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Foi somente por meio de um papa que a Igreja teve que aceitar esse dogma, que, por sinal, trouxe indignação dentro da própria Igreja.
O Papa se chamava Pio IX, que liderou o Concílio Vaticano I, nos anos 1869 e 1870. Ele queria, a todo custo, se tornar oficialmente infalível, bem como resolver uma pendência que durava havia séculos: a disputa entre o Papado e o Concílio, uma vez que os bispos buscavam uma Igreja cada vez mais descentralizada, o oposto das intenções de Pio IX.
Estranhamente, o Papa não divulgou o verdadeiro propósito do Concílio. Inicialmente tratou de abordar o ateísmo, que passou a ser duramente condenado, assim como o materialismo e o panteísmo (junto com este o deísmo e o agnosticismo). Somente aos poucos é que os temas importantes para o Papa foram trazidos à discussão.
O Vaticano I não foi um Concílio livre. Longe disso! O Papa impôs, gerou temores, ameaçou, demitiu, gritou! Aqueles que se opuseram aos seus desejos foram perseguidos, ainda mesmo durante o Concílio.
Um bispo croata, que teve a ousadia de afirmar que até os protestantes eram capazes de amar Jesus, foi silenciado aos berros pelo Papa. Naquele momento o Papa já mantinha a maioria dos presentes, que, por adulação ou por temor, se mostravam favoráveis a ele. O bispo croata fora chamado de Lúcifer, anátema, um segundo Lutero. Ordenaram que ele fosse jogado fora.
Um bispo caldeu, que publicamente se opôs às pretensões absolutistas do Papa, fora convocado às pressas pelo Papa a uma reunião a portas fechadas. Tremendo de raiva, Pio IX deu duas alternativas para o bispo: ou aceitaria formalmente as propostas dele ou deveria renunciar. Daí para frente ficou difícil se opor ao papa tirano.
Quando a infalibilidade papal passou a ser tema de discussão, muitos bispos ficaram chocados, pois o assunto, além de não ter sido cotado como tema do Concílio, este já havia decorrido alguns meses sem que se desse a ideia de que seria levado à discussão, uma vez que o próprio Papa era sabedor de que os bispos não queriam a centralização do poder. Em vão! A infalibidade do Papa foi posta goela abaixo.
Um bispo armênio contestou ferozmente tal dogma. Na mesma hora Pio IX o condenou a um regime de exercícios espirituais obrigatórios num mosteiro local - uma espécie de prisão domiciliar.
Dos bispos aptos a votar, calcula-se que menos de 50% foram favoráveis à infalibilidade papal, mas ainda assim ela foi imposta. Dá para acreditar?
Após o Concílio, e uma vez divulgado o resultado, muitas igrejas subordinadas de diversos países se revoltaram contra tal dogma, o que deixou o Papa furioso. Todos os bispos tiveram que assinar um documento, no qual afirmavam a aceitação do novo dogma. Muitos saíram da Igreja; outros, por medo e por conveniência, acataram a decisão papal.
Pio IX morreu em 1878, e, quando seu corpo percorria o último trajeto, a população gritava: "Morre o Papa", "Joguem o porco no rio". Alguns dos presentes ousaram roubar seu corpo (queriam jogá-lo no Tibre) e foram presos.
Finalmente, cabe indagar: a infalibilidade papal se deu a partir de sua aceitação por meio do Concílio ou a decisão teve um efeito retroativo? Se retroativo, como explicar o fato dessa decisão precisar ser ratificada por um concílio? Se não tem efeito retroativo, com base em que os argumentos usados não são atemporais, mas válido a partir de um marco cronológico?
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