sábado, 12 de novembro de 2011

AS 95 TESES DE LUTERO NA ÍNTEGRA


Abaixo, as 95 Teses, de autoria do reformador Martinho Lutero. Elas foram afixadas no dia 31 de outubro de 1517, em frente a um templo católico que ficava nos arredores do castelo de Wittenberg, na Alemanha. Leia o texto na íntegra:

"Com um desejo ardente de trazer a verdade à luz, as seguintes teses serão defendidas em Wittenberg sob a presidência do Rev. Frei Martinho Lutero, Mestre de Artes, Mestre de Sagrada Teologia e Professor oficial da mesma. Ele, portanto, pede que todos os que não puderem estar presentes e disputar com ele verbalmente, façam-no por escrito. Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém".

1. Ao dizer: "Fazei penitência", etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.

2. Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental (isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes).

3. No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.

4. Por conseqüência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus.

5. O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.

6. O papa não tem o poder de perdoar culpa a não ser declarando ou confirmando que ela foi perdoada por Deus; ou, certamente, perdoados os casos que lhe são reservados. Se ele deixasse de observar essas limitações, a culpa permaneceria.

7. Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.

8. Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.

9. Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade.

10. Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.

11. Essa cizânia de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.

12. Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.

13. Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.

14. Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais quanto menor for o amor.

15. Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero.

16. Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semidesespero e a segurança.

17. Parece necessário, para as almas no purgatório, que o horror devesse diminuir à medida que o amor crescesse.

18. Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontrem fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.

19. Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza disso.

20. Portanto, por remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.

21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.

22. Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.

23. Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.

24. Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.

25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.

26. O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.

27. Pregam doutrina mundana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].

28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa[1], pode aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.

29. E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas, como na história contada a respeito de São Severino e São Pascoal?

30. Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.

31. Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.

32. Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.

33. Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Ele.

34. Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.

35. Os que ensinam que a contrição não é necessária para obter redenção ou indulgência, estão pregando doutrinas incompatíveis com o cristão.

36. Qualquer cristão que está verdadeiramente contrito tem remissão plena tanto da pena como da culpa, que são suas dívidas, mesmo sem uma carta de indulgência.

37. Qualquer cristão verdadeiro, vivo ou morto, participa de todos os benefícios de Cristo e da Igreja, que são dons de Deus, mesmo sem carta de indulgência.

38. Contudo, o perdão distribuído pelo papa não deve ser desprezado, pois – como disse – é uma declaração da remissão divina[2].

39. Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar simultaneamente perante o povo a liberalidade de indulgências e a verdadeira contrição.[3]

40. A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, ou pelo menos dá ocasião para tanto.[4]

41. Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor.[5]

42. Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia.

43. Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.[6]

44. Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.

45. Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.

46. Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.

47. Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.

48. Deve ensinar-se aos cristãos que, ao conceder perdões, o papa tem mais desejo (assim como tem mais necessidade) de oração devota em seu favor do que do dinheiro que se está pronto a pagar.

49. Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.

50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

51. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto – como é seu dever – a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extorquem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.

52. Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.

53. São inimigos de Cristo e do Papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas.

54. Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela.

55. A atitude do Papa necessariamente é: se as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias.

56. Os tesouros da Igreja, a partir dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.

57. É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam.

58. Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior.

59. S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.

60. É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem estes tesouros.

61. Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos especiais, o poder do papa por si só é suficiente.[7]

62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.

63. Mas este tesouro é certamente o mais odiado, pois faz com que os primeiros sejam os últimos.

64. Em contrapartida, o tesouro das indulgências é certamente o mais benquisto, pois faz dos últimos os primeiros.

65. Portanto, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.

66. Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens.

67. As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tais, na medida em que dão boa renda.

68. Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade da cruz.

69. Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas.

70. Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbidos pelo papa.

71. Seja excomungado e amaldiçoado quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas.

72. Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.

73. Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências.

74. muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram fraudar a santa caridade e verdade.

75. A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes a ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura.

76. Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados venais no que se refere à sua culpa.

77. A afirmação de que nem mesmo São Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o Papa.

78. Dizemos contra isto que qualquer papa, mesmo São Pedro, tem maiores graças que essas, a saber, o Evangelho, as virtudes, as graças da administração (ou da cura), etc., como está escrito em I.Coríntios XII.

79. É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insigneamente erguida, eqüivale à cruz de Cristo.

80. Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes sermões sejam difundidos entre o povo.

81. Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil nem para os homens doutos defender a dignidade do papa contra calúnias ou questões, sem dúvida argutas, dos leigos.

82. Por exemplo: Por que o papa não esvazia o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas – o que seria a mais justa de todas as causas –, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica – que é uma causa tão insignificante?

83. Do mesmo modo: Por que se mantêm as exéquias e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos?

84. Do mesmo modo: Que nova piedade de Deus e do papa é essa que, por causa do dinheiro, permite ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, mas não a redime por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta por amor gratuito?

85. Do mesmo modo: Por que os cânones penitenciais – de fato e por desuso já há muito revogados e mortos – ainda assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor?

86. Do mesmo modo: Por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos ricos mais crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?

87. Do mesmo modo: O que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à plena remissão e participação?

88. Do mesmo modo: Que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações cem vezes ao dia a qualquer dos fiéis?

89. Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências, outrora já concedidas, se são igualmente eficazes?

90. Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e fazer os cristãos infelizes.

91. Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.

92. Portanto, fora com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo "Paz, paz!" sem que haja paz!

93. Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo "Cruz! Cruz!" sem que haja cruz![8]

94. Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno.

95. E que confiem entrar no céu antes passando por muitas tribulações do que por meio da confiança da paz

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Veja algumas curiosidades acerca da Reforma Protestantes. Acesse:

http://historiaesuascuriosidades.blogspot.com/2011/10/494-anos-apos-reforma-protestante-fica.html

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domingo, 2 de outubro de 2011

MANUSCRITOS DE NAPOLEÃO BONAPARTE REVELAM O MODO PELO QUAL O TIRANO ENXERGAVA DEUS E A RELIGIÃO

Napoleão Bonaparte era um leitor assíduo: gostava de escritores famosos (Tácito e Gibbon, por exemplo) e não se continha ao lê-los: dava sua opinião acerca das obras lidas por ele. Dos autores selecionados por Napoleão, um deles era, inegavelmente, o preferido: Maquiavel.

O Príncipe passou a ser o livro de cabeceira do tirano, tanto que o clássico em questão foi lido muitas vezes por Bonaparte, e o provam as centenas de comentários (precisamente 773) deixados por ele, feitos nas mais variadas fases de sua vida, que vão desde a época em que foi 1º Cônsul ao desterro na Ilha de Elba.

Tratando do poder hereditário, Maquiavel afirmou que o dirigente político deve ser inteligente, e, agindo de tal modo, sempre permanecerá no poder, a menos que uma força superior o prive de tal condição. Sobre isto, Napoleão fez o seguinte comentário:

"A plebe indolente receberá homilias de bispos e padres que eu ordenar, bem como catecismo aprovado pelo núncio apostólico e não resistirá a esssa magia. Não lhe falta coisa alguma, uma vez que o Papa ungiu minha fronte imperial. Sob este ângulo, pareço mais inamovível que qualquer dos Bourbons".

A impressão que temos, por este comentário, é que Napoleão, assim como Platão, acreditava que a religião era importante, pois tinha o poder de manipular e de desarmar, moral e ideologicamente, eventuais inssurretos. No entanto, em outro momento o tirano parece cair em contradição:

"Festas e ofícios religiosos não poderiam servir-me. Sua extinção é compensada com maior utilidade para mim pela pompa de minhas festas civis".

E mais:

"Necessito apenas dos dóceis e jesuíticos, como eu os queria. De vez em quando maltratarei os "Padres da fé".

Abaixo, farei algumas transcrições, umas de Maquiavel e outras de Bonaparte, que comenta as palavras de Maquiavel: Este afirmou:

"Não ignoro como muitos foram e são de opinião de que as coisas do mundo são governadas pelo destino e por Deus, que os homens, com sua prudência, não podem corrigi-lo, de modo que não possuem, assim, nenhum remédio".  Em resposta, diz Napoleão:

"É o método dos preguiçosos ou dos fracos".

Ou seja, para Napoleão, a história não é impulsionada nem por Deus nem pelo destino. Para ele, o homem é o único responsável por seus atos. Voltemos a Maquiavel:

"Esta opinião é a mais aceita em nossos tempos, pelas grandes modificações das coisas, que foram vistas e se veem fora de qualquer conjetura humana. Pensando nisso, algumas vezes, em certas coisas, inclinei-me à opinião deles. Não obstante, para que nosso livre- -arbítrio* não seja em vão, creio poder ser verdade que o destino seja árbitro de metade de nossas ações, mas que nos deixe governar a outra metade, ou quase".

Pelo que se depreende, havia em Maquiavel um pouco de crendices até hoje nada comprovadas: a de que Deus (ou o destino) controla parte de nossos atos, enquanto a outra parte é de livre escolha dos homens. Vejamos o que disse Napoleão acerca do que escreveu o italiano Maquiavel:

"Santo Agostinho não observou melhor o livre-arbítrio*. O meu dominou a Europa e a natureza. Minha sorte, sou eu mesmo".

Por fim, em O Príncipe, Maquiavel cita Moisés, Ciro, Rômulo e Teseu como grandes líderes, e, sobre o primeiro deles, diz que "Embora não se deva citar Moisés, pois foi mero executor daquilo que lhe era ordenado por Deus, deve, entretanto, ser admirado apenas pela graça que o tornava digno de falar com Deus".

Sobre este texto do italiano, Napoleão foi enfático: "Não aspiro a tais alturas, sem as quais, aliás, poderei passar muito bem". Em outras palavras, o general francês assegurava que ele não precisava de Deus para levar adiante seu projeto de conquistar o mundo. Caiu ante o capitalismo inglês!
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* Segundo o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e o dicionário Aurélio (última edição), há hífen em "livre-arbítrio", embora comumente seja escrito sem o mesmo. Por convenção do Acordo, na translineação de vocábulos hifenizados, adotamos um hífen no final da linha e outro no início da linha seguinte. Mais detalhes sobre tal convenção, acesse meu blog que trata sobre a língua portuguesa: Acordo Ortográfico: Translineação de palavras hifenizadas. Este blog adota o novo Acordo, daí o porquê de termos escrito "veem", sem acento circunflexo.

LEIA MAIS SOBRE O QUE PUBLICAMOS DE NAPOLEÃO:

Napoleão gostava de mulher suja.

As travessuras de Napoleão com algumas mulheres

Algumas semelhanças entre Hitler e Napoleão

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domingo, 18 de setembro de 2011

LÍNGUA PORTUGUESA: MANUEL BANDEIRA JURA QUE NUNCA ESCREVEU "MOBILADA" E RUI BARBOSA ESCAPA, PELO BOM USO GRAMATICAL, DA CASSAÇÃO DE SEUS DIREITOS POLÍTICOS

Em outras ocasiões, este blog fez menção ao jurista Rui Barbosa e ao poeta Manuel Bandeira, quando os relacionou a temas ligados à língua portuguesa. 

Agora, voltamos a associá-los mais uma vez ao nosso idioma, desta vez para destacar o modo pelo qual o advogado baiano se livrou de ter seus direitos políticos cassados, bem como o esforço do poeta pernambucano em convencer os leitores de que ele, de uma vez por toda, tinha preferência pela forma "mobiliar" e não "mobilar".

A Constituição Federal de 1891, em seu art. 72, § 29, dizia "... e os que aceitarem condecoração ou títulos nobiliárquicos estrangeiros perderão todos os direitos políticos".

Acontece que o nosso jurista, famoso por sua eloquência, por seu conhecimento jurídico, pelo domínio da língua portuguesa e por prestigiada atuação internacional, terminou por receber uma condecoração estrangeira, de modo que seus adversários políticos passaram a exigir o enquadramento de Rui Barbosa no dispositivo constitucional acima.

Vendo-se acuado pela pressão, Rui Barbosa valeu-se de seu conhecimento gramatical para demonstrar que ele não se enquadraria em tal dispositivo. 

Leiamos suas palavras:

"Em face da gramática, quando temos dois adjetivos pospostos a dois substantivos, embora separados pela disjunção 'ou', ambos os adjetivos hão de se referir aos substantivos. Ora, eu aceitei uma condecoração estrangeira, mas não nobiliárquica, porque ela não imprimiu nobreza. Portanto, não incorri na sanção constitucional, não tendo perdido os meus direitos políticos".

Conforme vemos, os substantivos a que Rui Barbosa faz menção são "condecoração" e "título", enquanto os adjetivos são "nobiliárquicos" e "estrangeiros".

A lógica do jurista foi a seguinte: "nobiliárquico" (de nobre) e "estrangeiro" se referem aos substantivos "condecoração" e "título". Assim, somente violaria a Constituição se a condecoração fosse estrangeira e nobiliárquica. Visto que Rui Barbosa recebera uma condecoração estrangeira, mas não de título de nobreza, ficava demonstrado que ele não se enquadraria no dispositivo em questão.

Rui Barbosa acabou abrindo um precedente: a partir de seu arrazoado gramatical, outros políticos se valeram das mesmas justificaticas para escaparem de punições, uma vez que recebiam condecorações estrangeiras, mas não nobiliárquicas.

Manuel Bandeira (que chegou a interceder junto ao poeta Mário de Andrade sobre o correto uso do pronome) parecia ser um brasileiro que zelava pelo bom nome que tinha, notoriamente em relação ao seu conhecimento de língua portuguesa.

Certa vez, discorrendo sobre o uso do verbo "mobiliar", chegou a acusar um revisor de ter feito um enxerto em um de seus textos (de Manuel Bandeira). Vejamos um texto extraído de uma de suas obras (o trecho entre parênteses faz parte do original; são palavras dele), quando ele retrata a voz de um personagem feminino:

"Eu vivia encantonada na sala da frente, que ia de oitão a outro, com várias sacadas para o largo, mobiliada (atenção revisor: não ponha 'mobilada', que é palavra que eu detesto) com uma cama de vento, uma cadeira e um lavatório de ferro".

Conforme se vê, Manuel Bandeira, decididamente, não admitia a forma "mobilada", que, segundo ele, é uma influência de Portugal: "Esse lusitanismo está sendo introduzido por certos revisores à revelia dos autores; já me enxertaram a antipática palavra numa tradução minha, mas eu juro que não as escrevi, nem jamais a escreverei: escreverei sempre 'mobiliada'".

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terça-feira, 26 de julho de 2011

TUDO POR MUITO DINHEIRO: OBRA CONSTRUÍDA ÀS PRESSAS FOI RESPONSÁVEL POR UMA DAS MAIORES TRAGÉDIAS DA ANTIGUIDADE

Dizem que no Brasil é comum os gestores públicos roubarem os cofres públicos, principalmente em licitações, por cujo método legal contratam uma empreiteira, a quem é paga uma fortuna (pois teoricamente a dita contratada tem que usar material de primeira qualidade; mas, na prática, o material utilizado na construção é de segunda qualidade - quando não é de terceira). Eis, enfim, um método de enriquecimento ilícito.

Poder-se-ia pensar que artimanhas do tipo são coisas da nossa geração - ou quem sabe, no máximo da geração de nossos bisavós. Estaríamos certos se desprezássemos o desejo incontido que o ser humano tem pelo dinheiro. Com muita propriedade, o consagrado escritor alemão Max Weber nos deixou um ensinamento:

"O impulso para o ganho, a persecução do lucro, do dinheiro, da maior quantidade possível de dinheiro, não tem, em si mesmo, nada que ver com o capitalismo. Tal impulso existe e sempre existiu entre garçons, médicos, cocheiros, artistas, prostitutas, funcionários desonestos, soldados, nobres, cruzados, apostadores, mendigos, etc. Pode-se dizer que tem sido comum a toda sorte de condições humanas em todos os tempos e em todos os países da Terra, sempre que se tenha apresentado a possibilidade objetiva para tanto."

Sem dúvida a frase merece uma releitura - para efeito de memorização. O pesquisador alemão, autor de A ética protestante e o espírito capitalista, não se posicionou em vão, e a história da humanidade está aí como testemunha incólume.

Embora não figure nos livros didáticos, no ano 27 d.C. foi registrada uma das maiores tragédias (senão a maior) envolvendo uma estrutura física utilizada para comportar seres humanos. A irresponsabilidade foi protagonizada pelo idealizador e pela mão de obra empregada na empreitada.

Os historiadores latinos Caio Suetônio e Cornélio Tácito não deixaram passar em branco a tragédia e, em menos de cem anos depois do ocorrido, deixaram os registros em suas famosas obras. Tácito, que foi mais detalhista, conta, em Anais, algumas particularidades do infausto acidente.

Existiu um liberto, chamado simplesmente de "Atílio", que decidiu construir, em Fidenas (que ficava a nordeste de Roma), um anfiteatro destinado a promover lutas entre gladiadores.

Segundo o mesmo autor, a construção ocorrera sobre terreno insólito, sem falar que todo o madeiramento utilizado não fora devidamente "travado" com segurança. Na opinião de Tácito, Atílio "não tinha em vista ostentar riqueza nem adquirir popularidade, mas apenas fazer um negócio lucrativo".

Uma análise preliminar da justificativa de Tácito poderia causar estranheza: quer dizer que o idealizador não ostentava riqueza nem poder, mas lucro, sim? Por acaso não são pretensões indissociáveis? Para o antigo romano, não necessariamente!

A fama (chamada por Tácito de "popularidade") era um alvo certo para muitos, e ela poderia vir com ou sem riqueza, com ou sem poder. Fama e virtude, estas sim, é que eram inseparáveis. Quanto mais famoso, mais presumível seria a virtude. A busca incansável por esta (ou seja, pela virtude), levava o romano a construir prédios públicos (e batizá-los com seu nome, assim como acontece nos prédios públicos de hoje) com o único objetivo de ser lembrado na posteridade. Atílio parecia não se importar com esta tal popularidade.

Assim, Atílio não estava interessado na fama, nem pretendia ostentar riqueza (ou seja, não queria exibir-se socialmente como um homem rico), mas pretendia a riqueza, porém de forma dissimulada (assim como hoje existem políticos que roubam e depois colocam os bens em nome dos "laranjas").

Justificada, pois, a opinião de Tácito.

Os dois historiadores nos relatam que houve mais de 20.000 mortos, e outros 30.000 feridos. O autor de Anais justifica tantas mortes: a construção teria caído parte para dentro e parte para fora, atingindo também o aglomerado que cercava o anfiteatro. O evento atraía admiradores de toda a região, e Tácito nos lembra que "afluíram de Roma os que gostavam de tais diversões", o que se presume fossem muitos.

A narrativa de Anais nos conta que para o local foram designados médicos e houve um clamor geral. A população se mobilizou a fim de salvar os sobreviventes, e o imperador se mostrou benevolente, tanto que o Senado reconheceu publicamente a atitude governamental de Tibério.

Atílio fora condenado somente ao desterro. Foi criado um senatus-consulto que proibia, a partir de então, a construção de anfiteatros "senão em terreno de provada firmeza", bem como o Senado determinou que qualquer empreendedor somente estaria autorizado a empreender obras de tamanha importância caso dispusesse no mínimo de quatrocentos mil sestércios.

Em outras palavras, o Senado entendeu que Atílio não agiu de má-fé, e sim que dispunha de pouco dinheiro para pesado investimento, tanto que fora condenado somente ao desterro. Os historiadores, no entanto, pensaram diferente.

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segunda-feira, 20 de junho de 2011

QUATRO CURIOSIDADES ACERCA DA LÍNGUA PORTUGUESA NO BRASIL

1 - É sabido que "idem" procede do latim e significa "igualmente, do mesmo modo". Quando ocorre uma repetição sequencial, usa-se "ibidem", por sinal muito usado em citações bibliográficas.

Encontrou-se, no Rio Grande do Norte, uma tabela num açougue que dizia assim: "Carne sem osso; idem, com osso; ibidem, sem idem; idem, sem ibidem". O preço ia diminuindo, de modo que o último item constava como gratuito.

2 - Capistrano de Abreu (1853 - 1927), que morreu quatro anos antes de nascer Chico Anísio - de quem era conterrâneo -, foi um dos primeiros grandes historiadores brasileiros. Considerado um pesquisador dado à rigorosa investigação de fontes, o cearense era também muito familiar à língua portuguesa. Prendia-se, costumeiramente, à etimologia da palavra.

Certa vez, tratando acerca da expressão "ter vergonha na cara", afirmou: "Eu proporia que se substituíssem todos os capítulos da Constituição por: Artigo Único - Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara".

3 - Segundo Deonísio da Silva, renomado escritor brasileiro e autor do clássico "De onde vêm as palavras", o vocábulo "fama" procede do latim e significa "o que se fala de alguém e que resulta em perfil da pessoa cujos atos e falas são comentados, dando-lhes contornos que escapam à verdadeira essência de sua personalidade, com o triunfo das versões".

Somente no século 13 o referido vocábulo entrou para o português, e, na época, santos e bandidos poderiam igualmente ser considerados famosos. Dois séculos depois, o verbo "difamar" entra para a língua portuguesa, designando "ações que têm o fim de contrapor as versões sobre a vida de algum personagem conhecido", afirma o mesmo autor.

Hoje o referido vocábulo está presente no Código Penal brasileiro, mas não é endereçado somente a pessoas conhecidas e famosas. Qualquer cidadão pode ser difamado, independentemente de ser famoso ou não.

4 - O baiano Rui Barbosa (1849 - 1923) e o cearense Clóvis Beviláqua (1859 - 1944) são dois grandes nomes brasileiros na área do Direito e também da língua portuguesa. Como já vimos em outra ocasião, o primeiro chegou a questionar em plenário - quando era deputado federal -, os aspectos gramaticais de alguns dipositivos do projeto do primeiro Código Civil brasileiro, uma obra de Clóvis Beviláqua.

Não obstante os desentendimentos gramaticais entre os dois, Rui assim se expressou em outra ocasião: "Meu papel, subalterno e pouco menos anônimo, limitado a corrigir, suprimir e aditar em obra alheia, não seria susceptível de comparação nenhuma com o do professor". Ele falava de Clóvis, e não abordava, necessariamente, as dissidências acerca da língua portuguesa.

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quinta-feira, 16 de junho de 2011

EM RELATÓRIO HISTÓRICO, GONÇALVES DIAS MOSTRA AS PRECÁRIAS CONDIÇÕES DAS BIBLIOTECAS NA REGIÃO NORTE DO PAÍS EM MEADOS DO SÉCULO 19

Em meados do século 19, Gonçalves Dias (1823 - 1864), que há poucos anos havia sido nomeado professor de latim e história no Colégio D. Pedro II, no Rio de Janeiro, fez uma inspeção nas bibliotecas públicas e religiosas no Norte do país, em busca de documentos históricos.

Vale lembrar que depois da criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1838, acentuou-se consideravelmente o interesse em preservar documentos históricos que pudessem contribuir com a "construção" da história do Brasil. Segundo o relatório, era o Maranhão quem concentrava a melhor das bibliotecas pesquisadas, embora não seja nada animador o que nos relatou o poeta e professor:

"Quanto à parte literária, é o Convento de Santo Antônio, o que mais avulta, contendo uma biblioteca de quase 2.000 volumes; mas por negligência, acham-se muitos, quase todos, danificados a ponto de não poderem servir.

Não havendo um catálago na biblioteca, tive de percorrer os volumes um por um, para que ao menos soubesse o que eles continham, e na esperança de encontrar entre eles livros dos que faltam nas nossas principais bibliotecas, ou algum manuscrito esquecido. Nada disso: são volumes de teologia casuística, de filosofia rançosa, que ao abrir-se pareciam estranhar e queixar-se da mão, que os importunava no descanso morto em que jaziam."

Dando prosseguimento ao relatório, Gonçalves Dias também comenta sua impressão acerca das bibliotecas públicas:

"Igualmente infrutíferas foram as minhas visitas à biblioteca pública, cuja história é a seguinte (...) Muitos dos particulares concorreram com obras de valor e somas de dinheiro, enquanto outros, disfarçando a sua má vontade, remeteram volumes traçados e estragados a ponto de que, para não danificar os outros, um dos últimos presidentes ordenou que fossem lançados à praia".

O consagrado escritor brasileiro, Wilson Martins, autor da também consagrada obra de 12 volumes, A história da inteligência brasileira, comentando o relatório em questão, assinala:

"Se a situação era essa em 1851, um quarto de século depois de criados os cursos jurídicos, isto é, quando já se havia tido tempo de remediar, pelo menos, as deficiências mais clamorosas (sem que, de toda evidência, nada fosse feito), pode-se imaginar o que seria no início desse período".

Com a lucidez que lhe era peculiar, conclui Wilson Martins:

"Fica demonstrado, igualmente, que a ideia toda fantasiosa dos conventos como focos ativos de cultura e amor aos livros não passa de uma construção do espírito, o que em nada concorria para amenizar, antes instigava, a atitude anticlerical das classes dirigentes".

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segunda-feira, 13 de junho de 2011

(1) OS BASTIDORES DO GRANDE INCÊNDIO DE ROMA. (2) AFINAL, NERO TERIA SIDO O MANDANTE DE TAL CRIME?

No ano 64 d.C., no governo do imperador Nero, ocorreu um dos incêndios mais marcantes da história da Antiguidade. Dos 14 bairros de Roma, somente 4 ficaram intactos, 3 foram completamente destruídos, ao passo que os 7 restantes foram parcialmente queimados.

Os historiadores Suetônio e Cornélio Tácito, ambos nascidos ainda no primeiro século, narram, respectivamente, em seus livros A Vida dos Doze Césares e Anais, detalhes de como se processou o incêndio que, na versão de Tácito, faria dos cristãos os responsáveis por tamanha tragédia.

Outra versão, estranha aos historiadores acima mencionados, dá conta de que o fogo teria surgido acidentalmente pelos próprios moradores. No dizer de Tácito e Suetônio, Nero foi acusado de, propositadamente, ter ateado fogo na velha Roma.

O segundo deles (Suetônio), por sinal, é categórigo: "Simulando descontentamento com a feiura* dos antigos edifícios, com a estreiteza e a tortuosidade das ruas, incendiou a cidade de forma tão acintosa que...", ao passo que Tácito afirma que a calamidade fora "atribuída por uns a Nero, por outros ao acaso", bem como que "Pareceu que Nero procurava a glória de construir uma nova cidade e dar-lhe o seu nome".

Pelas duas versões, Nero pretendia reconstruir a cidade - sem falar que desejava rebatizá-la emprestando-lhe seu nome. É merecido lembrar que o referido imperador já pretendera rebatizar um dos meses do ano, que passaria a ter seu nome. Certamente invejava Júlio César e Otávio Augusto, homenageados com a nominação dos meses de julho e agosto.

Outro fator que pesa contra Nero diz respeito a outros registros dando conta de que ele de fato tinha claras pretensões arquitetônicas para as cidades, não somente para Roma, cujos edifícios deveriam ter galerias na frente, para que, do alto do terraço se pudesse combater os incêndios. E por falar em incêndios, afora a acusação sobre Roma, Nero também pretendeu incendiar a Gália, sem falar que planejou soltar feras para dizimar seus moradores.

Acusado de ser o mandante, Nero não se achava presente em Roma quando o incêndio teve início. Ele estava em Âncio, que ficava na região do Lácio (Itália). Antes do fim da calamidade - que teria durado seis ou sete dias -, Nero voltaria a Roma a fim de tomar algumas medidas governamentais.

Antes de fazê-lo, porém, foi acusado de contemplar o incêndio do alto de uma torre (Tácito afirma que ele estava em seu palácio - provalmente na torre do próprio palácio), em cujo momento teria se alegrado e cantado em honra ao feito alcançado. Quando o fogo se aproximava de seu lar, resolveu agir.

As medidas governamentais para amenizar o sofrimento dos moradores se limitaram a baixar o preço de alguns alimentos e a reconstruir as casas, desta feita nos moldes arquitetônicos pretendidos. Suetônio afirma que o imperador se aproveitou da situação para roubar os pertences dos moradores que não foram dizimados pelas chamas. Para tanto, teria ordenado que o recolhimento dos cadáveres dar-se-ia pelo Estado (a oportunidade, enfim, para entrar nos lares e saquear o que lhe convinha).

Vários templos foram destruídos, inclusive incontáveis obras de arte grega. Registraram-se suicídios e falência de alguns moradores. O povo, temeroso de que houvesse novos incêndios e tentando acalmar a fúria dos deuses, fizeram inúmeras honras religiosas.

Os préstimos de Nero no intuito de amenizar o sofrimento da população não surtiram efeito. Acusado pelo povo e vendo que os boatos não cessavam, Tácito afirma que o imperador teria posto a culpa nos cristãos, que passaram a ser vítimas de várias crueldades, uma das quais serem amarrados a postes e incendiados nos jardins do palácio de Nero durante o período noturno, promovendo, assim, o que se chamou de "espetáculos". Outra perversidade: os cristãos eram amarrados com peles de animais e em seguida eram entregues (ainda vivos) para serem dilacerados por feras.
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* O blog adota as novas regras gramaticais, daí o porquê de se escrever feiura (sem acento) e não mais feiúra.

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sexta-feira, 13 de maio de 2011

RUI BARBOSA E SUA LUTA PELA IMPLANTAÇÃO DA DISCIPLINA DESENHO NA EDUCAÇÃO DO BRASIL

Rui Barbosa (1849 - 1923), conhecido jurista brasileiro com respeitada atuação nacional e internacional - e profundo estudioso da língua portuguesa -, não era um homem somente do Direito e do Português. Seu conhecimento era amplo e abordava outras disciplinas - bem no estilo de vários renascentista -, de sorte que ele, Rui Barbosa, se tornou um homem admirado, inclusive, por seus discursos e por suas ideias sobre a educação do país.

Ele estava convencido de que a educação era algo imprescindível para o país, cujo mérito por excelência dizia respeito à capacitação do indivíduo para servir à sociedade de modo proveitoso. Ele não poupou críticas acerca da qualidade do ensino reservado aos pobres, pois, segundo Rui, somente uma elite dispunha de um nível melhor (como se vê, a crítica é antiga e remonta às origens da implantação do ensino oficial pelo Estado brasileiro).

Para Rui Barbosa, o país deveria acrescentar a disciplina Desenho no rol daquelas adotadas oficialmente, visto que, de acordo com o jurista, a nova disciplina ajudaria o aluno a desenvolver outras habilidades.

Em 1879, criticou a reforma do ensino feita no país por D. Pedro II (embora pela primeira vez ela tenha permitido que escravos pudessem frequentar as salas de aula - algo que na prática não aconteceu), pois, no entendimento de Rui Barbosa, ela não ampliou satisfatoriamente o número de disciplinas do ensino primário e secundário (este último criado em meados do mesmo século).

Na prática, as poucas escolas continuavam ensinando o aluno a ler, a escrever e a fazer as quatro operações matemáticas, contrariando as determinações de uma lei de 1827 (então em vigor), que previa, também, o ensino de proporção e geometria na disciplina de matemática.

Segundo Rui Barbosa, a prática do desenho é anterior à escrita. Aquela levou a esta, um retrato do processo evolutivo da própria humanidade. O desenho demonstra a espontaneidade, o instinto intuitivo, enfim, a liberdade de expressão do ser humano, entendia o jurista, tanto que planejou a construção da Escola Normal Nacional de Arte Aplicada, no Rio de Janeiro, cujo objetivo principal seria formar professores para o ensino da nova disciplina.

Em 1882, numa conferência realizada no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, ele proferiu o seguinte discurso:

"Que agente é esse, capaz de operar no mundo, sem a perda de uma gota de sangue, essas transformações incalculáveis, prosperar ou empobrecer Estados, vestir ou despir aos povos o manto da opulência comercial? O Desenho, senhores, unicamente, essa modesta e amável disciplina, pacificadora, comunicativa afetuosa entre todas: o desenho professado às crianças e aos adultos, desde jardim de infância até a universidade, como base obrigatória na educação de todas as camadas sociais."

Rui Barbosa escreveu vários artigos sobre o tema, muitos lidos inclusive pelo próprio D. Pedro II, que, efetivamente, optou por menosprezar as ideias do jurista brasileiro.

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terça-feira, 26 de abril de 2011

O USO DE TEMPLOS PAGÃOS POR CRISTÃOS: CORRESPONDÊNCIA PRIVADA REVELA AS INTENÇÕES DA IGREJA HÁ MAIS DE 1.400 ANOS

Carta escrita no ano 601 d.C., pelo Papa Gregório I, e endereçada a um abade, revela a intenção da Igreja em utilizar os templos pagãos para a atividade litúrgica cristã. Até o final desta postagem será divulgado trecho histórico da referida carta.

Ainda antes da Igreja cristã ter sido institucionalizada (século 4), ela teve que lidar com vestígios pagãos, como duendes, gnomos, fadas e deuses de chifres. As crenças cristãs e pagãs foram mescladas, de modo que várias correntes surgiram dentro da própria Igreja.

Não faltaram queixas, ainda nos primeiros séculos, dando conta de que o cristianismo já não era mais o mesmo daquele constatado nas primeiras décadas de seu nascimento.

A Igreja não hesitou e fez de tudo para enterrar de vez qualquer resíduo pagão: tornou-se noiva do Estado e perseguiu, a ferro e sangue, os relutantes. Vejamos, agora, as palavras do Papa Gregório (em 601) sobre a reutilização dos templos pagãos:

"Chegado à conclusão de que os templos dos ídolos entre esse povo não devem em hipótese alguma ser destruídos. Os ídolos devem ser destruídos, mas os próprios templos devem ser aspergidos com água-benta*, e neles instalados altares e depositadas relíquias."

Prossegue o papa:

"Pois se esses templos são bem construídos, devem ser purificados do culto aos demônios e dedicados ao serviço do verdadeiro Deus. Dessa maneira, esperamos que o povo, vendo que seus templos não são destruídos, abandone seu erro e, acorrendo mais rapidamente a seus locais de costume, venha a conhecer e adorar o verdadeiro Deus."

Conclui o Pontífice:

"E como têm o costume de sacrificar muitos bois ao demônio, que alguma outra solenidade substitua essa, como um dia de Dedicação ou a Festa dos Santos Mártires cujas relíquias estejam ali guardadas."

O texto, de grande valor histórico, mostra a astúcia do então papa, que, além de se utilizar dos templos pagãos - sem falar que pretendia destruir as estátuas -, ainda sugeriu que a festa dos antigos romanos fossem substituídas por outra solenidade, no caso uma festa ligada aos mártires, vistos como santos, inclusive nos dias atuais.

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* O blog adota o novo Acordo Ortográfico e se esforça por adotar os vocábulos oficializados pelo VOLP, da Academia Brasileira de Letras.

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quarta-feira, 13 de abril de 2011

TEXTOS HISTÓRICOS QUE COMPROVARIAM A HISTORICIDADE DE JESUS CRISTO

O blog exporá, abaixo, os principais textos (eles não fazem parte da Bíblia nem dos livros apócrifos) que favorecem a tese de que Jesus Cristo é um personagem histórico. Diversos apologistas cristãos - incluindo historiadores e pesquisadores - adotam os referidos textos para defenderem que Jesus de fato existiu. Eles foram escritos nos três primeiros séculos e são da lavra de personagens cristãos e não cristãos. Atentar para os parênteses, que indicam a provável data em que foram escritos ou publicados inicialmente.
  • Sanhedrim 43a - Tamulde da Babilônia

“Na véspera da Páscoa suspenderam a uma haste Jesus de Nazaré. Durante quarenta dias um arauto, à frente dele, clamava: 'Merece ser lapidado, porque exerceu a magia, seduziu Israel e o levou à rebelião. Quem tiver algo para o justificar venha proferí-lo! Nada, porém se encontrou que o justificasse; então suspenderam-no à haste na véspera da Páscoa.”

Comentários da Enciclopédia Britânica a respeito do texto acima:

"A tradição judaica recolhe também notícias acerca de Jesus. Assim, no Talmude de Jerusalém e no da Babilônia incluem-se dados que, evidentemente, contradizem a visão cristã, mas que confirmam a existência histórica de Jesus de Nazaré."

  • Texto de Tallus (52 d.C.) compilado por Júlio Africano em 220 d.C.

“Esse evento seguiu-se a cada um de seus atos, e curas do corpo e da alma, e conhecimento das coisas ocultas, e sua ressurreição da morte, tudo isso suficientemente provado aos discípulos antes de nós e aos seus apóstolos: após a mais terrível treva ter caído sobre todo o mundo, as rochas partiram-se ao meio por um terremoto e muitos da Judéia e do resto da nação foram tragados. Talus aludiu essas trevas a um eclipse do sol no terceiro livro das suas Histórias, sem justificativa, ao que me parece... Pois... como poderíamos crer que um eclipse tomou lugar quando a lua estava diametralmente oposta ao sol? De fato, deixe-se estar. Deixemos a idéia de que isso aconteceu apanhar e afastar as multidões, e deixemos o prodígio cósmico ser admitido como um eclipse do sol, segundo sua aparência.' Flegon' reporta que nos tempos de Tibério César, durante a lua cheia um eclipse total do sol aconteceu da sexta até a nona hora. Claramente se trata do nosso eclipse! O que é comum a um terremoto, eclipse, rochas partindo, um subir dos mortos, e uma ação cósmica de tais proporções? No mínimo, sobre um longo período de tempo, nenhuma conjunção dessa magnitude é lembrada. Mas se tratava de uma escuridão de autoria divina, pois o Senhor apareceu para sofrer, e a Bíblia, em Daniel, dá suporte ao fato que setenta palmos de sete anos seriam consumados até essa ocasião.”

  • Texto(s) de Flávio Josefo - Escrito em 93 d.C.

"Mas este Ananus mais jovem, que, como já dissemos, assumiu o sumo sacerdócio, era um homem temperamental e muito insolente; ele era também da seita dos Saduceus, que são muito rígidos ao julgar ofensores, mais do que todos os outros judeus, como já tinhamos dito anteriormente; quando, portanto, Ananus supôs que tinha agora uma boa oportunidade: Festus estava morto, e Albinus estava viajando; assim ele reuniu o sinédrio dos juízes, e trouxe diante dele o irmão de Jesus, o que era chamado Cristo, cujo nome era Tiago e alguns outros; e quando ele formalizou uma acusação contra eles como infratores da lei; ele os entregou para serem apedrejados (...) Albinus concordou com eles e escreveu iradamente a Ananus, e o ameaçou dizendo que ele seria punido pelo que havia feito; por causa disso, o rei Agripa tirou o sumo sacerdócio dele (de Albanus), quando ele o tinha exercido por apenas três meses, e fez Jesus, filho de Damneus, sumo sacerdote."

O segundo Jesus não se confunde com o primeiro. São pessoas distintas. Fato pacificamente aceito na historiografia.

O texto a seguir, também do historiador Flávio Josefo (escrito em 93 d.C.), é aceito como adulterado (na parte em que se refere à divindade de Jesus), mas não se sabe ao certo com relação ao restante do texto:

"Havia neste tempo Jesus, um homem sábio, se é lícito chama-lo de homem, porque ele foi o autor de coisas admiráveis, um professor tal que fazia os homens receberem a verdade com prazer. Ele fez seguidores tanto entre os judeus como entre os gentios. Ele era o Cristo. E quando Pilatos, seguindo a sugestão dos principais entre nós, condeno-o à cruz, os que o amaram no princípio não o esqueceram; porque ele apareceu a eles vivo novamente no terceiro dia; como os divinos profetas tinham previsto estas e milhares de outras coisas maravilhosas a respeito dele. E a tribo dos cristãos, assim chamados por causa dele, não está extinta até hoje."

  • Textos de Justino Mártir - Escritos em 150 d.C.

“Mas estas palavras: ‘Transpassaram-me as mãos e os pés’ são uma descrição dos pregos com que lhe cravaram as mãos e os pés na cruz; e, após crucificado, os que o pregaram na cruz lançaram sorte para determinar quem lhe ficaria com as vestes, e as dividiram entre si; e que estas coisas foram assim, podeis vós verificar do que se contém nos ‘Atos’ que foram compilados sob Pôncio Pilatos.”

O segundo texto de Justino, diz:

“Que ele realizou estes milagres é coisa que podeis facilmente concluir dos ‘Atos’ de Pôncio Pilatos.”

  • Texto de Plínio, o jovem - Escrito em 112 d.C.

" . . . tinham (os cristãos) o hábito de reunir-se em um dia fixo antes de sair o sol, quando entoavam um cântico a Cristo como Deus e se comprometiam, mercê de solene juramento, a não praticar nenhum ato mau, a abster-se de toda fraudulência, furto e adultério, a jamais quebrar a palavra empenhada ou deixar de saldar um compromisso em chegando a data do vencimento, após o que era costume separarem-se e reunir-se novamente para participar do banquete comum, servindo-se de alimento de natureza ordinária e inocente."

  • Carta de Mara Bar-Serápion (entre 73 e 180 d.C.)

"Para que benefícios obtiveram os atenienses pondo Sócrates à morte, enquanto vendo que eles receberam como retribuição para isto escassez e pestilência? Ou as pessoas de Samos, queimando Pitágoras, vendo isso em uma hora em que todo o país deles estava coberto com areia? Ou os judeus pelo assassinato do Sábio Rei deles, vendo isso daquele mesmo tempo que o reino deles foi dirigido longe deles? Para com justiça Deus fez concessão uma recompensa para a sabedoria de todos os três. Para os atenienses morreu através de escassez; e as pessoas de Samos estavam cobertas pelo mar sem remédio; e aos judeus, trouxe a desolação e expeliu do reino deles, é afugentado em toda terra. Não, Sócrates não morreu, por causa de Platão; nem ainda Pitágoras, por causa da estátua de Hera; nem ainda o Sábio Rei, por causa das leis novas que ele ordenou."


A carta acima mencionada se encontra no Museu Britânico, em forma de manuscrito, escrito - muito provavelmente - entre os anos 73 d.C e 180 d.C. e enviada por um cidadão Sírio, chamado Mara Bar-Serápion, ao seu filho de nome Serápion.


  • Textos de Papias - Coligidos por Eusébio

Os textos a seguir estão coligidos na obra de Eusébio de Cesaréia, chamada
História Eclesiástica, escrita no ano 315 d.C.

  • Palavras de Papias (70 d.C. - 140 d.C.):


"Não vacilarei em apresentar-te ordenadamente com interpretações tudo o que um dia aprendi muito bem dos presbíteros e que recordo bem, seguro que estou de sua verdade."(...) E se por acaso chegava alguém que também havia seguido os presbíteros eu procurava discernir as palavras dos presbíteros: o que disse André, ou Pedro, ou Felipe ou Tomás, ou Tiago, ou João, ou Mateus ou qualquer outro discípulo do Senhor, porque eu pensava que não aproveitaria tanto o que tirasse dos livros como o que provêm de uma voz viva e durável."

"E o presbítero diz isto: Marcos, que foi intérprete de Pedro, pôs por escrito, ainda que não em ordem, o quanto recordava do que o Senhor o havia dito e feito."

  • Palavras de Eusébio:

"O próprio Papias no entanto, segundo o prólogo de seus tratados, não se apresenta de modo algum como ouvinte e testemunha ocular dos sagrados apóstolos, mas ensina-nos que recebeu o referente à fé da boca de outros que os conheceram(...)"

"Agora bem, Papias, de quem estamos falando, confessa que recebeu as palavras dos Apóstolos [por meio] de [dos] discípulos destes [apóstolos], enquanto que de Aristion e de João, o Presbítero, ele diz ter sido ouvinte direto. Efetivamente menciona-os pelo nome várias vezes em seus escritos e compila suas tradições."

"Pois bem, já foi explicado mais acima que o apóstolo Felipe morou em Hierápolis com suas filhas, mas agora há que se assinalar como Papias, que viveu nesse tempo, faz menção de haver recebido um relato maravilhoso da boca das filhas de Felipe."

  • Textos de Irineu (130 a 202 d.C.) - Coligidos por Eusébio. Consta também testemunho de Policarpo (70 a 157 d.C.)

  • Palavras de Irineu:

"E também Policarpo, não somente foi instruído pelos apóstolos e conviveu com muitos que haviam visto o Senhor, mas também foi instruído bispo da Ásia pelos apóstolos, na Igreja de Esmirna. Nós inclusive o vimos em nossa juventude."

"E há quem o tenham ouvido dizer que João, o discípulo do Senhor, indo banhar-se em Éfeso (...)"

"(...)Estas opiniões (de Floriono) não te foram transmitidas pelos presbíteros que nos precederam, os que juntos frequentaram a companhia dos apóstolos, porque sendo eu ainda criança, te vi (Floriono) na casa de Policarpo na Ásia Inferior, quando tinhas uma brilhante atuação no Palácio Imperial e te esforçavas para ter crédito perante ele (Policarpo). E recordo-me mais dos fatos de então do que dos recentes (...) tanto que posso inclusive dizer o local em que o bem-aventurado Policarpo dialogava sentado, assim como suas saídas e e entradas, seu modo de vida e o aspecto de seu corpo, os discursos que fazia ao povo, como descrevia suas relações com João e com os demais que haviam visto o Senhor e como recordava as palavras de uns e de outros; e os que tinha ouvido deles sobre o Senhor, seus milagres e seu ensinamento; e copo Policarpo, depois de tê-lo recebido destas testemunhas oculares da vida do Verbo (Jesus), relata tudo em consonância com as Escrituras. E estas coisas, pela misericórdia que Deus teve para comigo, também eu escutava então diligentemente e as anotava, mas não em papel, mas em meu coração (...). Isto pode-se também comprovar claramente pelas cartas que escreveu (Policarpo), seja às Igrejas vizinhas, confortando-as, seja a alguns irmãos admoestando-os e exortando-os."

  • Texto de Cornélio Tácito - Escrito em 115 d.C.

"Mas nem por meios humanos; nem pelas liberalidades do Imperador nem pelas expiações religiosas se apagava o rumor infamante que atribuía o incêndio às ordens de Nero. Para destruir tais murmúrios, ele procurou pretensos culpados e fê-los sofrer as mais cruéis torturas, pobres indivíduos odiados pelas suas torpezas e vulgarmente chamados cristãos. Quem lhes dava este nome, Cristo, no tempo de Tibério, foi condenado ao suplício pelo Procurador Pôncio Pilatos. Embora reprimida no momento, esta perigosa superstição irrompia de novo, não só na Judéia, berço desse flagelo, mas até mesmo na própria Roma, para onde afluem do mundo inteiro e conquistam voga todas as coisas horríveis e vergonhosas. Logo a princípio foram presos os que se confessavam cristãos, depois pelas revelações destes, grande multidão foi convencida não do crime do incêncdio, mas de odiar o gênero humano. Ao suplício dos que morriam juntava-se o escárnio, pois envolviam as vítimas com peles de feras, e as expunham às lacerações dos cães, ou eram amarradas em cruzes ou destinadas a serem queimadas e, desde que acabava o dia, eram destruídas pelo fogo à guisa de tochas noturnas. Nero tinha cedido seus jardins para esses espetáculos e ao mesmo tempo celebrava jogos no circo, confundindo-se com a plebe, em hábitos de auriga, conduzindo carros. Então, posto que os castigos se dirigissem aos cristãos culpados e merecedores dos maiores suplícios, levantava-se por eles comovida compaixão, porque eram imolados menos por um motivo público, que pela crueldade de um só homem."

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sábado, 26 de março de 2011

INFALIBILIDADE PAPAL: OS BASTIDORES DE UMA HERESIA

Imagem da internet


Foi somente por meio de um papa que a Igreja teve que aceitar esse dogma, que, por sinal, trouxe indignação dentro da própria Igreja.
 
O Papa se chamava Pio IX, que liderou o Concílio Vaticano I, nos anos 1869 e 1870. Ele queria, a todo custo, se tornar oficialmente infalível, bem como resolver uma pendência que durava havia séculos: a disputa entre o Papado e o Concílio, uma vez que os bispos buscavam uma Igreja cada vez mais descentralizada, o oposto das intenções de Pio IX.

Estranhamente, o Papa não divulgou o verdadeiro propósito do Concílio. Inicialmente tratou de abordar o ateísmo, que passou a ser duramente condenado, assim como o materialismo e o panteísmo (junto com este o deísmo e o agnosticismo). Somente aos poucos é que os temas importantes para o Papa foram trazidos à discussão.

O Vaticano I não foi um Concílio livre. Longe disso! O Papa impôs, gerou temores, ameaçou, demitiu, gritou! Aqueles que se opuseram aos seus desejos foram perseguidos, ainda mesmo durante o Concílio.

Um bispo croata, que teve a ousadia de afirmar que até os protestantes eram capazes de amar Jesus, foi silenciado aos berros pelo Papa. Naquele momento o Papa já mantinha a maioria dos presentes, que, por adulação ou por temor, se mostravam favoráveis a ele. O bispo croata fora chamado de Lúcifer, anátema, um segundo Lutero. Ordenaram que ele fosse jogado fora.

Um bispo caldeu, que publicamente se opôs às pretensões absolutistas do Papa, fora convocado às pressas pelo Papa a uma reunião a portas fechadas. Tremendo de raiva, Pio IX deu duas alternativas para o bispo: ou aceitaria formalmente as propostas dele ou deveria renunciar. Daí para frente ficou difícil se opor ao papa tirano.

Quando a infalibilidade papal passou a ser tema de discussão, muitos bispos ficaram chocados, pois o assunto, além de não ter sido cotado como tema do Concílio, este já havia decorrido alguns meses sem que se desse a ideia de que seria levado à discussão, uma vez que o próprio Papa era sabedor de que os bispos não queriam a centralização do poder. Em vão! A infalibidade do Papa foi posta goela abaixo.

Um bispo armênio contestou ferozmente tal dogma. Na mesma hora Pio IX o condenou a um regime de exercícios espirituais obrigatórios num mosteiro local - uma espécie de prisão domiciliar.

Dos bispos aptos a votar, calcula-se que menos de 50% foram favoráveis à infalibilidade papal, mas ainda assim ela foi imposta. Dá para acreditar?

Após o Concílio, e uma vez divulgado o resultado, muitas igrejas subordinadas de diversos países se revoltaram contra tal dogma, o que deixou o Papa furioso. Todos os bispos tiveram que assinar um documento, no qual afirmavam a aceitação do novo dogma. Muitos saíram da Igreja; outros, por medo e por conveniência, acataram a decisão papal.

Pio IX morreu em 1878, e, quando seu corpo percorria o último trajeto, a população gritava: "Morre o Papa", "Joguem o porco no rio". Alguns dos presentes ousaram roubar seu corpo (queriam jogá-lo no Tibre) e foram presos.

Finalmente, cabe indagar: a infalibilidade papal se deu a partir de sua aceitação por meio do Concílio ou a decisão teve um efeito retroativo? Se retroativo, como explicar o fato dessa decisão precisar ser ratificada por um concílio? Se não tem efeito retroativo, com base em que os argumentos usados não são atemporais, mas válido a partir de um marco cronológico?
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segunda-feira, 21 de março de 2011

TEXTO DO HUMANISTA ERASMO DE ROTTERDAN REVELA A FORMA COMO ERAM TRATADAS ALGUMAS CRIANÇAS NA ANTIGUIDADE E INÍCIO DA IDADE MODERNA

O texto abaixo transcrito foi extraído do livro "Dos Meninos", de Erasmo de Rotterdan (1466 - 1536), humanista e autor da conhecida obra, O elogio da loucura. Em outro momento postamos alguns exemplos trazidos pelo mesmo escritor, um dos quais aborda o caso em que um professor ordenou que seu aluno fosse obrigado a comer "cocô" de ser humano. Vamos ao texto:

"As leis humanas restringem o poder senhoril e permitem aos servos moverem ações de maus-tratos contra os patrões. De onde procede tal desumanidade entre cristãos? No passado, Auxo, certo cavaleiro romano, corrigiu o filho à vara e com tamanho rigor que este veio a falecer.

Aquela barbaridade comoveu o povo a ponto de pais arrastarem o algoz até o Fórum e, ali, crivaram-no de estiletes, sem a mínima consideração pelo seu prestígio de cavaleiro. Foi com muito esforço que Otávio Augusto [imperador] conseguiu libertá-lo daquele aflitivo tormento."

Erasmo prossegue:

"Quantos Auxos não estamos a ver hoje [no início da Idade Moderna, que coincide com o período do Renascimento] ! Indivíduos que lesam a saúde das crianças com a sevícia da chibata, debilitando-as e até matando! Para seviciar, só as correias já não bastam mais. Batem com o cabo e desferem bofetadas e socos contra os pequenos. Agarram, mesmo qualquer objeto ao alcance das mãos e arremetem-no contra eles.

Narram os livros judiciais que certo indivíduo deixou no occipício [parte superior da cabeça] do aprendiz o desenho do formato do tamanco de madeira, fazendo saltar para fora um dos olhos. Ainda bem que a lei puniu-o por tamanha atrocidade."

Erasmo prossegue, mais adiante, com novos relatos. Desta vez aborda a situação dos alunos. Diz ele:

"Os iniciantes, ao ingressarem em escolas públicas, são coagidos a despirem-se da 'beca', termo bárbaro para um costume não menos rebarbativo. O jovem inexperiente é mandado para o estudo das artes liberais, mas, ao invés, a quantos ultrajes deprimentes para a sua dignidade de ente livre vai ser submetido!

Primeiro, empastam-lhe o rosto como para barbear. Para isso usam a urina ou outra loção mais fétida ainda [cocô humano]. O mesmo tipo de líquido é embutido pela boca adentro com a proibição de expelir. Com socos violentos quebram-lhe o brio de adolescente. Depois, fazem-no engolir farta dose de vinagre, de sal ou de qualquer outra substância que lhes der na veneta desvairada.

Por último, os promotores da brincadeira exigem juramento de obediência a todos os seus caprichos. Por fim, levantam-no pelo ar, em posição dorsal e atiram-no qual aríete contra um poste. A brutalidades tão vis, sobrevêm, frequentemente, febres e dores imedicáveis que afetam a espinha. Por último, aquelas brincadeiras descabidas findam em bacanais."

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segunda-feira, 7 de março de 2011

A PRÁTICA DE SE ABANDONAR CRIANÇAS NO VELHO MUNDO E SUA RELAÇÃO COM A MATANÇA DE CRIANÇAS DESCRITA NA BÍBLIA

No antigo Império Romano, era comum a prática de se abandonar crianças recém-nascidas. Dos motivos que justificavam tal prática, alguns estavam associados ao adultério e a manifestações político-religiosas.

Assim, se o pai suspeitasse que o filho não era seu, poderia abandonar a criança em um espaço público. Foi o que aconteceu com uma filha de uma princesa, deixada na porta de um palácio imperial, totalmente nua.

Com relação às manifestações político-religiosas, alguns casos curiosos de abandono de crianças ocorreram durante o Império Romano, no ano 19 d.C. No citado ano faleceu Germânico, pai de Calígula e avô de Nero. Como era um homem reconhecidamente amado pelos romanos, logo que se espalhou a notícia de sua morte, alguns pais deliberadamente rejeitaram suas crianças e as abandonaram em sinal de protesto.

Do mesmo modo, quando Nero assassinou Agripina, sua mãe, um desconhecido abandonou seu filho recém-nascido no Fórum da cidade, juntamente com um cartaz que dizia: "Não te crio com medo de que mates tua mãe".

Outro dado interessante pode ter relação com a matança de crianças descrita na Bíblia, cuja informação pode ser autêntica e não mera lenda. Há informações de que correram boatos na plebe romana dando conta de que nasceria um rei, e, alertado por adivinhos, o Senado havia ordenado que o povo abandonasse todos os filhos nascidos naquele mesmo ano.

Havia casos em que a esposa conseguia dissimular o abandono do filho. Às escondidas do marido, ela confiava o filho a vizinhos ou subordinados, que o criava, muitas vezes com a ajuda financeira da própria mãe e, uma vez adulto, o filho se tornava escravo e em seguida liberto, de modo que se garantia a proximidade e o vínculo maternal.

Há casos, ainda, de pais que abandonavam seus filhos porque simplesmente alegavam não ter condições financeiras de mantê-los, assim como ocorre nos dias atuais.

O destino dos filhos abandonados não lhes reservava grandes sortes, não! Eram praticamente excluídos da sociedade, a menos que uma família tradicional fizesse a adoção, em cuja oportunidade a criança receberia o sobrenome do pai, e passava a desfrutar de muitos privilégios em decorrência da referida adoção.

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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

VOLTAIRE: ATEU, TEÍSTA, AGNÓSTICO, DEÍSTA OU PANTEÍSTA?



Voltaire (1694 - 1778) é considerado um dos maiores defensores da liberdade civil e religiosa de todos os tempos. Iluminista consagrado, foi referencial para grandes nomes que se envolveram com a Revolução Francesa e a independência dos Estados Unidos.

Em matéria de religião, o filósofo não deixou de revelar seu ponto de vista e, embora não tendo sido ateu, nem católico, pediu que lhe fosse dada a extrema unção. Pedido não aceito, acabou assinando uma última declaração, que será publicada no fim desta postagem. Em carta a Diderot, escreveu:

"Confesso que não sou, em absoluto, da mesma opinião que Saunderson, que nega um Deus porque nasceu cego. Talvez eu esteja errado, mas no lugar dele eu reconheceria uma grande Inteligência que me deu tantos substitutos da visão; e percebendo, ao meditar, as maravilhosas relações entre todas as coisas, eu deveria ter desconfiado que existe um artífice infinitamente capaz. Se é muito presunçoso adivinhar o que Ele é e por que Ele fez tudo o que existe, parece-me também muito presunçoso negar que Ele existe."

Voltaire não acreditva em milagres. Falando sobre um caso em que uma dona de um pardal havia rezado nove ave-marias em favor de seu referido passarinho (que acabou sobrevivendo), o filósofo retrucou: "Eu acredito numa Providência geral, cara irmã, que estabeleceu desde a eternidade a lei que governa todas as coisas, como a luz do sol, mas não creio que uma Providência particular altere a economia do mundo por causa do vosso pardal".

Voltaire era deísta, embora vez por outra dava indícios de crer no panteísmo de Spinoza. Não foi ateu; pelo contrário, o achava antilógico.

No final de sua vida achou que seria um bem para a Humanidade o homem acreditar piamente na existência de Deus. "Eu quero que meu advogado, meu alfaiate e minha mulher acreditem em Deus; assim, imagino, serei menos roubado, menos enganado", dizia Voltaire. E prosseguiu: "Quando essa crença evita até mesmo dez assassinatos, dez calúnias, afirmo que o mundo inteiro deve aderir a ela".

Pelo menos em um ponto Voltaire e Platão comungavam da mesma ideia: "Se Deus não existisse, seria necessário inventá-lo". O filósofo iluminista era prático: se o fato de se acreditar em Deus traz algum benefício, que o mundo todo creia em Deus. Voltaire falava da essência da mensagem cristã, embora soubesse que, na prática, a Igreja não se revelava como ensinava a primitiva doutrina apostólica.

Em 1755, Lisboa fora sacudida por um terremoto, exatamente quando a Igreja comemorava o Dia de Todos os Santos, o que fez com que milhares de mortes ocorressem dentro dos templos. O clero francês se pronunciou dizendo que tal fato ocorrera por causa do pecado do povo. Voltaire se revoltou e escreveu: "Ou Deus pode evitar o mal, mas não quer; ou quer evitá-lo, mas não consegue".

Próximo de sua morte, o filósofo desejou visitar pela última vez Paris. Em seu último leito, recebeu visitas ilustres, como Benjamin Franklin, que levou um de seus netos para que Voltaire o abençoasse. Depois que colocou as mãos sobre o menino, afirmou: "Dedique-se a Deus e à liberdade".

Ainda em seu último leito, um padre se dirigiu a ele a fim de lhe dar a extrema unção. Voltaire rejeitou e fez a seguinte indagação: "Quem vos mandou aqui, senhor padre?" Este respondeu: "O próprio Deus". Em seguida, Voltaire retrucou: "Pois onde estão as vossas credenciais?" Com este diálogo, o filósofo afirmou que não acreditava que os padres eram mensageiros de Deus aos homens.

Não se sabe se por arrependimento ou se pelo fato de Voltaire ter sido um homem de forte personalidade, ele pediu que outro padre se fizesse presente para que ouvisse sua última confissão.

O novo padre disse que só o faria se Voltaire assinasse uma profissão de plena fé na doutrina católica. Voltaire se rebelou e dispensou o padre. Em vez da confissão de fé na Igreja, terminou assinando uma declaração que diz: "Morro adorando a Deus, amando meus amigos, sem odiar meus inimigos e detestando a superstição. (Assinado) Voltaire, 20 de fevereiro de 1778". Mas parecia uma confissão sem nexo com a realidade, pois suas horas finais de vida depunham sua incredulidade. Morreu no dia 30 de maio do mesmo ano, tomado por um grande vazio existencial. Recusou-se a receber velhos amigos: "Retirai-vos! Fora! Que glória infame conseguistes para mim".

[O último parágrafo foi alterado em 21.03.2017]

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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

OS PRIMEIROS PROFESSORES LAICOS NA EUROPA E NO BRASIL

Desde que a Companhia de Jesus fora criada, no século 16, a Igreja detinha o ensino, não somente na Europa como na América, com destaque para Portugal e Brasil, onde foi marcante a presença dos jesuítas nas salas de aula.

O domínio jesuítico somente foi removido quando o ministro de Estado, marquês de Pombal (que era antirreligioso), os expulsou de Portugal e de suas colônias, uma das quais o Brasil.

O período (1750 - 1777) em que Pombal ficou no Governo foi marcado pelo crescimento das ideias iluministas, que defendiam, dentre outras, a transferência da administração escolar da Igreja para o Estado. Assim foi feito.

Fechou todas as escolas administradas pelos jesuítas, além de proibir que seus métodos fossem adotados em sala de aula. Em 1759 foram registradas as primeiras aulas de gramática latina, grego e retórica administradas pelo Estado.

Alguns anos depois foi criado um imposto para sustentar o ensino público. Outras disciplinas passaram a compor o rol daquelas que eram ministradas pelo Estado.

Para se tornar professor, bastava o pretendente se candidatar para ser examinado por uma comissão previamente criada para esse fim. Os aprovados eram nomeados, cujo "contrato" durava de um a seis anos.

A partir de 1760 começaram a chegar ao Brasil os primeiros professores pagos pelo Estado português, os quais foram enviados à Bahia e Pernambuco. Posteriormente (1772), outras capitanias foram beneficiadas, mas somente as maiores.

No Brasil - pelo menos até 1790 -, as leis permitiam que somente os meninos assistissem às aulas e, embora a partir da referida data as leis permitissem a presença de mulheres, foi no início do século 19 que elas passaram, de fato, a entrar nas salas de aula, que funcionavam nas próprias casas dos professores. O conceito de colégio como o vemos hoje se revelou somente no século 20.

Os professores deveriam mostrar boa conduta, sob pena de perderem o emprego e de não receberem o salário, que, por sinal, chegava a se atrasar por vários anos. No estado de Minas Gerais, por exemplo, houve professores que permaneceram no cargo por mais de 25 anos, mesmo recebendo salários atrasados, um mal ainda presente em muitos locais no Brasil.

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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A ORIGEM DOS CARTÓRIOS DE REGISTROS CIVIS

A prática do registro civil remonta à Antiguidade, embora somente as pessoas consideradas importantes é que se submetiam à referida estatística. Não havia o cartório como o concebemos hoje.

Com a queda do Império Romano e a ascensão da Igreja Católica, esta herdou a tarefa de proceder ao registro de nascimentos e mortes das pessoas, mas ainda assim somente de um grupo seleto, como nobres, reis, eclesiásticos e demais pessoas consideradas importantes. Na prática, a Igreja apenas deu continuidade a uma tradição.

A França detém o título de país pioneiro na prática do registro universal de nascimentos e sepulturas, cuja datação aponta para meados do século 16, uma iniciativa da Igreja Católica. Poucos anos depois, com o término do Concílio de Trento (1563), a Igreja oficializou e difundiu a prática do registro civil e do registro de mortos para ricos e pobres.

Somente no início do século 19, com o Código Napoleônico, é que a França retira da Igreja a obrigação dos registros em questão e os transfere para a responsabilidade do Estado. É o início da laicização do registro de pessoas vivas e mortas.

No Brasil, somente na segunda metade do século 19 é que a Igreja perde para os municípios o privilégio/dever de proceder a tais registros. Em 1863, por meio de um decreto, o governo imperial deu efeito civil aos registros de casamentos de pessoas não católicas e em 1874, também por meio de decreto, D. Pedro II regulamentou o registro de nascimento, casamento e de óbito no Brasil.

A partir de 1875, somente as grandes cidades brasileiras é que deram início a essa determinação, e a partir de 1888, a Igreja deixava, oficialmente, de cumprir com essa obrigação, cujas recentes mudanças foram outorgadas pelas constituições republicanas.

Positivistas e republicanos foram grandes responsáveis pelo empenho de laicizar essa prática. Até a última Constituição Federal brasileira, em 1988, era tradição os cartórios serem cedidos a famílias influentes em cada município brasileiro.

Até bem pouco tempo juízes e promotores de Justiça despachavam nas dependências dos cartórios. Não foi por menos que sobreviveu um velho adágio popular, que diz: "Parece que fulano tem culpa no cartório", uma tentativa de dizer que alguém está em desacordo com a lei.

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domingo, 30 de janeiro de 2011

A ORIGEM E O FIM DOS SEPULTAMENTOS DE MORTOS SOB O PISO DAS IGREJAS

A prática do sepultamento de civis sob o piso dos templos católicos foi um fato que durou mais ou menos mil e trezentos anos, embora tal fenômeno tenha variado de um continente para outro, a exemplo do que aconteceu na Europa e na América do Sul.

A origem dessa prática remonta ao século VII e coincide com a ação da Igreja voltada para aproximar os mortos dos lugares sagrados, diferentemente do cemitério, então considerado um local profano, visto que nesses espaços os pagãos eram enterrados, com todas as suas liturgias.

Antes dos civis serem sepultados sob o piso da igreja, os santos católicos já desfrutavam desse "privilégio", e a presença do corpo de um civil próximo ao de um santo criava a expectativa de uma salvação eterna, sem falar que tal prática era uma forma de aproximar o morto de seus parentes vivos, dentro do mesmo espaço e no mesmo ato litúrgico (missas, rezas).

Somente com a Peste Negra, no século 14, a Igreja voltou a permitir fossem os mortos sepultados fora do templo - nos chamados campos-santos -, para onde iam principalmente os menos favorecidos socialmente, uma vez que a demanda se tornou maior que o espaço disponível, ante o grande número de mortos.

A partir do século 17 a Europa fortalece a prática de se enterrar os defuntos em cemitérios e não mais nas igrejas, cujo empenho recebeu apoio oficial no final do século seguinte, com a Revolução Francesa. A partir de 1789 a França proibiu o controle do sepultamento de civis por parte da Igreja Católica, de sorte que os cemitérios passaram a ser administrados pelo Estado.

As campanhas médicas tiveram um papel fundamental na mudança dos locais de sepultamento dos mortos, as quais alegavam que os corpos em estado de decomposição eram responsáveis por doenças e mortes da população, principalmente daqueles que frequentavam os templos.

No Brasil, por exemplo, a partir de 1850 houve intensa campanha, não somente por parte dos médicos, como também por parte da imprensa. Esta, por sua vez, empenhou-se principalmente depois de um padre católico ter proibido um protestante (que cometeu suicídio) fosse sepultado em um cemitério, cuja participação da Igreja na administração ainda era visível.

Desde o final do século 18 já havia determinação de Portugal para que o Brasil construísse cemitérios, embora somente a partir de 1820 é que se veem os primeiros construídos no país, dos quais alguns foram destruídos por fiéis que não aceitavam a mudança. Salvador, por exemplo, teve um cemitério destruído pela população, que armada de paus e machados, puseram abaixo os muros de um lugar visto como profano.

Lentamente, durante o século 19, é que a Igreja Católica, no Brasil, aceitou que os mortos fossem sepultados nos cemitérios, assim como permitiu que estes fossem administrados pelos municípios. A partir de 1876, por exemplo, bastaria um atestado médico para que o defundo fosse sepultado em um cemitério público.

Com a primeira Constituição Federal da República, promulgada em 1891, o Estado brasileiro determinou, de vez, que os civis fossem enterrados nos cemitérios, que passaram, enfim, a ser administrados unicamente pelos municípios.

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