segunda-feira, 17 de junho de 2013

HISTÓRIA DA NORMA PADRÃO NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA



No diálogo Fedro, Platão narra uma longa conversa entre o personagem que leva o título do livro e o famoso Sócrates. Minutos antes de Fedro iniciar o discurso de Lísias sobre o amor, ambos os personagens protagonistas da obra clássica de Platão discorrem ligeiramente sobre a relação entre erudição e regionalismo. Vamos ao diálogo:
FEDRO: – Tu, porém, ó homem excêntrico, és o homem mais extraordinário que já se viu. Com tuas palavras, dás a impressão de um ser estrangeiro que necessita de um guia, e não um cidadão da Capital. Pouco sais da cidade e parece que nunca vais para fora dos muros.
SÓCRATES: – Perdão, meu ótimo amigo! Eu desejo aprender. Regiões e árvores, entretanto, nada me podem ensinar; somente os homens da Capital me ensinam. Mas tu pareces ter encontrado o meio de me levar para fora. Assim como se conduz uma rês faminta mostrando-lhe um ramo ou fruto, também a mim, se me acenares com um discurso ou um manuscrito, poderás me levar por toda a Ática ou para qualquer lugar aonde me queiras arrastar (...). [Grifamos]
 
A conversa dos dois não deixa dúvida: Sócrates (que nos seus 70 anos de vida pouco saiu da Capital Atenas) estava convencido de que na zona rural e nas cidades menores não havia produção de conhecimento que lhe interessasse. Para ele, somente os homens da Capital são instruídos e representam a elite do saber. A filosofia e, portanto, a capacidade de produzir ideias racionais é uma marca da Capital e não do Interior. O próximo passo será mesclar esse elitismo intelectual com status social.
 
Durante mais de dois mil anos há intensa peleja no sentido de condicionar a linguagem à escrita. Esta, uma vez normatizada, exige daquela o dever de obediência: só devemos falar, do ponto de vista gramatical, aquilo que está assente na gramática normatizada.
 
Essa tradição também começou com os gregos, embora o marco inicial tenha sido Alexandria (século III a.C.). As primeiras gramáticas vieram de lá e terminaram por influenciar, mundo afora, tudo aquilo que serve de parâmetro para registrar a elite da escrita de um povo. As consequências foram irreversíveis, como demonstra a própria história.
 
Tudo teria sido iniciado na cidade que foi um grande centro de cultura grega: Alexandria, no Egito. De Homero ao terceiro século antes de Cristo a Grécia já havia constatado várias mudanças em sua própria língua, segundo alguns estudiosos daquela época. Partiu daí o desejo de normatizar a "pureza" da língua grega, antes que sua essência fosse "por água abaixo" através do processo de aculturação.
 
A tarefa seguinte foi catalogar os grandes clássicos gregos e extrair deles a linguagem "perfeita", que serviria de modelo para as gerações futuras, principalmente para quem pretendesse escrever obras literárias em grego. Era o início da supremacia da escrita em relação à linguagem, uma vez que os parâmetros foram catalogados a partir da escrita e não a partir do que realmente era manifestado por meio da língua falada na época em que houve a catalogação acima mencionada. Isso viria influenciar o mundo, inclusive a língua portuguesa, como veremos mais adiante.
 
O processo de aculturação entre gregos e romanos não se deu da noite para o dia, e certamente trouxe várias implicações culturais, principalmente para os romanos, que se convenceram do esplendor grego em matéria de arte (lembre-se de que "gramática" significa "a arte de escrever bem").
 
No século em que se deu o esfacelamento da República romana, este povo já havia absorvido a ideia de que a divisão de classes sociais passaria inevitavelmente pela observância de regras relacionadas com a linguagem (tanto escrita como falada). O próprio Senado romano difundiu a ideia de que aquela Casa se sentia privilegiada quando tinha entre seus representantes, senadores versados não só na arte grega como na arte de falar em público.
 
O mesmo Senado e o governo imperial passaram a nomear chefes de departamentos pessoas com habilidade reconhecida em matéria de cultura, "sob o pretexto de que saberiam escrever os papéis oficiais em bela prosa", conforme atestam os escritores Philippe Ariès e George Duby, no primeiro volume da História da vida privada.
 
A influência grega chegou a limites tão significativos, que nenhum romano poderia se dizer culto se não tivesse algum conhecimento sobre artes e sobre a história dos grandes escritores clássicos. Igualmente se cultivou a ideia de que o conhecimento das doutrinas filosóficas deveria fazer parte de toda retórica que tivesse a pretensão de entrar para o rol daquelas consagradas, o que levou os grandes centros de ensino a incentivar seus alunos à busca de obras clássicas, sem falar que gerou uma corrida às eloquentes conferências públicas, tudo como forma de adquirir conhecimento de história e de filosofia, agora essenciais na arte de convencer pela palavra e pela escrita.
 
Todo romano que se prezasse deveria ter em sua biblioteca clássicos da literatura grega e romana. Também era elegante expor em suas residências e nos locais de trabalhos bustos de famosos da literatura clássica, um inegável retrato da diferenciação social.
 
As classes superiores procuravam se diferenciar das inferiores por meio de um estilo de cultura e vida moral, cujos traços mais imponentes não poderiam ser alcançados pelos outros. É nesse desenrolar das ideias que entra a convicção de que todo homem culto teria que se apresentar publicamente observando também uma comunicação culta, gerando, consequentemente, a necessidade da observância das normas gramaticais. No dizer dos escritores antes mencionados:
(...) a forma correta dos intercâmbios verbais testemunha a capacidade das pessoas da classe superior de adotar a forma correta dos intercâmbios interpessoais com seus pares.

Mais adiante, expondo suas opiniões sobre o tema em questão, os mesmos autores sentenciam de forma bastante objetiva:
A pessoa harmoniosa, formada por uma longa educação e moldada pela pressão constante de seus pares, vive perigosamente, supõe-se. Está exposta à ameaça sempre presente de ‘contágio moral’ por emoções anormais e por atos tidos como inadequados a sua posição pública, mas bem aceitos como habituais na sociedade inculta de seus inferiores.

Não demorou e o antigo romano se convenceu de que a Administração Pública – que representava a excelência do status social (todo romano queria fazer parte dela) – deveria adotar o que havia de melhor em matéria de conhecimento. Surge aí a ideia de que o Serviço Público tem que selecionar o há de melhor; logo, somente as pessoas mais versadas devem ingressar no Setor Público.
 
O contexto histórico de então já não comportava espaço para especulações, senão a firme certeza de que o administrador público deveria ser um homem culto, pois a Administração Pública (leia-se o Estado) representava o que havia de mais culto em matéria de conhecimento e comunicação. Logo, o próprio Estado solidifica a ideia de que o falar e o escrever corretamente são marcas inconfundíveis do próprio Estado, o que fortalece sobremaneira a relação entre a erudição e a observância da gramática normativa, relação esta que ainda se mostra vívida nos dias atuais. 

A Igreja Católica, que foi a única instituição a se equiparar (e em algumas situações a se sobrepor) ao Estado medieval, deteve o ensino por muitos séculos na Europa, valendo-se desse privilégio para impor seu ponto de vista.

O renascimento urbano e o advento da universidade trouxeram nova mentalidade ao homem medievo. Embora a Igreja tenha imposto seu modo de crer também pelo ensino, é pertinente ressaltar que ela não viu somente na educação a forma do mesmo homem medievo contestar os dogmas católicos, mas enxergou nela (na educação) uma alternativa para o progresso individual do ser humano, incrivelmente ainda em plena Idade Média. A prova disto está em um texto extraído do Cânon 18 do terceiro Concílio de Latrão (1179) no campo educacional:
A igreja de Deus, como uma mãe piedosa, é obrigada a velar pela felicidade do corpo e da alma. Por esta razão, para evitar que os pobres cujos pais não podem contribuir para o seu sustento percam a oportunidade de estudar e de progredir, cada igreja catedral deverá estabelecer um benefício suficientemente largo para as necessidades de um mestre, o qual ensinará o clero da respectiva igreja e, sem pagamento, os escolares pobres, como convém. [Grifamos]

Parece estranho para muitos que a Igreja tenha declarado (como levado a efeito), ainda na Idade Média, medidas que relacionassem o estudo ao progresso pessoal. Em outras palavras, já no ano 1179 a Igreja concebia a ideia de que os estudos podem conduzir o ser humano a patamares mais elevados, ou seja, a um status social mais alto, o que é entendido (na época e ainda hoje) como um progresso a ser alcançado por todos os seres humanos. 

Esse status passou a ser objeto de desejo pelos estudantes universitários da Idade Média, os quais enxergaram na vida acadêmica outras razões plausíveis: tabelamento de preços locatários para estudantes universitários, isenção fiscal e militar (e em relação às custas judiciais), dentre outros privilégios. 

Houve uma corrida aos assentos universitários, tanto que entre 1200 e 1400 surgiram mais de 50 universidades na Europa. O Direito (e depois Medicina) logo passou a ser o curso mais concorrido e havia duas razões óbvias para essa escolha: grande possibilidade de ingressar no serviço público e o indiscutível estrelato social (com a respectiva elevação do status social).

Mais uma vez temos o registro histórico de que a Administração Pública é vista como um lugar de excelência, retratada como o viveiro de intelectuais, embora distante ainda do status atribuído por Kant séculos depois. 

Assim, o passar dos séculos não quebrou a antiga tradição que relacionava o saber humano com a ideia de grandeza e cultura social. Antes, só estimulou essa relação e inseriu no homem medieval a mentalidade que apontava para o fortalecimento dessa pirâmide social, formada a partir de estratos bem definidos, dando ares de grandeza aos estudantes de Direito, que passaram a integrar o topo dessa pirâmide social. 

A Idade Moderna, já invadida pelos temas renascentistas, trouxe outras novidades em matéria de gramática. Vale ressaltar, porém, que o Renascimento propagou de forma convicta o pensamento clássico, dando à literatura grega e à romana posição de destaque em relação ao que havia sido produzido na Idade Média. 

Foi também durante o início da Idade Moderna que temos na Europa o processo de colonização de vários países da África e da América, dentre os quais o Brasil. 

De acordo com a cronologia de que dispomos, as primeiras gramáticas de língua portuguesa foram produzidas logo após os grandes descobrimentos, dentre as quais a Gramática da linguagem portuguesa (1536, de Fernão de Oliveira) e a Gramática da língua portuguesa (1540, de João de Barros). 

De acordo com alguns pesquisadores, no dizer do professor Marcos Bagno, "O trabalho dos gramáticos renascentistas visava, portanto, criar um modelo de língua que servisse como mais um dos muitos instrumentos de dominação sobre as novas terras (e população) conquistadas". Esse pensamento é fortalecido quando Nebrija (um dos primeiros gramáticos espanhóis) defende a necessidade de ensinar a língua aos "bárbaros". Ou seja, não éramos povos considerados civilizados, uma vez que "civilizado" passava necessariamente por atender ao modelo europeu, impregnado pelas ideias mais preconceituosas possíveis. 

No Brasil, o que se viu nos séculos que se seguiram ao XVI foi uma miscigenação de linguagens, de modo que não tínhamos um linguajar normatizado, mesmo com todo o empenho de Portugal em fazer de nosso país uma pacata filial em matéria de língua falada. 

Padre Antônio Vieira (século XVII) escandalizou Lisboa ao falar um sotaque brasileiro e não português. Ele próprio fazia questão de ensinar aos estrangeiros que chegavam à Bahia a língua "brasílica" e, de acordo com Afrânio Coutinho, "no final de vida, em 1695, (...) reconhece Vieira a existência de uma realidade linguística brasileira". Ou seja, já no final do século XVII o Brasil possuía uma língua própria, divergente de Portugal e, portanto, não havia justificativa suficientemente forte para impor ao nosso país uma gramática normativa portuguesa, senão o caráter colonialista existente.
 
A realidade linguística de nosso país naquele tempo remoto incomodou Portugal, e a prova irrefutável dessa afirmação aponta para o ano 1759, quando Marquês de Pombal, após silenciar os jesuítas, obrigou o Brasil a adotar a gramática portuguesa.
 
Os professores régios que se deslocaram para cá vieram não somente com a missão de substituir os jesuítas e de impor a gramática normativa portuguesa, mas inserir em nossa mente a ideia de que nosso conteúdo programático deveria ser o mesmo adotado na Europa, razão por que ainda hoje a matemática é exigida até mesmo para selecionar estudantes nas áreas das ciências humanas, indiscutivelmente uma herança renascentista, que buscou nos Gregos (diga-se, nas ideias de Platão, que por sua vez as colheu de Pitágoras) a premissa de que todo saber humano passa necessariamente pelo conhecimento de matemática.
 
Com o processo de independência do Brasil, a partir de 1822, os brasileiros que estudavam em Portugal passaram a ser alvo de diversas críticas e perseguições de estudantes (e até de professores) portugueses. Essa condição forçou o governo brasileiro a criar faculdades no país, daí o surgimento de dois cursos de Direito em 1827, um em São Paulo e outro em Olinda.
 
Na referida época, os brasileiros que retornaram das universidades europeias trouxeram em suas mochilas os ideais libertários protagonizados pela Revolução Francesa e pela Independência dos Estados Unidos, sem falar que estavam totalmente inclinados à crença de que a Europa representava verdadeiramente a raça humana no quesito "civilização".
 
Assim, era sinônimo de elegância e status social não só se vestir como os europeus, mas também usar a linguagem gramaticalmente correta. Esse ponto de vista, no entanto, teve seus momentos de contestação, protagonizado no século XIX pelos cearenses José de Alencar e Capistrano de Abreu.
 
O rompimento de D. Pedro I com seu país natal não atingiu o emprego da gramática, a mesma usada em Portugal, e juntamente com ela a crença de que todo brasileiro culto tinha a obrigação de conhecer a língua portuguesa, o que fez perpetuar a tradicional relação entre o uso da gramática normativa e a posição social.
 
Da mesma forma como aconteceu na época do Concílio de Latrão, o estudante de Direito no Brasil do século XIX, ao ingressar na faculdade, tinha em mente o Setor Público, certeza de prestígio social e de um bom dinheiro mensal.
 
Além dos motivos acima mencionados, outro contribuiu sobremaneira para perpetuar o emprego no Brasil da gramática normativa portuguesa: o aspecto cívico-moral. Vejamos o que diz o professor Marcos Bagno:
Não é por acaso que, ao longo do tempo, foi se criando a ideia de que ‘saber gramática’ era um ‘valor moral’ ou ‘dever cívico’ e que a pessoa que sabia ‘se expressar bem’ era, quase automaticamente, uma pessoa boa, idônea, de caráter limpo, amante de seu país, cumpridora de seus deveres, respeitosa das instituições etc. Essa associação moralista entre ‘a Língua’ e valores cívicos se encontra, por exemplo, nesta passagem de Rui Barbosa (1849-1923): ‘Uma raça cujo espírito não defende o seu solo e o seu idioma entrega a alma ao estrangeiro, antes de ser por ele absorvida’. 

E por falar em Rui Barbosa, alguns estudiosos entendem que ele e seu renomado professor de língua portuguesa, Carneiro Ribeiro, (curiosamente um graduado em Direito e o outro em Medicina) protagonizaram o golpe final em toda pretensão de se criar uma gramática normativa brasileira. Ambos escreveram, durante vários anos, milhares de páginas acerca das formas gramaticalmente corretas segundo a norma padrão da língua portuguesa, resultado de um longo debate travado em torno dos textos apresentados por Clóvis Beviláqua na minuta do primeiro Código Civil brasileiro, o que fortaleceu a premissa de que o homem versado na língua portuguesa está mais apto a interpretar as próprias leis de seu país.
 
Desta forma, embora o século XX tenha levantado vários brasileiros (como Herbert Parentes Fortes) em prol de uma gramática normativa do Brasil, o que prevaleceu foi a antiga tradição, embora o pensamento contrário se mostre racional, sinteticamente reduzido na frase de Said Ali "Os nossos gramáticos depois de assentarem que registram fatos criam regras inflexíveis" e na frase de Marco Bagno: "Querer cobrar hoje em dia, a observância dos mesmos padrões linguísticos do passado é querer preservar, ao mesmo tempo, ideias, mentalidades e estruturas sociais do passado".
 
Não obstante a pressão racionalista dos opositores da gramática tradicional, o que prevalece oficialmente no Brasil é a obrigatoriedade da Administração Pública de observar à risca todas as regras dessa mesma gramática, o que faz com que os servidores do Setor Público continuem atentando para o que ainda hoje é retratado como língua culta – nomenclatura equivocada, diga-se oportunamente, pois "culto" e "cultura" são indissociáveis; logo, dizer que fulano não fala uma língua culta é dizer que a língua falada por fulano é desprovida de cultura, o que é um gravíssimo erro do ponto de vista antropológico, daí a tendência para se chamar norma padrão e não norma culta.
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domingo, 16 de dezembro de 2012

PAPAI NOEL: SUA ORIGEM E SUAS CONTROVÉRSIAS

  
Nessa matéria você lerá, dentre outras curiosidades, sobre: (1) de onde vem a brincadeira de amigo oculto; (2) a origem do Papai Noel depois de Nicolau; (3) a primeira vez que o cinema retratou esse personagem; (4) como o protestantismo conviveu com o Natal e com o Papai Noel durante a Reforma, durante o século XIX e a partir do início do século XX; (5) como a Igreja Católica estimulou a morte do Papai Noel; (6) os primeiros estudos acadêmicos sobre a necessidade ou não de se manter a ficção do Papai Noel; (7) como a OMS cuidou do caso na década de 1950; (8) a origem da relação entre a Coca-Cola e o Papai Noel.

 
Já vimos noutras matérias que Jesus nasceu “antes de Cristo”; que o Natal foi oficializado no século IV, com o aparente objetivo de sufocar a festa pagã chamada Sol Invictus, comemorada no dia 25 de dezembro; agora, vamos contar os bastidores do surgimento e ascensão de Papai Noel.
 
Inicialmente vale ressaltar que, nos primeiros séculos, várias comunidades cristãs não eram favoráveis à comemoração do Natal, tanto que Orígenes, no século III, posicionou-se abertamente contra as festas comemorativas do aniversário de Jesus, assentindo que tal procedimento faria de Cristo um tipo de faraó, ou seja, uma divindade humana. Outros, no entanto, defendiam que, se o “mundo” via razões de sobra para honrar seu imperador, muitos mais motivos tinha a comunidade cristã para comemorar o nascimento daquele que seria o salvador da humanidade.
 
O mundo romano, por sua vez, enxertado em seu paganismo histórico, valorizava sobremaneira as festas de finais de ano, notadamente a Saturnália, cujo início se dava em 17 de dezembro. Na ocasião, as casas eram cuidadosamente enfeitadas, havia brincadeiras, troca de presentes, jogos, tréguas de brigas, banquetes, homens se vestindo de mulher, etc.
 
A troca de presentes no Natal, ainda apreciada nos dias de hoje (veja, por exemplo, as brincadeiras de amigo secreto), fora veementemente combatida por um bispo católico no início do ano 400. O bispo dizia, por exemplo, que a “festa ensina até mesmo as crianças bem pequenas, ingênuas e simples, a serem gananciosas, e acostuma-as a irem de casa em casa e a oferecerem novos presentes...”.
 
Por mais que várias autoridades da Igreja tenham tentado acabar com as festas de fim de ano, a tradição persistiu na Idade Média e chegou aos dias de hoje com bastante força, como já assinalamos acima. De nada valeu um édito londrino do século XV, através do qual se proibiu pedir presentes de Natal em Londres.
 
Mas o Papai Noel, quando e como entra nesta história? Para começar, o bom velhinho (trajado de Nicolau) só passa a se relacionar com o Natal em torno de mil anos depois do início da referida festa. Os primeiros registros mostrando um presenteador mágico na época do Natal apontam para o século XII. Nicolau (santo católico), falecido supostamente em 6 de dezembro de 343, vivia, no século 12, sob a fama de ser um santo milagreiro.
 
Nicolau, sabendo que um pai se achava impossibilitado de prover o dote de suas três filhas, decide entregá-las à prostituição e à escravidão. O santo consegue, em três noites consecutivas, atirar sacos de ouro na casa das três filhas, livrando-as, assim, do infortúnio que se avizinhava. O pai, descobrindo a atitude de Nicolau, espalha sua bondade, embora tivesse sido advertido para não divulgar o milagroso feito.
 
Curiosamente, é também no século XII que se propaga a forma de presentar como o concebemos hoje, quando freiras francesas, tentando homenagear o santo protetor das criancinhas, deixa secretamente presentes nas casas das crianças pobres na véspera do dia de São Nicolau.
 
Gradativamente, o santo é incorporado no psicológico social cristão, e passa a ser visto como o presenteador infalível nas noites de Natal (ainda não recebia o nome de Papai Noel). Só havia uma única condição para não ser presenteado na madrugada natalina: a desobediência aos pais durante o ano inteiro. Com isto, os pais tinham em suas mãos um forte motivo para invocar a obediência por parte de seus filhos. Estes, por sua vez, comumente dirigiam ao santo as mais variadas petições: “São Nicolau, protetor das crianças boas, eu me ajoelho para que o senhor interceda. Ouça a minha voz através das nuvens e esta noite me dê alguns brinquedos. O que mais quero é uma casa de bonecas com flores e pássaros, uma montanha, uma campina e carneirinhos bebendo água do regato”, dizia uma delas.
 
O Natal era, então, aguardado ansiosamente pelas criancinhas, que tinham o hábito de colocar sapatos ou meias embaixo da cama, a fim de que os presentes fossem colocados dentro dos mesmos. Comumente havia casos em que crianças não eram presenteadas na noite de Natal. Em vez de um presente, uma vara era colocada dentro do sapato, significando que o presenteador Nicolau estava triste com a referida criança. A vara, no caso, era sinal de disciplina. Logo, o santo era visto sob o dualismo benevolência x disciplina. Nicolau tinha tanto de misericordioso quanto de punitivo, e tal fama durou muito séculos, inclusive na Idade Moderna.
 
Já no final da Idade Média houve, por parte de membros da Igreja, quem enxergasse a necessidade de substituir o bom Nicolau pelo Menino Jesus. A fama, então, deveria ser transferida para o “filho de Deus”, a quem cabia, por mérito, a boa fama. Por razoável tempo coexistiram os dois presenteadores natalinos em questão. O reformador Martinho Lutero, por exemplo, chegou a declarar em 1532: “É isso o que fazemos quando ensinamos nossas crianças a jejuar e rezar, e a pendurar suas meias para que o Menino Jesus e São Nicolau possam lhes trazer presentes. Mas, se não rezam, elas não ganham nada, ou então ganham apenas uma vara e maçãs de cavalo [cocô]”.
 
No entanto, o advento do protestantismo trouxe sérias acusações contra as tradições de então, notadamente a de comemorar o Natal e a de acolher seu respectivo presenteador natalino. Nos países onde a fé calvinista teve maior destaque, não somente o santo como o próprio Natal foi banido. Na Escócia e na Inglaterra puritana, por exemplo, foram promulgadas leis que proibiram incondicionalmente o Natal e o ato de se presentear na referida data, pelo menos de 1645 a 1660. No mesmo período, deixar de trabalhar e ficar em casa no dia 25 de dezembro, ir à igreja para cantar músicas natalinas ou mesmo se reunir com a família em momento festivo poderia resultar em multa ou mesmo em prisão. Havia forte fiscalização no sentido de proibir em definitivo qualquer comemoração que relembrasse o Natal.
 
Houve casos em que foram registradas inclusive atitudes extremistas: mulheres condenadas e presas por dançarem na noite de Natal; padeiros que fizeram o pão natalino foram arrastados aos tribunais e julgados; aplicação de multas por suspeitas de comemoração; excomunhão para os relutantes. Um ministro calvinista chegou a dizer que comemorar o Natal é a mesma coisa que fornicar. O período natalino nos países protestantes (principalmente calvinista) do final do século XVII se tornou reconhecidamente propício a uma série de punições, muitas das quais manifestamente extremistas.
 
O período que vai da Renascença à Revolução Industrial só fez ampliar o número de presenteadores natalinos. Nicolau e o Menino Jesus haviam perdido tal monopólio. Desta vez outros elementos sobrenaturais passaram a cumprir a mesma função: fadas, espantalhos, feiticeiras, figuras fantasmagóricas vestidas de branco, anjos (até demônios com correntes). Mas nenhum conseguiu ocupar a proeminência de Nicolau.
 
No início do século XIX (por volta de 1809), São Nicolau dá indícios de que irá perder, de vez, o posto para outro velhinho: o Papai Noel. A razão encontrada parecia óbvia: Nicolau era caridoso, mas também punitivo. Costumeiramente castigava as criancinhas por suas travessuras. Estava na hora de se aposentar. Entra em cena o bom velhinho que conhecemos hoje. Papai Noel é retratado sobrevoando uma cidade num carroção (depois se converte num trenó) na noite natalina, depois descendo pelas chaminés. Esta invenção vem dos Estados Unidos e só aos poucos é que a Europa aceita a substituição proposta pelos americanos.
 
Os passos seguintes vieram com a imaginação de poetas e cartunistas. Em 1810 aparece a primeira menção impressa do vocábulo Papai Noel, escrito num poema de 15 de dezembro do mesmo ano. Os anos e as décadas seguintes deslancharam o velhinho presenteador, dando-lhe um rosto, um corpo, um comportamento peculiar, uma longa barba. Um poema de 1844 dizia que ele tinha um metro e meio de altura e sua morada era numa árvore (esta, a árvore natalina como conhecemos hoje, tem origem por volta de 1184).
 
Num poema de 26 de dezembro de 1857, pela primeira se tem maior nitidez de suas vestimentas: Papai Noel é descrito como um homem gordo, vestido de vermelho e ornamentado de branco e com longas botas pretas. Sua residência é descrita num castelo polar, com uma inscrição na entrada que dizia: “Aqui não entra ninguém que fica na cama até tarde”. No mesmo poema o autor dizia: “Todos os que esperam uma meia cheia de presentes não devem perder muito tempo brincando; tenham sempre em mente os livros e o trabalho e levantem-se ao raiar do dia”. Estava aqui, a velha tática de controlar aqueles que pretendiam receber presentes na noite de Natal.
 
Em 1869 novos poemas trazem algumas inovações sobre Papai Noel. Sua morada é reafirmada como sendo no Polo Norte. Ele é dono de uma luneta, capaz de vigiar todas as crianças do mundo; possui um livro para registrar todos os pedidos que lhe são dirigidos e ainda é mostrado cingido por um cinto largo, o mesmo usado nos dias de hoje.
 
Nas três últimas décadas do século XIX os Estados Unidos sentiram de perto o alto prestígio do Papai Noel e das festas natalinas. A chaminé, porta de entrada do bom velhinho, passou a ser alvo inevitável de visitas das crianças na noite de Natal. Durante todo o dia 24 de dezembro e principalmente antes de dormir, elas se aproximavam da chaminé, ora gritando, expondo seus pedidos, ora fazendo suas petições em silêncio, como se o Papai Noel fosse um ser onipresente e onisciente, capaz de, num só instante, estar em todos os lugares ao mesmo tempo e capaz de anotar um a um e de uma só vez todos os pedidos que lhe eram dirigidos.
 
No início da década de 1850 surgem os primeiros cartões de Natal impressos. Poucos anos após a criação do cinema, o personagem fictício já havia conquistado as telas em preto e branco: um filme chamado Santa Claus, de 1899, trazia em seu catálogo a seguinte descrição: “Nesse filme vocês verão o Papai Noel entrar na sala pela lareira e em seguida arrumar a árvore. Então ele enche as meias que as crianças penduraram previamente no console da lareira. Depois de caminhar para trás e conferir tudo o que fez, ele subitamente se arremessa para a lareira e desaparece subindo pela chaminé. Esse filme surpreende a todos e deixa as pessoas imaginando como o velhinho desaparece”.
 
A fama era tanta que muitas igrejas protestantes, historicamente hostis ao Papai Noel e às comemorações natalinas, voltaram não só a celebrar o Natal como também a convocar o bom velhinho a estar presente em vários momentos festivos das igrejas. A partir de 1850, essas mesmas igrejas passaram a usar o lendário Papai Noel nas escolas dominicais, assim como toda a indumentária natalina (árvore e presentes). Três décadas depois, essas igrejas já pareciam aceitar numa boa a presença do bom velhinho em algumas de suas liturgias, notadamente nas escolas dominicais. Tudo tinha uma explicação lógica: todo esse espetáculo proporcionou um grande aumento na frequência daqueles que visitavam principalmente as ditas escolas dominicais, bastante em voga na segunda metade do citado século, uma vez que elas (as igrejas) enxergaram no novo método (escola dominical) uma forma eficiente de levar o conhecimento bíblico a todos os visitantes.
 
É de se estranhar, talvez, essa mudança de visão das igrejas protestantes em poucas décadas. Meio século antes, líderes evangélicos chegaram a declarar: “A palhaçada que nessa ocasião acontece em algumas das igrejas, sob o ministério de um tipo de professores mercenários, e as ideias pueris e superficiais propagadas por via desse meio corrupto e interesseiro, referentes à natureza e ao modo da redenção cristã, são maravilhosamente calculadas para ampliar a esfera da estupidez e para aumentar as sombras da escuridão moral sobre a mente da humanidade”.
 
Mas, segundo alguns especialistas que estudaram o protestantismo americano do século XIX, vários líderes religiosos passaram a valorizar a conversão pessoal em Deus e não necessariamente a forma estereotipada de como se processava essa conversão. Daí justificarem que as festas natalinas eram apenas um chamariz, uma forma de seduzir aqueles que outrora se achavam hostis à própria religião.
 
Coincidentemente, o desenvolvimento econômico e social dos Estados Unidos no final do século XIX e início do século XX parece ter mexido com a cabeça das crianças. Em 1897, um periódico comparou dois pedidos feitos ao Papai Noel, um chamado de “antiquado” e o outro de “moderno”. O primeiro, escrito sob a luz de um lampião de querosene, diz: “Papai Noel, por favor, me traz um trenó novo e uma faca e um saquinho de doces, pois eu estou tentando ser um bom menino”. O segundo, escrito à luz elétrica, diz: “Querido Papai Noel, quero uma bicicleta e uma carruagem com cavalos, um iate e é bom você me trazer outro revólver porque o meu é muito pequeno”.
 
Na década de 20, quando a Coca-Cola sofria pesadas críticas feitas pela União Cristã Feminina da Temperança, pelo Governo Federal e por outros críticos por causa da fórmula de seu refrigerante (um senador chegou a declarar que coca-cola causava esterilidade nas mulheres, sem contar que era capaz de dissolver “as capacidades mental e digestiva e tecido moral”), ela decidiu investir pesado invocando o Papai Noel na pretensão de ser vista com outros olhos pela comunidade americana. Surgiu, aí, a tradição que dura ainda nos dias hoje: a íntima relação entre a Coca-Cola, o Natal e o Papai Noel.
 
Mas nem tudo são flores. Embora sempre criticado em toda a sua existência, as primeiras críticas acadêmicas surgiram por volta de 1896. Uma universidade americana fez estudos e concluiu que não parecia bom manter essa mentira junto às criancinhas. Dois anos antes, um inglês refletiu sobre a importância de manter ou não essa tradição em seu país, e concluiu, levando em conta as recentes mudanças sociais da Inglaterra que já havia chegado a hora de acabar com a tradição de manter vivo o Papai Noel. Ele declarou:
 
“Acredito que haja algum benefício no uso de todas essas tradições enquanto elas vivem e, se assim for, devemos mantê-las vivas; mas em sua maioria elas são por natureza perecíveis. Morrem porque já fizeram tudo o que estavam destinadas a fazer, e também para deixar espaço para formas novas e melhores da velha vida. Precisamos enterrar o que está morto, e não fazer de conta que essas coisas ainda estão vivas e galvanizá-las num falso aspecto de vida. Fazemos muitas asneiras, isso é inegável; permitimos que morram – ou até nós mesmos destruímos – muitas coisas que ainda continham vida, e continuamos tentando manter vivas muitas coisas que já morreram há muito tempo e aborrecem a todos, inclusive a nós mesmos".
 
Pouco depois, a Rússia comunista empreende os mais consistentes esforços no sentido de banir em definitivo tudo o que estivesse associado à religião, inclusive o Natal e o velho Papai Noel. Vendedores de árvores de Natal eram presos; igrejas foram fechadas; ícones religiosos quebrados; profissionais que participavam de festas natalinas eram expulsos de seus sindicatos. No dia 25 de dezembro, o golpe de misericórdia: as crianças eram obrigadas a assistir a filmes e concertos antirreligiosos. A festa de Natal havia sido transferida para 31 de dezembro, com uma nova roupagem, inclinada exclusivamente para tudo que fosse contrário à religião.
 
A ofensiva não vinha, no entanto, somente de países ateus, como a Rússia. A própria Igreja Católica, em 1951, protagoniza algo que até então parecia improvável: um de seus templos franceses promoveu, em dezembro do mesmo ano, a queima pública de Papai Noel. O ato chamou a atenção do mundo, mas a explicação parecia óbvia: o velho bonzinho havia chegado longe demais: seu notório prestígio junto às famílias havia deixado de lado outros símbolos considerados pela Igreja como mais importantes, dentre os quais o presépio e o Menino Jesus. Tal ressentimento se justificava pelo fato de que, segundo a explicação local, o Papai Noel americano representava, na interpretação do estudioso Gerry Bowler, “a paganização de uma importante festa cristã e era mito destituído do valor religioso; e era um herege e um usurpador”.
 
Assim, o Papai Noel foi queimado ao vivo, na presença de 250 crianças. A Associação Cristã dos Moços (ligada à igreja local) emitiu uma nota que dizia: “Desejosos de combater as mentiras e as histórias falsas, queimamos esse Papai Noel. A intenção não foi fazer uma demonstração esportiva ou comercial, mas sim proclamar alto e bom som que as mentiras não podem despertar o sentimento religioso de uma criança e absolutamente não são um método de educação para a vida”.
 
Daí em diante, muitas igrejas protestantes passaram a fazer uma nova reflexão sobre a necessidade ou não de preservar essa tradição. Em 1975, uma igreja da Flórida promoveu um linchamento de duas imagens de Papai Noel. Cinco anos depois, outra igreja simbolizou o julgamento do velhinho, acusado de fraude e perjúrio, tendo o réu sido condenado e em seguida enforcado.
 
Um folheto na Carolina do Norte (não sabemos seu autor) chegou ao extremo e apresentou Papai Noel como sendo o próprio Diabo e acabou incluindo um poema chamado “Ho! Ho! Ho!”, que dizia: “O Diabo tem um demônio, o nome dele é Papai Noel. Ele é um demônio velho e sujo (...) Um dia eles vão se apresentar diante de Deus, sem o seu saco de bugigangas (...) condenados para o Inferno eterno, onde não haverá Ho! Ho! Ho!”.
 
As pesadas críticas se fizeram acompanhadas não somente de membros ligados à religião. O primeiro diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou a declarar no início da década de 1950 que iria levar o caso do Papai Noel para as Nações Unidas, com o fim de privar as crianças de todo tipo de ficção capaz de incutir em suas mentes ideias completamente distanciadas da realidade. Em décadas posteriores, houve casos em que os professores chegaram a proibir que seus alunos fossem cumprimentados com a frase “Feliz Natal”. Não vingou, e a tradição persistiu.
 
Finalizamos esta matéria com uma frase dita por um pai ficcional, publicada em 1856, quando ele chega para sua esposa e diz: “A partir de agora o Natal deve ser uma instituição em nossa família! (...) Sou um homem melhor por causa do que fiz na noite passada e da diversão inocente de hoje. Sinto-me vinte anos mais jovem e cinquenta pontos mais feliz. Compensa, minha querida, compensa!”.
 
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Resumidamente, temos: (1) as brincadeiras de amigo oculto no final de ano tiveram origem no paganismo romano; (2) as comemorações do Natal são antigas e coexistiram no tempo com as festas pagãs com significados parecidos; (3) as origens de um presenteador natalino remontam ao começo do século XII, e estão diretamente associadas a São Nicolau; (4) a origem do Papai Noel como o concebemos hoje remonta às primeiras décadas do século 19, nos Estados Unidos; (5) as igrejas protestantes ora repudiaram o Papai Noel e as festas natalinas, ora os receberam de braços abertos de acordo com as conveniências teológicas e pedagógicas.
 
Leia também:
 
Jesus não nasceu em 25 de dezembro:
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Sábado ou domingo?
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A conversão de Constantino ao cristianismo:
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domingo, 22 de abril de 2012

SÁBADO OU DOMINGO? DOCUMENTOS HISTÓRICOS REVELAM A CRENÇA DO CRISTIANISMO PRIMITIVO


Devemos guardar o sábado ou o domingo? A igreja primitiva guardava um dos dois dias? O que nos dizem os documentos históricos? O que podemos extrair da história do cristianismo nos seus primeiros séculos de existência? Constantino foi mesmo o grande responsável pela mudança do sábado para o domingo?
Essa velha disputa entre sabatistas e dominicais tem pelo menos o marco cronológico em que não se questionava a guarda do sábado como sendo o dia sagrado, conforme os termos bíblicos. Pode-se dizer, seguramente, que antes da morte (e ressurreição) de Jesus Cristo não se reivindicava a utilização do domingo com essa finalidade. A questão estaria, pois, a partir de sua morte (e ressurreição), quando deu início a saga cristã.

Quando, enfim, o cristianismo primitivo passou a adotar o domingo em substituição ao sábado?

Os sabatistas alegam que foi a partir de Constantino, notadamente porque a fundadora da Igreja Adventista do Sétimo Dia, Ellen White (1827 – 1915), sustentou que foi o referido imperador romano o grande vilão, sendo o falsário e o maior responsável por esse embuste.

Uma coisa pelo menos é certa: Constantino deu a palavra final, decididamente capaz de manter, no seio da nova igreja, o costume de se guardar o domingo e não mais o sábado. No entanto, parece ser, do ponto de vista histórico, uma acusação precipitada no que concerne à afirmação de que ele teria sido seu grande inventor, ainda que movido pelas muitas razões políticas e religiosas da época – a exemplo da criação do Natal em 25 de dezembro, uma clara tentativa de sufocar a festa pagã do culto ao Sol Invictus, patrono oficial de todo o Império romano a partir do governo de Aureliano (270 – 275).

Assim, antes mesmo de trazermos alguns textos históricos, fica a observação de que a questão da adoção do domingo como dia sagrado e a adoção do dia 25 de dezembro como sendo o dia de nascimento de Cristo têm contextos próprios, e não se sujeitam às mesmas bases históricas, de modo que se pode assegurar que, em relação ao primeiro questionamento, temos documentos que sustentam essa tese (a de que muito antes de Constantino os cristãos já guardavam o domingo), ao passo que em relação ao segundo, nada se sabe, do ponto de vista documental, acerca da real data de nascimento de Cristo, sendo, portanto, seguro afirmar, até aqui, que se trata de uma invenção da Igreja Católica quando a mesma ainda sequer havia sido oficializada.

Quais são, enfim, os textos documentados que corroboram a tese de que ainda no primeiro século os cristãos já observavam o domingo e não mais o sábado?

Preliminarmente vamos citar um trecho de Plínio, o Jovem, escrito por volta de 112 d.C. Vale ressaltar, no entanto, que nesta passagem não fica evidenciado o dia da semana, mas já nos mostra que havia um dia específico para as práticas litúrgicas em questão:

“... tinham os cristãos o hábito de reunir-se em um dia fixo antes de sair o sol, quando entoavam um cântico a Cristo como Deus e se comprometiam, mercê de solene juramento, a não praticar nenhum ato mau, a abster-se de toda fraudulência, furto e adultério, a jamais quebrar a palavra empenhada ou deixar de saldar um compromisso em chegando a data do vencimento, após o quê era costume separarem-se e reunir-se novamente para participar do banquete comum, servindo-se de alimento de natureza ordinária e inocente”.

Inácio de Antioquia (68 – 107) escreveu:

“Aqueles que estavam presos às velhas coisas vieram a uma novidade de confiança, não mais guardando o sábado, porém vivendo de acordo com o dia do Senhor (domingo)”.

Tertuliano de Cartago (160 – 220) também abordou o presente tema:

“Nós (os cristãos) nada temos com o sábado, nem com outras festas judaicas, e menos ainda com as celebrações dos pagãos. Temos nossas próprias solenidades: O Dia do Senhor...”

Justino, o Mártir, escreveu, por volta de 150 d.C., uma carta ao imperador Antonino Pio, na qual ele faz uma enfática apologia à fé cristã. Consta, do referido documento, um trecho que disserta, em palavras esclarecedoras, sobre o costume dos primeiros cristãos quanto a guarda do domingo e não mais do sábado, como pretendem os sabatistas. Leiamos o valioso texto, que mostra, ainda, outros costumes litúrgicos dos primeiros cristãos.

No dia que se chama do sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se leem, enquanto o tempo o permite, as Memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas. Quando o leitor termina, o presidente faz uma exortação e convite para imitarmos esses belos exemplos. Em seguida, levantamo-nos todos juntos e elevamos nossas preces. Depois de terminadas, como já dissemos, oferece-se pão, vinho e água, e o presidente, conforme suas forças, faz igualmente subir a Deus suas preces e ações de graças e todo o povo exclama, dizendo: 'Amém'. Vem depois a distribuição e participação feita a cada um dos alimentos consagrados pela ação de graças e seu envio aos ausentes pelos diáconos. Os que possuem alguma coisa e queiram, cada um conforme sua livre vontade, dá o que bem lhe parece, e o que foi recolhido se entrega ao presidente. Ele o distribui a órfãos e viúvas, aos que por necessidade ou outra causa estão necessitados, aos que estão nas prisões, aos forasteiros de passagem, numa palavra, ele se torna o provedor de todos os que se encontram em necessidade. Celebramos essa reunião geral no dia do sol, porque foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, fez o mundo, e também o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos. Com efeito, sabe-se que o crucificaram um dia antes do dia de Saturno e no dia seguinte ao de Saturno, que é o dia do Sol, ele apareceu a seus apóstolos e discípulos, e nos ensinou essas mesmas doutrinas que estamos expondo para vosso exame”. [Destaques de nossa autoria]

Vimos, pelos textos acima transcritos, especialmente neste de Justino, que o domingo já era observado pelos cristãos do primeiro século, e não mais o sábado. Não é pretensão assinalar, assim, que havia no seio da Igreja primitiva o hábito de adotar o domingo como o dia sagrado, de modo que atribuir a Constantino a substituição aqui mencionada nos parece um tanto sem base histórica, ainda que o dito imperador tenha oficializado tal prática litúrgica.

Vale dizer ainda, para se evitar eventual especulação, que a oficialização nada tem a ver, em sua essência, com a adoção abrupta de um ato litúrgico. Em outras palavras, o que Constantino fez foi apenas confirmar, formalmente, uma antiga prática cristã, nascida muito provavelmente a partir da morte dos apóstolos Pedro e Paulo.

Ao se afirmar que o imperador cristão ratificou uma velha tradição, não se está dizendo, no entanto, que ele o fez movido somente por intenções tendenciosas. Falamos assim porque, da mesma forma como ocorreu em relação à invenção do Natal em 25 de dezembro, nos termos já dissertados nesta matéria, pode-se deduzir que os planos de Constantino eram exatamente eliminar toda e qualquer data especial das festas pagãs.

A primeira refutação se concentra no fato de que o dito imperador não era, declaradamente, inimigo do paganismo, do qual ele próprio foi seguidor antes de se julgar cristão. Depois, a reiterada utilização da expressão “Dia do Sol” se deve por razões históricas, cronologicamente localizadas. Ou seja: os escritores que se referiram a essa prática cristã (a adoção do domingo) o fizeram se utilizando de uma terminologia bastante conhecida da época, ainda que ela tenha ligação direta com o paganismo. O mesmo fenômeno é observado, por exemplo, quando o historiador Cornélio Tácito, em 115 d.C., se referiu a Pôncio Pilatos como sendo procurador, embora na época o título correspondente fosse de prefeito. A expressão “Dia do Sol” era muito conhecida e empregada entre os século II e V, razão por que os apologistas cristãos adotavam-na em seus escritos.

Conclui-se, portanto, que a substituição do sábado para o domingo não é uma invenção da Igreja Católica, muito menos de autoria do polêmico imperador Constantino, ainda que temos razões de sobra para afirmar que a referida igreja inventou dogmas que, no decorrer dos séculos, revelaram o afastamento de vários ensinamentos bíblicos. Conforme vimos, é altamente provável que a adoção do domingo como o dia consagrado para os cristãos, em detrimento do sábado, tenha tido sua origem ainda no final do primeiro século do cristianismo.

NOTA DO AUTOR DO BLOG*: A presente matéria não é, como é de se ver, uma análise teológica da questão, mas unicamente histórica. Pelos relatos dos textos canônicos do NT, embora esteja evidente a abolição da obrigatoriedade de se guardar o sábado. Quanto à guarda do domingo, frequentemente são utilizadas as seguintes passagens do Novo Testamento: Atos 20:7 e I Coríntios 16:1-2.

*O presente texto sofreu algumas alterações em 30.04.2016.
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Leia também:

Jesus não nasceu em 25 de dezembro:


A conversão de Constantino:


A relação entre Constantino e a Igreja Católica:

http://historiaesuascuriosidades.blogspot.com.br/2012/02/cartas-de-constantino-mostram-estreita.html.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

DOAÇÃO DE DINHEIRO E RESTITUIÇÃO DE ANTIGOS BENS IMÓVEIS: CARTAS DE CONSTANTINO MOSTRAM A ESTREITA RELAÇÃO ENTRE A IGREJA CRISTÃ E O IMPÉRIO ROMANO (IMPERDÍVEL)


No mês de maio de 2010 este blog publicou trechos de uma carta do imperador Constantino ao rei persa, na qual ele dá claras demonstrações de que havia de fato se convertido ao cristianismo. Há quem duvide de sua conversão. O Edito de Milão, em 313 – através do qual Constantino concede liberdade religiosa em todo o Império - é apontado como uma saída política, uma vez que o crescimento do número de cristãos (mesmo duramente perseguidos) era um fenômeno irreversível, de modo que já não valia a pena o Estado militar contra tal segmento religioso.

Ratificamos o que dissemos outrora e, por questões de ênfase, mais uma vez transcrevemos o referido trecho e, em seguida, trechos de outras cartas e de dispositivos legais, inéditos no blog, nos quais o imperador revela seu interesse em solucionar velhos problemas que envolvem os cristãos, notadamente a questão dos bens imóveis da Igreja, os quais se achavam em poder de terceiros, assim como a doação de dinheiro a líderes cristãos. Os textos abaixo transcritos são, indiscutivelmente, de grande valor histórico. Recomendamos uma leitura despreocupada, desprovida de qualquer pressa.

Carta ao rei persa:

"Somente pela minha fé em Cristo Jesus é que os subjuguei. Por isso, Deus foi meu ajudador, deu-me a vitória na batalha e faz-me triunfar sobre meus inimigos. Da mesma maneira me tem ampliado os limites do Império Romano, de modo que se estende desde o Oceano Ocidental até quase os confins do Oriente. E nestes domínios não tenho oferecido sacrifícios às antigas divindades, nem usado os encantamentos ou adivinhações: só tenho oferecido orações ao Deus Onipotente, e seguido a cruz de Cristo. Muito me regozijaria se o trono da Pérsia achasse também glória e abraçasse os cristãos, de modo que tu comigo, e eles contigo, pudéssemos gozar a verdadeira felicidade."

Eusébio de Cesareia registrou, em sua famosa História Eclesiástica (século IV d.C.), algumas cartas do imperador e dispositivos legais, nos quais ele revela a estreita relação entre Igreja e Estado.

Vale relembrar que era uma prática bastante comum em todo o Império o envio de cartas entre os imperadores e seus subordinados e entre aqueles e o Senado. De igual modo era bastante comum qualquer do povo enviar cartas ao imperador e ao Senado.

Lei imperial acerca dos cristãos:

“Quando eu, Constantino Augusto, e eu, Licínio Augusto, nos reunimos felizmente em Milão, e nos pusemos a discutir tudo o que importava ao proveito e utilidade públicas, entre as coisas que nos pareciam de utilidade para todos em muitos aspectos, decidimos sobretudo distribuir umas primeiras disposições em que se asseguravam o respeito e o culto à divindade, isto é, para dar, tanto aos cristãos quanto a todos em geral, livre escolha para seguir a religião que quisessem, com o fim de que tanto a nós quanto aos que vivem sob nossa autoridade nos possam ser favoráveis a divindade e os poderes celestiais que existem.”

Prossegue Constantino:

“Portanto, foi por um saudável e retíssimo arrazoamento que decidimos tomar esta nossa resolução: que a ninguém se negue em absoluto a faculdade de seguir e escolher a observância ou a religião dos cristãos, e que a cada um se dê a faculdade de entregar sua própria mente à religião que creia que se adapta a ele, a fim de que a divindade possa em todas as coisas outorgar-nos sua habitual solicitude e benevolência”.

Continua:

“Assim era natural que déssemos por decreto o que era de nosso agrado: que, suprimidas por completo as condições que se tinham em nossas primeiras cartas a tua santidade acerca dos cristãos, também se suprimisse tudo o que parecia ser inteiramente sinistro e alheio a nossa mansidão, e agora cada um dos que sustentam a mesma resolução de observar a religião dos cristãos, observe-a livre e simplesmente, sem impedimento algum. Tudo isto decidimos manifestar da maneira mais completa a tua solicitude,para que saibas que nós demos aos mesmos cristaos livre e absoluta faculdade de cultivar sua própria religião”.

No trecho abaixo, Constantino parece tentar convencer a elite cristã de que, uma vez já foram atendidos os interesses do cristianismo em relação à liberdade de crença, os mesmos devem respeitar outras crenças, tudo com o fim de manter a paz em todo o império.

“Já que estais vendo o que precisamente lhes demos sem restrição alguma, tua santidade compreenderá que também a outros, a quem queira, da-se-lhes faculdade de prosseguir suas próprias observâncias e religiões – o que precisamente está claro que convém à tranquilidade de nossos tempos -, de sorte que cada um tenha possibilidade de escolher e dar culto à divindade que queira. Isto é o que fizemos, com o fim de que não pareça que desprezamos o mínimo a honra ou a religião de ninguém”.

Logo em seguida, o imperador se mostra benevolente para com o cristianismo, e explica sua decisão em relação ao direito dos cristãos de receberem de volta quaisquer bens imóveis objetos de prática litúrgica.

“Mas, além disto, em atenção às pessoas dos cristãos, decidimos também o seguinte: que seus lugares em que anteriormente tinham por costume reunir-se e acerca dos quais já em carta anterior enviada a tua santidade havia outra regra, delimitada para tempo anterior, se parecer que alguém os tenha comprado, seja de nosso tesouro público, seja de qualquer outro, que os restitua aos mesmos cristãos, sem reclamar dinheiro nem compensação alguma, deixando de lado toda negligência e todo equívoco. E se alguns, por acaso, os receberam como doação, que estes mesmos lugares sejam restituídos o mais rapidamente possível aos mesmos cristãos”.

Constantino se dispôs, inclusive, a indenizar aqueles que se achavam - na ocasião da lei imperial – donos de bens imóveis sujeitos à restituição aos cristãos:

“... guardada, evidentemente, a razão exposta acima: que aqueles, como dissemos, que os restituírem sem recompensa, esperem de nossa benevolência sua própria indenização”.

O imperador parecia não só ter pressa em relação ao cumprimento de tal decisão, como também interesse em se certificar de que sua ordem havia sido fielmente cumprida. Em uma carta endereçada a Anulino, governador proconsular da África, veja o que ele escreve à referida autoridade:

“Daí que queiramos que, ao receber esta carta, se, em cada cidade ou inclusive em outros lugares, alguns destes bens pertenciam à Igreja católica* dos cristãos e agora os detenham cidadãos ou outras pessoas, faças com que ditos bens sejam restituídos imediatamente às mesmas igrejas, posto que decidimos que precisamente aquilo que as ditas igrejas prossuíam antes seja restituído a seu direito (...) apressa-te para que tudo, sejam jardins, casas ou qualquer outra coisa que pertença ao direito das ditas igrejas, seja-lhes restituído o mais rapidamente possível, de sorte que chegue ao nosso conhecimento que aplicaste a esta nossa ordem a mais escrupulosa obediência...”.

Havia interesse do imperador, ainda, de prover financeiramente a Igreja. Os trechos de uma carta mediante a qual se faz doações de dinheiro às igrejas cristãs mostram bem tal interesse:

“Constantino Augusto e Ceciliano, bispo de Cartago. Posto que em todas as províncias, particularmente nas Áfricas, nas Numídias e nas Mauritânias [o uso no plural se deve à divisão da diocese da África em províncias por parte de Diocleciano], determinei que se outorgasse algo para os gastos de alguns ministros designados da legítima e santíssima religião católica*, despachei uma carta para o perfeitíssimo Urso, diretor geral das finanças da África...”.

Prossegue o imperador:

“Tu, por conseguinte, quando acusardes o recebimento da indicada quantia de dinheiro, manda que este dinheiro seja repartido a todas as pessoas acima mencionadas conforme o documento que Osio te enviou. Mas se perceberes que falta algo para o cumprimento deste meu plano relativo a eles, deverás pedir sem denoma a Heráclides, o procurador de nossos bens, o quanto saibas que é necessário, já que, achando-se aqui presente, dei-lhe ordens para que se preocupasse de pagar-te sem menor vacilação, no caso de que tua firmeza lhe pedisse algum dinheiro”.

Conforme vimos, os documentos acima transcritos não deixam dúvidas de que a Igreja cristã recebeu o incondicional apoio do Império Romano, após longos e cansativos anos de perseguição.
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* O termo “católico”, empregado por Eusébio de Cesareia mesmo antes do nascimento oficial da Igreja Católica Apostólica Romana em 381 d.C., não implica dizer, necessariamente, que se tratava da referida Igreja como a concebemos hoje. O citado termo passou a ser usado, muito provavelmente, no final do segundo século (depois de Cristo), e de forma não generalizada, uma vez que havia muitos segmentos cristãos, cada um com variantes diferentes em relação às próprias crenças cristãs. O termo aqui tratado passou a ser empregado, gradativamente, por um grupo de cristãos que se impuseram pelo significativo número de seguidores que guardavam as mesmas crenças (ou muito parecidas), de sorte que, aos poucos, se pôde observar o surgimento de um corpo eclesiástico distribuído hierarquicamente, matriz da atual Igreja católica. Só aos poucos a citada Igreja foi adotando dogmas que, ao que parece, foram se afastando cada vez mais da igreja primitiva.

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