terça-feira, 26 de abril de 2011

O USO DE TEMPLOS PAGÃOS POR CRISTÃOS: CORRESPONDÊNCIA PRIVADA REVELA AS INTENÇÕES DA IGREJA HÁ MAIS DE 1.400 ANOS

Carta escrita no ano 601 d.C., pelo Papa Gregório I, e endereçada a um abade, revela a intenção da Igreja em utilizar os templos pagãos para a atividade litúrgica cristã. Até o final desta postagem será divulgado trecho histórico da referida carta.

Ainda antes da Igreja cristã ter sido institucionalizada (século 4), ela teve que lidar com vestígios pagãos, como duendes, gnomos, fadas e deuses de chifres. As crenças cristãs e pagãs foram mescladas, de modo que várias correntes surgiram dentro da própria Igreja.

Não faltaram queixas, ainda nos primeiros séculos, dando conta de que o cristianismo já não era mais o mesmo daquele constatado nas primeiras décadas de seu nascimento.

A Igreja não hesitou e fez de tudo para enterrar de vez qualquer resíduo pagão: tornou-se noiva do Estado e perseguiu, a ferro e sangue, os relutantes. Vejamos, agora, as palavras do Papa Gregório (em 601) sobre a reutilização dos templos pagãos:

"Chegado à conclusão de que os templos dos ídolos entre esse povo não devem em hipótese alguma ser destruídos. Os ídolos devem ser destruídos, mas os próprios templos devem ser aspergidos com água-benta*, e neles instalados altares e depositadas relíquias."

Prossegue o papa:

"Pois se esses templos são bem construídos, devem ser purificados do culto aos demônios e dedicados ao serviço do verdadeiro Deus. Dessa maneira, esperamos que o povo, vendo que seus templos não são destruídos, abandone seu erro e, acorrendo mais rapidamente a seus locais de costume, venha a conhecer e adorar o verdadeiro Deus."

Conclui o Pontífice:

"E como têm o costume de sacrificar muitos bois ao demônio, que alguma outra solenidade substitua essa, como um dia de Dedicação ou a Festa dos Santos Mártires cujas relíquias estejam ali guardadas."

O texto, de grande valor histórico, mostra a astúcia do então papa, que, além de se utilizar dos templos pagãos - sem falar que pretendia destruir as estátuas -, ainda sugeriu que a festa dos antigos romanos fossem substituídas por outra solenidade, no caso uma festa ligada aos mártires, vistos como santos, inclusive nos dias atuais.

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* O blog adota o novo Acordo Ortográfico e se esforça por adotar os vocábulos oficializados pelo VOLP, da Academia Brasileira de Letras.

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quarta-feira, 13 de abril de 2011

TEXTOS HISTÓRICOS QUE COMPROVARIAM A HISTORICIDADE DE JESUS CRISTO

O blog exporá, abaixo, os principais textos (eles não fazem parte da Bíblia nem dos livros apócrifos) que favorecem a tese de que Jesus Cristo é um personagem histórico. Diversos apologistas cristãos - incluindo historiadores e pesquisadores - adotam os referidos textos para defenderem que Jesus de fato existiu. Eles foram escritos nos três primeiros séculos e são da lavra de personagens cristãos e não cristãos. Atentar para os parênteses, que indicam a provável data em que foram escritos ou publicados inicialmente.
  • Sanhedrim 43a - Tamulde da Babilônia

“Na véspera da Páscoa suspenderam a uma haste Jesus de Nazaré. Durante quarenta dias um arauto, à frente dele, clamava: 'Merece ser lapidado, porque exerceu a magia, seduziu Israel e o levou à rebelião. Quem tiver algo para o justificar venha proferí-lo! Nada, porém se encontrou que o justificasse; então suspenderam-no à haste na véspera da Páscoa.”

Comentários da Enciclopédia Britânica a respeito do texto acima:

"A tradição judaica recolhe também notícias acerca de Jesus. Assim, no Talmude de Jerusalém e no da Babilônia incluem-se dados que, evidentemente, contradizem a visão cristã, mas que confirmam a existência histórica de Jesus de Nazaré."

  • Texto de Tallus (52 d.C.) compilado por Júlio Africano em 220 d.C.

“Esse evento seguiu-se a cada um de seus atos, e curas do corpo e da alma, e conhecimento das coisas ocultas, e sua ressurreição da morte, tudo isso suficientemente provado aos discípulos antes de nós e aos seus apóstolos: após a mais terrível treva ter caído sobre todo o mundo, as rochas partiram-se ao meio por um terremoto e muitos da Judéia e do resto da nação foram tragados. Talus aludiu essas trevas a um eclipse do sol no terceiro livro das suas Histórias, sem justificativa, ao que me parece... Pois... como poderíamos crer que um eclipse tomou lugar quando a lua estava diametralmente oposta ao sol? De fato, deixe-se estar. Deixemos a idéia de que isso aconteceu apanhar e afastar as multidões, e deixemos o prodígio cósmico ser admitido como um eclipse do sol, segundo sua aparência.' Flegon' reporta que nos tempos de Tibério César, durante a lua cheia um eclipse total do sol aconteceu da sexta até a nona hora. Claramente se trata do nosso eclipse! O que é comum a um terremoto, eclipse, rochas partindo, um subir dos mortos, e uma ação cósmica de tais proporções? No mínimo, sobre um longo período de tempo, nenhuma conjunção dessa magnitude é lembrada. Mas se tratava de uma escuridão de autoria divina, pois o Senhor apareceu para sofrer, e a Bíblia, em Daniel, dá suporte ao fato que setenta palmos de sete anos seriam consumados até essa ocasião.”

  • Texto(s) de Flávio Josefo - Escrito em 93 d.C.

"Mas este Ananus mais jovem, que, como já dissemos, assumiu o sumo sacerdócio, era um homem temperamental e muito insolente; ele era também da seita dos Saduceus, que são muito rígidos ao julgar ofensores, mais do que todos os outros judeus, como já tinhamos dito anteriormente; quando, portanto, Ananus supôs que tinha agora uma boa oportunidade: Festus estava morto, e Albinus estava viajando; assim ele reuniu o sinédrio dos juízes, e trouxe diante dele o irmão de Jesus, o que era chamado Cristo, cujo nome era Tiago e alguns outros; e quando ele formalizou uma acusação contra eles como infratores da lei; ele os entregou para serem apedrejados (...) Albinus concordou com eles e escreveu iradamente a Ananus, e o ameaçou dizendo que ele seria punido pelo que havia feito; por causa disso, o rei Agripa tirou o sumo sacerdócio dele (de Albanus), quando ele o tinha exercido por apenas três meses, e fez Jesus, filho de Damneus, sumo sacerdote."

O segundo Jesus não se confunde com o primeiro. São pessoas distintas. Fato pacificamente aceito na historiografia.

O texto a seguir, também do historiador Flávio Josefo (escrito em 93 d.C.), é aceito como adulterado (na parte em que se refere à divindade de Jesus), mas não se sabe ao certo com relação ao restante do texto:

"Havia neste tempo Jesus, um homem sábio, se é lícito chama-lo de homem, porque ele foi o autor de coisas admiráveis, um professor tal que fazia os homens receberem a verdade com prazer. Ele fez seguidores tanto entre os judeus como entre os gentios. Ele era o Cristo. E quando Pilatos, seguindo a sugestão dos principais entre nós, condeno-o à cruz, os que o amaram no princípio não o esqueceram; porque ele apareceu a eles vivo novamente no terceiro dia; como os divinos profetas tinham previsto estas e milhares de outras coisas maravilhosas a respeito dele. E a tribo dos cristãos, assim chamados por causa dele, não está extinta até hoje."

  • Textos de Justino Mártir - Escritos em 150 d.C.

“Mas estas palavras: ‘Transpassaram-me as mãos e os pés’ são uma descrição dos pregos com que lhe cravaram as mãos e os pés na cruz; e, após crucificado, os que o pregaram na cruz lançaram sorte para determinar quem lhe ficaria com as vestes, e as dividiram entre si; e que estas coisas foram assim, podeis vós verificar do que se contém nos ‘Atos’ que foram compilados sob Pôncio Pilatos.”

O segundo texto de Justino, diz:

“Que ele realizou estes milagres é coisa que podeis facilmente concluir dos ‘Atos’ de Pôncio Pilatos.”

  • Texto de Plínio, o jovem - Escrito em 112 d.C.

" . . . tinham (os cristãos) o hábito de reunir-se em um dia fixo antes de sair o sol, quando entoavam um cântico a Cristo como Deus e se comprometiam, mercê de solene juramento, a não praticar nenhum ato mau, a abster-se de toda fraudulência, furto e adultério, a jamais quebrar a palavra empenhada ou deixar de saldar um compromisso em chegando a data do vencimento, após o que era costume separarem-se e reunir-se novamente para participar do banquete comum, servindo-se de alimento de natureza ordinária e inocente."

  • Carta de Mara Bar-Serápion (entre 73 e 180 d.C.)

"Para que benefícios obtiveram os atenienses pondo Sócrates à morte, enquanto vendo que eles receberam como retribuição para isto escassez e pestilência? Ou as pessoas de Samos, queimando Pitágoras, vendo isso em uma hora em que todo o país deles estava coberto com areia? Ou os judeus pelo assassinato do Sábio Rei deles, vendo isso daquele mesmo tempo que o reino deles foi dirigido longe deles? Para com justiça Deus fez concessão uma recompensa para a sabedoria de todos os três. Para os atenienses morreu através de escassez; e as pessoas de Samos estavam cobertas pelo mar sem remédio; e aos judeus, trouxe a desolação e expeliu do reino deles, é afugentado em toda terra. Não, Sócrates não morreu, por causa de Platão; nem ainda Pitágoras, por causa da estátua de Hera; nem ainda o Sábio Rei, por causa das leis novas que ele ordenou."


A carta acima mencionada se encontra no Museu Britânico, em forma de manuscrito, escrito - muito provavelmente - entre os anos 73 d.C e 180 d.C. e enviada por um cidadão Sírio, chamado Mara Bar-Serápion, ao seu filho de nome Serápion.


  • Textos de Papias - Coligidos por Eusébio

Os textos a seguir estão coligidos na obra de Eusébio de Cesaréia, chamada
História Eclesiástica, escrita no ano 315 d.C.

  • Palavras de Papias (70 d.C. - 140 d.C.):


"Não vacilarei em apresentar-te ordenadamente com interpretações tudo o que um dia aprendi muito bem dos presbíteros e que recordo bem, seguro que estou de sua verdade."(...) E se por acaso chegava alguém que também havia seguido os presbíteros eu procurava discernir as palavras dos presbíteros: o que disse André, ou Pedro, ou Felipe ou Tomás, ou Tiago, ou João, ou Mateus ou qualquer outro discípulo do Senhor, porque eu pensava que não aproveitaria tanto o que tirasse dos livros como o que provêm de uma voz viva e durável."

"E o presbítero diz isto: Marcos, que foi intérprete de Pedro, pôs por escrito, ainda que não em ordem, o quanto recordava do que o Senhor o havia dito e feito."

  • Palavras de Eusébio:

"O próprio Papias no entanto, segundo o prólogo de seus tratados, não se apresenta de modo algum como ouvinte e testemunha ocular dos sagrados apóstolos, mas ensina-nos que recebeu o referente à fé da boca de outros que os conheceram(...)"

"Agora bem, Papias, de quem estamos falando, confessa que recebeu as palavras dos Apóstolos [por meio] de [dos] discípulos destes [apóstolos], enquanto que de Aristion e de João, o Presbítero, ele diz ter sido ouvinte direto. Efetivamente menciona-os pelo nome várias vezes em seus escritos e compila suas tradições."

"Pois bem, já foi explicado mais acima que o apóstolo Felipe morou em Hierápolis com suas filhas, mas agora há que se assinalar como Papias, que viveu nesse tempo, faz menção de haver recebido um relato maravilhoso da boca das filhas de Felipe."

  • Textos de Irineu (130 a 202 d.C.) - Coligidos por Eusébio. Consta também testemunho de Policarpo (70 a 157 d.C.)

  • Palavras de Irineu:

"E também Policarpo, não somente foi instruído pelos apóstolos e conviveu com muitos que haviam visto o Senhor, mas também foi instruído bispo da Ásia pelos apóstolos, na Igreja de Esmirna. Nós inclusive o vimos em nossa juventude."

"E há quem o tenham ouvido dizer que João, o discípulo do Senhor, indo banhar-se em Éfeso (...)"

"(...)Estas opiniões (de Floriono) não te foram transmitidas pelos presbíteros que nos precederam, os que juntos frequentaram a companhia dos apóstolos, porque sendo eu ainda criança, te vi (Floriono) na casa de Policarpo na Ásia Inferior, quando tinhas uma brilhante atuação no Palácio Imperial e te esforçavas para ter crédito perante ele (Policarpo). E recordo-me mais dos fatos de então do que dos recentes (...) tanto que posso inclusive dizer o local em que o bem-aventurado Policarpo dialogava sentado, assim como suas saídas e e entradas, seu modo de vida e o aspecto de seu corpo, os discursos que fazia ao povo, como descrevia suas relações com João e com os demais que haviam visto o Senhor e como recordava as palavras de uns e de outros; e os que tinha ouvido deles sobre o Senhor, seus milagres e seu ensinamento; e copo Policarpo, depois de tê-lo recebido destas testemunhas oculares da vida do Verbo (Jesus), relata tudo em consonância com as Escrituras. E estas coisas, pela misericórdia que Deus teve para comigo, também eu escutava então diligentemente e as anotava, mas não em papel, mas em meu coração (...). Isto pode-se também comprovar claramente pelas cartas que escreveu (Policarpo), seja às Igrejas vizinhas, confortando-as, seja a alguns irmãos admoestando-os e exortando-os."

  • Texto de Cornélio Tácito - Escrito em 115 d.C.

"Mas nem por meios humanos; nem pelas liberalidades do Imperador nem pelas expiações religiosas se apagava o rumor infamante que atribuía o incêndio às ordens de Nero. Para destruir tais murmúrios, ele procurou pretensos culpados e fê-los sofrer as mais cruéis torturas, pobres indivíduos odiados pelas suas torpezas e vulgarmente chamados cristãos. Quem lhes dava este nome, Cristo, no tempo de Tibério, foi condenado ao suplício pelo Procurador Pôncio Pilatos. Embora reprimida no momento, esta perigosa superstição irrompia de novo, não só na Judéia, berço desse flagelo, mas até mesmo na própria Roma, para onde afluem do mundo inteiro e conquistam voga todas as coisas horríveis e vergonhosas. Logo a princípio foram presos os que se confessavam cristãos, depois pelas revelações destes, grande multidão foi convencida não do crime do incêncdio, mas de odiar o gênero humano. Ao suplício dos que morriam juntava-se o escárnio, pois envolviam as vítimas com peles de feras, e as expunham às lacerações dos cães, ou eram amarradas em cruzes ou destinadas a serem queimadas e, desde que acabava o dia, eram destruídas pelo fogo à guisa de tochas noturnas. Nero tinha cedido seus jardins para esses espetáculos e ao mesmo tempo celebrava jogos no circo, confundindo-se com a plebe, em hábitos de auriga, conduzindo carros. Então, posto que os castigos se dirigissem aos cristãos culpados e merecedores dos maiores suplícios, levantava-se por eles comovida compaixão, porque eram imolados menos por um motivo público, que pela crueldade de um só homem."

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sábado, 26 de março de 2011

INFALIBILIDADE PAPAL: OS BASTIDORES DE UMA HERESIA

Imagem da internet


Foi somente por meio de um papa que a Igreja teve que aceitar esse dogma, que, por sinal, trouxe indignação dentro da própria Igreja.
 
O Papa se chamava Pio IX, que liderou o Concílio Vaticano I, nos anos 1869 e 1870. Ele queria, a todo custo, se tornar oficialmente infalível, bem como resolver uma pendência que durava havia séculos: a disputa entre o Papado e o Concílio, uma vez que os bispos buscavam uma Igreja cada vez mais descentralizada, o oposto das intenções de Pio IX.

Estranhamente, o Papa não divulgou o verdadeiro propósito do Concílio. Inicialmente tratou de abordar o ateísmo, que passou a ser duramente condenado, assim como o materialismo e o panteísmo (junto com este o deísmo e o agnosticismo). Somente aos poucos é que os temas importantes para o Papa foram trazidos à discussão.

O Vaticano I não foi um Concílio livre. Longe disso! O Papa impôs, gerou temores, ameaçou, demitiu, gritou! Aqueles que se opuseram aos seus desejos foram perseguidos, ainda mesmo durante o Concílio.

Um bispo croata, que teve a ousadia de afirmar que até os protestantes eram capazes de amar Jesus, foi silenciado aos berros pelo Papa. Naquele momento o Papa já mantinha a maioria dos presentes, que, por adulação ou por temor, se mostravam favoráveis a ele. O bispo croata fora chamado de Lúcifer, anátema, um segundo Lutero. Ordenaram que ele fosse jogado fora.

Um bispo caldeu, que publicamente se opôs às pretensões absolutistas do Papa, fora convocado às pressas pelo Papa a uma reunião a portas fechadas. Tremendo de raiva, Pio IX deu duas alternativas para o bispo: ou aceitaria formalmente as propostas dele ou deveria renunciar. Daí para frente ficou difícil se opor ao papa tirano.

Quando a infalibilidade papal passou a ser tema de discussão, muitos bispos ficaram chocados, pois o assunto, além de não ter sido cotado como tema do Concílio, este já havia decorrido alguns meses sem que se desse a ideia de que seria levado à discussão, uma vez que o próprio Papa era sabedor de que os bispos não queriam a centralização do poder. Em vão! A infalibidade do Papa foi posta goela abaixo.

Um bispo armênio contestou ferozmente tal dogma. Na mesma hora Pio IX o condenou a um regime de exercícios espirituais obrigatórios num mosteiro local - uma espécie de prisão domiciliar.

Dos bispos aptos a votar, calcula-se que menos de 50% foram favoráveis à infalibilidade papal, mas ainda assim ela foi imposta. Dá para acreditar?

Após o Concílio, e uma vez divulgado o resultado, muitas igrejas subordinadas de diversos países se revoltaram contra tal dogma, o que deixou o Papa furioso. Todos os bispos tiveram que assinar um documento, no qual afirmavam a aceitação do novo dogma. Muitos saíram da Igreja; outros, por medo e por conveniência, acataram a decisão papal.

Pio IX morreu em 1878, e, quando seu corpo percorria o último trajeto, a população gritava: "Morre o Papa", "Joguem o porco no rio". Alguns dos presentes ousaram roubar seu corpo (queriam jogá-lo no Tibre) e foram presos.

Finalmente, cabe indagar: a infalibilidade papal se deu a partir de sua aceitação por meio do Concílio ou a decisão teve um efeito retroativo? Se retroativo, como explicar o fato dessa decisão precisar ser ratificada por um concílio? Se não tem efeito retroativo, com base em que os argumentos usados não são atemporais, mas válido a partir de um marco cronológico?
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segunda-feira, 21 de março de 2011

TEXTO DO HUMANISTA ERASMO DE ROTTERDAN REVELA A FORMA COMO ERAM TRATADAS ALGUMAS CRIANÇAS NA ANTIGUIDADE E INÍCIO DA IDADE MODERNA

O texto abaixo transcrito foi extraído do livro "Dos Meninos", de Erasmo de Rotterdan (1466 - 1536), humanista e autor da conhecida obra, O elogio da loucura. Em outro momento postamos alguns exemplos trazidos pelo mesmo escritor, um dos quais aborda o caso em que um professor ordenou que seu aluno fosse obrigado a comer "cocô" de ser humano. Vamos ao texto:

"As leis humanas restringem o poder senhoril e permitem aos servos moverem ações de maus-tratos contra os patrões. De onde procede tal desumanidade entre cristãos? No passado, Auxo, certo cavaleiro romano, corrigiu o filho à vara e com tamanho rigor que este veio a falecer.

Aquela barbaridade comoveu o povo a ponto de pais arrastarem o algoz até o Fórum e, ali, crivaram-no de estiletes, sem a mínima consideração pelo seu prestígio de cavaleiro. Foi com muito esforço que Otávio Augusto [imperador] conseguiu libertá-lo daquele aflitivo tormento."

Erasmo prossegue:

"Quantos Auxos não estamos a ver hoje [no início da Idade Moderna, que coincide com o período do Renascimento] ! Indivíduos que lesam a saúde das crianças com a sevícia da chibata, debilitando-as e até matando! Para seviciar, só as correias já não bastam mais. Batem com o cabo e desferem bofetadas e socos contra os pequenos. Agarram, mesmo qualquer objeto ao alcance das mãos e arremetem-no contra eles.

Narram os livros judiciais que certo indivíduo deixou no occipício [parte superior da cabeça] do aprendiz o desenho do formato do tamanco de madeira, fazendo saltar para fora um dos olhos. Ainda bem que a lei puniu-o por tamanha atrocidade."

Erasmo prossegue, mais adiante, com novos relatos. Desta vez aborda a situação dos alunos. Diz ele:

"Os iniciantes, ao ingressarem em escolas públicas, são coagidos a despirem-se da 'beca', termo bárbaro para um costume não menos rebarbativo. O jovem inexperiente é mandado para o estudo das artes liberais, mas, ao invés, a quantos ultrajes deprimentes para a sua dignidade de ente livre vai ser submetido!

Primeiro, empastam-lhe o rosto como para barbear. Para isso usam a urina ou outra loção mais fétida ainda [cocô humano]. O mesmo tipo de líquido é embutido pela boca adentro com a proibição de expelir. Com socos violentos quebram-lhe o brio de adolescente. Depois, fazem-no engolir farta dose de vinagre, de sal ou de qualquer outra substância que lhes der na veneta desvairada.

Por último, os promotores da brincadeira exigem juramento de obediência a todos os seus caprichos. Por fim, levantam-no pelo ar, em posição dorsal e atiram-no qual aríete contra um poste. A brutalidades tão vis, sobrevêm, frequentemente, febres e dores imedicáveis que afetam a espinha. Por último, aquelas brincadeiras descabidas findam em bacanais."

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