esses acontecimentos atribuídos ao reformador não têm o aval neotestamentário, mas acredita que ele tenha sido usado por Deus, em muitos outros momentos, para ser um dos nomes responsáveis por despertar na sociedade de seu tempo os valores espirituais das Escrituras sagradas, há muito esquecidos na época pelo catolicismo dominante. .
Não faltam motivos para se acusar Martinho Lutero - ex-católico e considerado um dos principais reformadores da chamada Reforma Protestante -, de ter agido, em momentos pontuais, de forma flagrantemente contrária a alguns dos ensinamentos bíblicos, conforme veremos. Preliminarmente, vamos analisar uma frase do próprio Lutero:
"É preciso despedaçá-los, degolá-los e apunhalá-los, em segredo e em público, quem puder fazê-lo, como se tem de matar um cachorro louco. Por isso, prezados senhores, quem aí o possa, salve, apunhale, bata, enforque e, se morrer por isso, morte mais feliz jamais há de poder alcançar."
As palavras acima transcritas, de autoria de Lutero, são uma referência à chamada Guerras Camponesas, uma disputa armada entre nobres e camponeses, que ocorreu na Alemanha, exatamente no tempo da Reforma. Lutero, no caso, ficou do lado dos nobres, cujas palavras acima são dirigidas aos mesmos.
A acusação de que, em dado momento da reforma, ele foi um homem de seu tempo, parece estar materializada quando lemos o que ele escreveu nas 95 Teses: "Seja excomungado e amaldiçoado quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas", embora posteriormente ele tenha mudado de opinião.
Outro motivo para críticas em relação a Lutero está no fato dele ter defendido, em dado momento, que a Bíblia era errante. Isso mesmo! Para começar, Lutero acreditava que o cânon do Novo Testamento não havia sido concluído, algo duramente combatido pelos protestantes.
Se isto não bastasse, Lutero chegou a defender ainda que o livro de Tiago, no Novo Testamento, não deveria estar na Bíblia, pois, segundo ele, a dita epístola continha uma teologia consideravelmente inferior a de outros escritores bíblicos, principalmente a de Paulo.
Para Lutero, os ensinamentos de Tiago e Paulo (ambos autores bíblicos) são irreconciliáveis em alguns pontos, principalmente quando se referem à fé e às obras.
Lutero ainda sugeriu que Pedro foi de fato um papa, que este poderia continuar sendo o líder máximo da Igreja, que o purgatório existe, bem como se referia a Maria como "a mãe de Deus", de sorte que todas estas crenças são inegavelmente combatidas pelos protestantes. É bem verdade que essa opinião do reformador se deu num momento de seu próprio amadurecimento enquanto reformador.
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Nota: O autor deste blog, embora reprove os fatos supracitados, declara peremptoriamente que tributa à Reforma Protestante um mover de Deus para a humanidade. Se atentarmos cuidadosamente para o Novo Testamento, vemos que até mesmo os apóstolos, em momentos pontuais, protagonizaram alguns feitos dignos de censura, embora estivessem em plena atividade evangelística. É o caso, por exemplo, do apóstolo Pedro, duramente advertido pessoalmente pelo apóstolo Paulo, quando aquele procedia com dissimulação perante os gentios em Antioquia. Assim, acredita o autor deste blog que esses acontecimentos atribuídos ao reformador não têm o aval neotestamentário, mas acredita que ele tenha sido usado por Deus, em muitos outros momentos, para ser um dos nomes responsáveis por despertar na sociedade de seu tempo os valores espirituais das Escrituras sagradas, há muito esquecidos na época pelo catolicismo dominante.
Show onde Raul Seixas recita a Lei de Thelema (a partir do 4:20)
A canção Sociedade Alternativa,
de Raul Seixas, é um tributo que o artista fez a seu guru espiritual, o satanista
inglês Aleister Crowley*, que faleceu na década de 1940. Mais do que isso: Raul
pretendia colocar em prática, aqui no Brasil, os ideais de seu guru. Uma prova de
que o famoso roqueiro se envolveu com práticas satanistas está numa confissão
de Paulo Coelho, que recebia instruções de um guru
seguidor de Crowley e as repassava para o Raul (veja o vídeo no final desta matéria). No mesmo documentário, temos a imagem da
Ordem Ocultista (que passava as instruções ao Raul) cortando o pescoço de um
cabrito vivo, com o uso de velas vermelhas, num ritual de magia negra. Estamos
falando de uma prova material, não de fofocas.
Até hoje, intelectuais
pretendem vincular a canção supracitada unicamente como uma forma de protesto
do artista contra a Ditadura Militar. Já repararam na letra da música? Mais do
que isso: já ouviram Raul Seixas recitando a Lei de Thelema enquanto cantava
Sociedade Alternativa? Pois é, segundo Raul Seixas, fazer o que cada um quer,
sem imposições dogmáticas, é tudo da lei (ou seja, a liberdade absoluta é o bem
supremo), e concluiu o artista que cada um tem o direito de matar quem pensa
diferente da sociedade alternativa. Esse pensamento original não é dele, mas de
Crowley, a quem Raul seguia copiosamente.
Consciente ou inconscientemente,
enquanto condenava as barbaridades cometidas pelo regime militar, Raul dava seu
aval em prol do assassinato de quaisquer opositores à sociedade alternativa
como alternativa para manter essa sociedade intacta e feliz, tal qual praticado
nos regimes comunistas do século XX (que mataram milhões de pessoas), onde vigorou o ateísmo materialista. Segundo
se depreende da referida canção, somente o anarquismo e a completa libertação
de valores ligados a Deus poderiam possibilitar a implantação de uma sociedade
livre e evoluída. E a Ditadura? A Ditadura mandou o artista para os Estados
Unidos, pois foi considerado subversivo. Essa medida ainda dribla, até hoje, os
intelectuais que não veem na música citada a filosofia relativista do
ativismo ocultista da época, mas apenas a prova de que a canção mencionada nada
mais era do que uma contestação ao regime ditatorial.
O protesto contra a Ditadura
Militar em Sociedade Alternativa foi apenas o pano de fundo que Raul usou
para divulgar e materializar a ideologia de Crowley no Brasil, ainda que, em
dado momento, ele próprio deu a entender que entrou nessa “onda” como forma de
protesto, embora estivesse convencido de que os ideais de seu guru representassem
na prática a evolução da espécie humana. Foi com esse convencimento que Raul recitou,
durante um show, o total desprezo pelas leis e pela democracia (pois a
democracia pressupõe a convivência com a opinião contrária à da sociedade
alternativa, algo que ele não concebia). O que têm os juristas a dizer sobre
isso?
Nela, na tão desejada sociedade
alternativa, pensar diferente deles (da sociedade alternativa) seria motivo
para imediata censura. Que contrassenso! Como alguém que defendia a liberdade
de expressão poderia, no mesmo fôlego, condenar à pena de morte a expressão
contrária à sua? Liberdade relativa e liberdade absoluta eram diferentes institutos
em Raul (a primeira válida para seus opositores e a segunda para os membros da nova sociedade), portanto, a prova materializada de sua estupidez musical, visto que
ambos os institutos simbolizavam a efetivação do velho adágio totalitarista que
diz: “Aos amigos, tudo; aos inimigos, a força da lei”. O que têm os defensores
dos direitos humanos a dizer sobre isso?
A música Sociedade Alternativa não era,
portanto, somente um protesto contra o caos no Brasil da época. Era, antes de
tudo, uma clara pretensão de criar uma nova sociedade sem leis, sem regras, sem
pudor, onde cada um estivesse livre para banir do meio social qualquer
pensamento contrário a ela, podendo até matar, se preciso fosse, nos termos
pregados pelo satanismo. Alguém já parou para refletir sobre isso? Por que,
enfim, não se pode vincular a referida canção ao satanismo se ela foi escrita
exatamente para transmitir a Lei de Thelema? Mas Raul continua sendo exaltado
em sua célebre canção – talvez porque muitos ainda não meditaram sobre ela em
seu contexto histórico e filosófico. Histórico, porque no ano em que o disco Gitá foi lançado, o país vinha numa onda
crescente de divulgação de ideias ligadas à necessidade de se libertar de
valores tradicionais (cristãos, para falar a verdade); filosófico, porque entraram em cena
teorias que pretendiam justificar a necessidade dessa reviravolta moral. Era o
lugar e o tempo perfeito para as bandeiras ocultistas da New Age de Crowley e, portanto, para a música Sociedade
Alternativa. Para divagadores, letra e melodia, em tom convidativo, nos remetem
à máxima de que a música nada mais é do que a expressão humana despida de
interesses do além, o que contribui decisivamente para desvinculá-la do
ativismo em prol da New Age,
cometendo, assim, o erro de interpretação acerca dos reais propósitos da música
Sociedade Alternativa, que eram, na verdade, cultuar o satanismo no Brasil.
Para um ateu, por exemplo, essa
historieta que acabamos de dissertar certamente não passa de uma mente
fundamentalista (como a nossa?), mas convém lembrar que, enquanto o ateu não
crê nessas historietas de satanismo, de ocultismo, há quem acredite e esteja
disposto a pagar um preço alto para colocar em prática seus ideais, como foi o
caso de Raul Seixas e de tantos outros que acreditam no satanismo e no
ocultismo, e ainda pretendem implantar no Brasil uma filosofia relativista,
apoiada, entre outras premissas, naquela que ensina que devemos desconfiar de
um discurso cristão como o primeiro passo para se buscar e alcançar a
verdadeira redenção social, visto que o cristianismo prega a existência de
valores imutáveis, como, por exemplo, o de que existe um Deus que deixou não
somente regras morais e espirituais claras, mas também a de que devemos
rejeitar ideias e valores morais e espirituais que batem de frente com os Dele
– sobretudo reconhecer o senhorio de Cristo. Efetivamente, essa é uma ideia que
já não faz o menor sentido para muitos modernistas e intelectuais, porém uma
realidade para outros.
Enquanto isso, cabras e cabritos
(e até bebês recém-nascidos) são mortos em rituais para se colocar em prática essa
ideologia anticristã (cuja música pode ser um veículo), no mesmo instante em
que o descrente, zombando do cristianismo, opta, como forma de protesto contra o próprio
cristianismo, abrir sua boca e berrar: “Viva a sociedade alternativa”, pensando
que está fazendo muita coisa pelo Brasil.
Mais do que nunca, crédulos e
incrédulos no modelo da New Age parecem seguir harmoniosamente na esperança de
sedimentar no Brasil uma sociedade de fato alternativa, mais ou menos parecida
com a proclamada por Crowley e Raul Seixas. Mas não é somente satanistas que
pretendem um Brasil assim: há quem acredite que seja possível um Brasil
exatamente assim, porém sem sangue e sem dor, sem cabras e sem cabritos imolados, bastando
para isso derrubar os valores cristãos, seja pela modificação das leis, seja pelo convencimento
intelectual de que a sociedade tem que buscar e defender a liberdade absoluta. Nada, como antes, parece estar em sintonia com o hedonismo e o utilitarismo de Stuart Mill como bens supremos a serem tutelados
pelo Estado e pela sociedade moderna. Pelo visto, satanistas e intelectuais utilitaristas
(não satanistas) estão vestindo a mesma farda futebolística, embora ambos os grupos estejam
pisando em gramados completamente diferentes.
Raul acreditava que, para colocar
em prática os valores da sociedade alternativa, se fazia necessário banir Deus
dessa sociedade, tal qual Marx e Nietzsche criam. Ou seja, Deus e os valores
cristãos eram (e ainda são), para a sociedade alternativa, um calo no pé que
deve ser banido a todo custo, custe o que custar. O que isso nos lembra nos
dias de hoje?
Por que, enfim, a canção
Sociedade Alternativa é considerada satanista? A resposta é simples: porque ela
foi um tributo ao satanismo, que, embora muitos não creem que exista, outros se
dizem seus representantes, os quais têm na referida música suas bandeiras
teosóficas. Afora, é claro, a própria mensagem em si. Se a sociedade pacífica
reprova o satanismo e a magia negra, por que não reprovamos a canção Sociedade
Alternativa e sobretudo a sociedade alternativa proclamada por Crowley e Raul Seixas? Reprovamos, pois, não somente a referida canção como também a sociedade protagonizada em sua letra.
________________________
*Parte do rock pesado dos anos
60 e 70 foi inspirado nos ensinos de Aleister Crowley. É o caso, por exemplo,
dos Beatles, de Iron Maiden, dos Rolling Stones, de Raul Seixas e de tantos
outros.
Documentário sobre a relação entre Raul Seixas e o satanismo.
Embora a circulação de livros na Antiguidade fosse bem menor do que atualmente, as fraudes literárias se faziam presentes. Segundo o professor Dr. Bart D. Ehrman, havia pelo menos 10 razões que motivavam essas fraudes: para gerar lucros; para se opor a um inimigo; para contestar determinado ponto de vista; para defender a ideia de que sua própria tradição tinha inspiração divina; por humildade; por amor a um personagem com autoridade; para ver se era possível enganar; para complementar a tradição; para contestar outras fraudes e para dar autoridade aos pontos de vista de alguém.
Essas fraudes são conhecidas graças às referências deixadas nos escritos de Heródoto, Cícero, Quintiliano, Marcial, Suetônio, Plutarco, Galeno, Filastrato, Diógenes Laércio. Entre os escritores cristãos da Antiguidade, temos citações em Irineu, Tertuliano, Orígenes, Eusébio, Jerônimo, Rufino e Agostinho.
Galeno (129 - 217), famoso médico romano, narrou que, certa vez, enquanto andava pelas ruas de Roma, chegou a uma banca de um vendedor de livros e lá estavam dois homens dialogando sobre o título de um livro de nome Galeno, divergindo os contendentes sobre a autoria do livro. Um alegava que a obra era da pena do próprio Galeno, ao passo que o outro discordava incisivamente. A partir daí, Galeno produziu um pequeno livro intitulado Como reconhecer os livros de Galeno.
As Bibliotecas de Alexandria e de Pérgamo, as maiores do mundo antigo, tinham o costume de adquirir obras de vendedores e colecionadores, o que motivava alguns empreendedores a copiarem obras literárias, de preferência os clássicos na época. Tal condição, ao que parece, contribuiu para a adulteração de alguns livros.
Diógenes Laécio, talvez o principal doxógrafo da filosofia grega, cita que um tal Diotemo distribuiu 50 cartas supostamente atribuídas a Epicuro, contribuindo de forma significativa para uma má reputação do filósofo grego.
Epifânio, bispo da cidade de Salamina no século IV, confessou que havia lido um livro supostamente usado pelos fibionitas (não confundir com ebionitas), grupo cristão herege marcado pela imoralidade sexual. O livro, cujo título era As grandes questões de Maria, continha relatos bizarros sobre a relação entre Jesus e Maria Madalena, apontando que certa vez Jesus a levou até um alto monte e, na presença dela, tirou uma mulher de dentro de si (ou seja, dentro do próprio Jesus), no entorno das costelas, passando em seguida a manter relações com ela, ou seja, com a mulher que saíra de dentro dele. Após atingir o orgasmo, Jesus teria comido o próprio esperma, proferindo em seguida as seguintes palavras: "Isto temos de fazer para viver". Ao presenciar a dolorosa cena, Maria Madalena teria desmaiado. Segundo alguns historiadores, Epifânio tinha o hábito de inventar informações, de modo que esse relato é contado unicamente por ele, sem outra referência na história.
Não se sabe se Platão, afamado filósofo grego, foi fiel ao relato histórico que ele traz no diálogo Fédon, quando narra em detalhes e em longas páginas as últimas horas de Sócrates antes de morrer. Platão não se achava junto a Sócrates porque estava doente, colhendo da boca de Fédon os mínimos detalhes do relato. Quem já leu Fédon, sabe que é de pouca probabilidade que aquele relato, tal qual se mostra em sua sequência cronológica, tenha sido fiel a todo o diálogo travado naquela infausta ocasião.
Tertuliano, apologista cristão nascido no segundo século e falecido no século seguinte, afirma que as conhecidas histórias do apóstolo Paulo e sua (suposta) discípula Tecla foram forjadas por um líder de uma igreja da Ásia Menor, que teria sido pego em flagrante. Em represália, foi destituído de seu cargo, embora tenha justificado que todo o esforço intelectual se devia a seu amor ao apóstolo.
Um senador romano, do primeiro século, teria escrito uma carta onde narra a fisionomia de Jesus, declarando que Ele era alto e tinha o cabelo da cor de vinho. De forma parecida, uma epístola do segundo século descrevia o apóstolo Paulo como um homem baixo e de pernas ligeiramente tortas (tratamos das duas descrições em detalhes em outra postagem neste blog, de 03.04.2011). Obviamente não são aceitas nem por cristãos nem por acadêmicos.
Uma das mais conhecidas fraudes no meio cristão de que se tem notícia, aponta para o início e final do século IV. Poucos anos do Edito de Milão (313 d.C.), um imperador romano, tentando desprestigiar o movimento ascendente do cristianismo, forjou uma obra, intitulando-a de Atos de Pilatos, na qual tentava mostrar as origens do cristianismo. O conteúdo revelava grosseiros erros históricos, conforme demonstrado poucos anos depois. No final do século, desta vez pelas mãos de cristãos, vem à tona novo Atos de Pilatos, porém destituído de credibilidade tal qual o primeiro.
A importância desse título se devia em especial pelo fato do estudioso da filosofia grega e cristão, Justino Mártir, ter feito menção, por volta do ano 155 d.C., à existência de registros oficiais do Império Romano constando alguns feitos de Jesus Cristo, cujo assento se achava nos Atos de Pilatos, onde eram registrados os atos públicos de Pilatos. Na ocasião, Justino desafiou o então imperador Antonino Pio a consultar os referidos Atos, conforme se acha em sua obra Apologia, a fim de que o imperador verificasse o próprio assentamento como prova histórica (e até divina, segundo Justino) da existência de Jesus. Sobre o primeiro Atos de Pilatos, que se tratava de um registro público do Império, nada se sabe nos dias hoje visto que não ficou preservado para a posteridade. Está documentalmente provado que os gestores provinciais romanos tinham expressa determinação do imperador para registrar seus feitos, conhecidos tradicionalmente como "Atos" seguido do nome do gestor. As fraudes, portanto, foram aquelas do quarto século e não a do início do primeiro século, a que Justino fez menção.