quinta-feira, 16 de junho de 2011

EM RELATÓRIO HISTÓRICO, GONÇALVES DIAS MOSTRA AS PRECÁRIAS CONDIÇÕES DAS BIBLIOTECAS NA REGIÃO NORTE DO PAÍS EM MEADOS DO SÉCULO 19

Em meados do século 19, Gonçalves Dias (1823 - 1864), que há poucos anos havia sido nomeado professor de latim e história no Colégio D. Pedro II, no Rio de Janeiro, fez uma inspeção nas bibliotecas públicas e religiosas no Norte do país, em busca de documentos históricos.

Vale lembrar que depois da criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1838, acentuou-se consideravelmente o interesse em preservar documentos históricos que pudessem contribuir com a "construção" da história do Brasil. Segundo o relatório, era o Maranhão quem concentrava a melhor das bibliotecas pesquisadas, embora não seja nada animador o que nos relatou o poeta e professor:

"Quanto à parte literária, é o Convento de Santo Antônio, o que mais avulta, contendo uma biblioteca de quase 2.000 volumes; mas por negligência, acham-se muitos, quase todos, danificados a ponto de não poderem servir.

Não havendo um catálago na biblioteca, tive de percorrer os volumes um por um, para que ao menos soubesse o que eles continham, e na esperança de encontrar entre eles livros dos que faltam nas nossas principais bibliotecas, ou algum manuscrito esquecido. Nada disso: são volumes de teologia casuística, de filosofia rançosa, que ao abrir-se pareciam estranhar e queixar-se da mão, que os importunava no descanso morto em que jaziam."

Dando prosseguimento ao relatório, Gonçalves Dias também comenta sua impressão acerca das bibliotecas públicas:

"Igualmente infrutíferas foram as minhas visitas à biblioteca pública, cuja história é a seguinte (...) Muitos dos particulares concorreram com obras de valor e somas de dinheiro, enquanto outros, disfarçando a sua má vontade, remeteram volumes traçados e estragados a ponto de que, para não danificar os outros, um dos últimos presidentes ordenou que fossem lançados à praia".

O consagrado escritor brasileiro, Wilson Martins, autor da também consagrada obra de 12 volumes, A história da inteligência brasileira, comentando o relatório em questão, assinala:

"Se a situação era essa em 1851, um quarto de século depois de criados os cursos jurídicos, isto é, quando já se havia tido tempo de remediar, pelo menos, as deficiências mais clamorosas (sem que, de toda evidência, nada fosse feito), pode-se imaginar o que seria no início desse período".

Com a lucidez que lhe era peculiar, conclui Wilson Martins:

"Fica demonstrado, igualmente, que a ideia toda fantasiosa dos conventos como focos ativos de cultura e amor aos livros não passa de uma construção do espírito, o que em nada concorria para amenizar, antes instigava, a atitude anticlerical das classes dirigentes".

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segunda-feira, 13 de junho de 2011

(1) OS BASTIDORES DO GRANDE INCÊNDIO DE ROMA. (2) AFINAL, NERO TERIA SIDO O MANDANTE DE TAL CRIME?

No ano 64 d.C., no governo do imperador Nero, ocorreu um dos incêndios mais marcantes da história da Antiguidade. Dos 14 bairros de Roma, somente 4 ficaram intactos, 3 foram completamente destruídos, ao passo que os 7 restantes foram parcialmente queimados.

Os historiadores Suetônio e Cornélio Tácito, ambos nascidos ainda no primeiro século, narram, respectivamente, em seus livros A Vida dos Doze Césares e Anais, detalhes de como se processou o incêndio que, na versão de Tácito, faria dos cristãos os responsáveis por tamanha tragédia.

Outra versão, estranha aos historiadores acima mencionados, dá conta de que o fogo teria surgido acidentalmente pelos próprios moradores. No dizer de Tácito e Suetônio, Nero foi acusado de, propositadamente, ter ateado fogo na velha Roma.

O segundo deles (Suetônio), por sinal, é categórigo: "Simulando descontentamento com a feiura* dos antigos edifícios, com a estreiteza e a tortuosidade das ruas, incendiou a cidade de forma tão acintosa que...", ao passo que Tácito afirma que a calamidade fora "atribuída por uns a Nero, por outros ao acaso", bem como que "Pareceu que Nero procurava a glória de construir uma nova cidade e dar-lhe o seu nome".

Pelas duas versões, Nero pretendia reconstruir a cidade - sem falar que desejava rebatizá-la emprestando-lhe seu nome. É merecido lembrar que o referido imperador já pretendera rebatizar um dos meses do ano, que passaria a ter seu nome. Certamente invejava Júlio César e Otávio Augusto, homenageados com a nominação dos meses de julho e agosto.

Outro fator que pesa contra Nero diz respeito a outros registros dando conta de que ele de fato tinha claras pretensões arquitetônicas para as cidades, não somente para Roma, cujos edifícios deveriam ter galerias na frente, para que, do alto do terraço se pudesse combater os incêndios. E por falar em incêndios, afora a acusação sobre Roma, Nero também pretendeu incendiar a Gália, sem falar que planejou soltar feras para dizimar seus moradores.

Acusado de ser o mandante, Nero não se achava presente em Roma quando o incêndio teve início. Ele estava em Âncio, que ficava na região do Lácio (Itália). Antes do fim da calamidade - que teria durado seis ou sete dias -, Nero voltaria a Roma a fim de tomar algumas medidas governamentais.

Antes de fazê-lo, porém, foi acusado de contemplar o incêndio do alto de uma torre (Tácito afirma que ele estava em seu palácio - provalmente na torre do próprio palácio), em cujo momento teria se alegrado e cantado em honra ao feito alcançado. Quando o fogo se aproximava de seu lar, resolveu agir.

As medidas governamentais para amenizar o sofrimento dos moradores se limitaram a baixar o preço de alguns alimentos e a reconstruir as casas, desta feita nos moldes arquitetônicos pretendidos. Suetônio afirma que o imperador se aproveitou da situação para roubar os pertences dos moradores que não foram dizimados pelas chamas. Para tanto, teria ordenado que o recolhimento dos cadáveres dar-se-ia pelo Estado (a oportunidade, enfim, para entrar nos lares e saquear o que lhe convinha).

Vários templos foram destruídos, inclusive incontáveis obras de arte grega. Registraram-se suicídios e falência de alguns moradores. O povo, temeroso de que houvesse novos incêndios e tentando acalmar a fúria dos deuses, fizeram inúmeras honras religiosas.

Os préstimos de Nero no intuito de amenizar o sofrimento da população não surtiram efeito. Acusado pelo povo e vendo que os boatos não cessavam, Tácito afirma que o imperador teria posto a culpa nos cristãos, que passaram a ser vítimas de várias crueldades, uma das quais serem amarrados a postes e incendiados nos jardins do palácio de Nero durante o período noturno, promovendo, assim, o que se chamou de "espetáculos". Outra perversidade: os cristãos eram amarrados com peles de animais e em seguida eram entregues (ainda vivos) para serem dilacerados por feras.
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* O blog adota as novas regras gramaticais, daí o porquê de se escrever feiura (sem acento) e não mais feiúra.

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sexta-feira, 13 de maio de 2011

RUI BARBOSA E SUA LUTA PELA IMPLANTAÇÃO DA DISCIPLINA DESENHO NA EDUCAÇÃO DO BRASIL

Rui Barbosa (1849 - 1923), conhecido jurista brasileiro com respeitada atuação nacional e internacional - e profundo estudioso da língua portuguesa -, não era um homem somente do Direito e do Português. Seu conhecimento era amplo e abordava outras disciplinas - bem no estilo de vários renascentista -, de sorte que ele, Rui Barbosa, se tornou um homem admirado, inclusive, por seus discursos e por suas ideias sobre a educação do país.

Ele estava convencido de que a educação era algo imprescindível para o país, cujo mérito por excelência dizia respeito à capacitação do indivíduo para servir à sociedade de modo proveitoso. Ele não poupou críticas acerca da qualidade do ensino reservado aos pobres, pois, segundo Rui, somente uma elite dispunha de um nível melhor (como se vê, a crítica é antiga e remonta às origens da implantação do ensino oficial pelo Estado brasileiro).

Para Rui Barbosa, o país deveria acrescentar a disciplina Desenho no rol daquelas adotadas oficialmente, visto que, de acordo com o jurista, a nova disciplina ajudaria o aluno a desenvolver outras habilidades.

Em 1879, criticou a reforma do ensino feita no país por D. Pedro II (embora pela primeira vez ela tenha permitido que escravos pudessem frequentar as salas de aula - algo que na prática não aconteceu), pois, no entendimento de Rui Barbosa, ela não ampliou satisfatoriamente o número de disciplinas do ensino primário e secundário (este último criado em meados do mesmo século).

Na prática, as poucas escolas continuavam ensinando o aluno a ler, a escrever e a fazer as quatro operações matemáticas, contrariando as determinações de uma lei de 1827 (então em vigor), que previa, também, o ensino de proporção e geometria na disciplina de matemática.

Segundo Rui Barbosa, a prática do desenho é anterior à escrita. Aquela levou a esta, um retrato do processo evolutivo da própria humanidade. O desenho demonstra a espontaneidade, o instinto intuitivo, enfim, a liberdade de expressão do ser humano, entendia o jurista, tanto que planejou a construção da Escola Normal Nacional de Arte Aplicada, no Rio de Janeiro, cujo objetivo principal seria formar professores para o ensino da nova disciplina.

Em 1882, numa conferência realizada no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, ele proferiu o seguinte discurso:

"Que agente é esse, capaz de operar no mundo, sem a perda de uma gota de sangue, essas transformações incalculáveis, prosperar ou empobrecer Estados, vestir ou despir aos povos o manto da opulência comercial? O Desenho, senhores, unicamente, essa modesta e amável disciplina, pacificadora, comunicativa afetuosa entre todas: o desenho professado às crianças e aos adultos, desde jardim de infância até a universidade, como base obrigatória na educação de todas as camadas sociais."

Rui Barbosa escreveu vários artigos sobre o tema, muitos lidos inclusive pelo próprio D. Pedro II, que, efetivamente, optou por menosprezar as ideias do jurista brasileiro.

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terça-feira, 26 de abril de 2011

O USO DE TEMPLOS PAGÃOS POR CRISTÃOS: CORRESPONDÊNCIA PRIVADA REVELA AS INTENÇÕES DA IGREJA HÁ MAIS DE 1.400 ANOS

Carta escrita no ano 601 d.C., pelo Papa Gregório I, e endereçada a um abade, revela a intenção da Igreja em utilizar os templos pagãos para a atividade litúrgica cristã. Até o final desta postagem será divulgado trecho histórico da referida carta.

Ainda antes da Igreja cristã ter sido institucionalizada (século 4), ela teve que lidar com vestígios pagãos, como duendes, gnomos, fadas e deuses de chifres. As crenças cristãs e pagãs foram mescladas, de modo que várias correntes surgiram dentro da própria Igreja.

Não faltaram queixas, ainda nos primeiros séculos, dando conta de que o cristianismo já não era mais o mesmo daquele constatado nas primeiras décadas de seu nascimento.

A Igreja não hesitou e fez de tudo para enterrar de vez qualquer resíduo pagão: tornou-se noiva do Estado e perseguiu, a ferro e sangue, os relutantes. Vejamos, agora, as palavras do Papa Gregório (em 601) sobre a reutilização dos templos pagãos:

"Chegado à conclusão de que os templos dos ídolos entre esse povo não devem em hipótese alguma ser destruídos. Os ídolos devem ser destruídos, mas os próprios templos devem ser aspergidos com água-benta*, e neles instalados altares e depositadas relíquias."

Prossegue o papa:

"Pois se esses templos são bem construídos, devem ser purificados do culto aos demônios e dedicados ao serviço do verdadeiro Deus. Dessa maneira, esperamos que o povo, vendo que seus templos não são destruídos, abandone seu erro e, acorrendo mais rapidamente a seus locais de costume, venha a conhecer e adorar o verdadeiro Deus."

Conclui o Pontífice:

"E como têm o costume de sacrificar muitos bois ao demônio, que alguma outra solenidade substitua essa, como um dia de Dedicação ou a Festa dos Santos Mártires cujas relíquias estejam ali guardadas."

O texto, de grande valor histórico, mostra a astúcia do então papa, que, além de se utilizar dos templos pagãos - sem falar que pretendia destruir as estátuas -, ainda sugeriu que a festa dos antigos romanos fossem substituídas por outra solenidade, no caso uma festa ligada aos mártires, vistos como santos, inclusive nos dias atuais.

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* O blog adota o novo Acordo Ortográfico e se esforça por adotar os vocábulos oficializados pelo VOLP, da Academia Brasileira de Letras.

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