terça-feira, 9 de novembro de 2010

AS RAZÕES HISTÓRICAS PARA O USO DE INICIAIS MAIÚSCULAS EM NOMES PRÓPRIOS E EM FATOS E DATAS IMPORTANTES

Diz-nos Evanildo Bechara que "A língua portuguesa é a continuidade ininterrupta, no tempo e no espaço, do latim levado à Península Ibérica pela expansão do império romano, no início do séc. III a.C."; mas é somente no século XIII d.C. que temos os primeiros documentos históricos em língua portuguesa, daí o porquê de se afirmar que ela se originou no citado século.

No latim clássico não havia a distinção entre maiúsculas e minúsculas, porquanto somente aquelas eram utilizadas. As minúsculas, por sua vez, surgiram apenas entre os séculos IV e VI d.C. e eram vistas como uma opção à parte e não uma complementação das maiúsculas.

Desta feita, era comum ou se usar um texto completamente com as letras maiúsculas ou completamente com as minúsculas.

A ideia de mesclar os dois tipos de letras surgiu na Idade Média, principalmente quando os mosteiros passaram a ser responsáveis pela reprodução de obras literárias, em cujo período o livro passa a ser visto como uma obra de arte, de sorte que não somente o conteúdo seria observado, como também os aspectos gráficos.

Em outras palavras, a aparência do livro passou a merecer uma atenção redobrada. Foi exatamente aqui que surge a junção da inicial maiúscula com as demais letras minúsculas que formam uma palavra. Convencionou-se que um texto redigido com todas as letras maiúsculas se tornava mais difícil de ser lido (eis um fato), razão por que optaram pelas minúsculas.

Houve, no entanto, alguns saudosistas do velho latim (que adotava todas as letras maiúsculas) que reivindicaram uma volta ao passado. Embora tenham perdido a causa, ganharam em outro aspecto: teria surgido daí a explicação para a utilização das iniciais maiúsculas em fatos históricos importantes, bem como em nomes próprios.

É por esta razão que ainda hoje adotamos as iniciais maiúsculas em alguns casos, como em palavras que designam fatos importantes, visto que os medievais julgaram que os velhos tempos clássicos não deveriam ser esquecidos, assim como renascentitas idolatraram a Grécia e a Roma clássicas. Assim, escrevem-se Renascença e não renascença, Idade Média e não idade média, Dia de Finados e não dia de finados.

É depois de tais convenções que surge a pontuação na língua portuguesa. Aos poucos são incorporados alguns sinais vindos de outras línguas, como o asterisco - uma invenção alemã do século 19.

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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

O JURAMENTO PROFERIDO PELOS MÉDICOS RECÉM-FORMADOS SOFREU MUTAÇÃO NO DECORRER DA HISTÓRIA

Abaixo, conheça o texto integral do juramento proferido pelos médicos recém-formados. Antes, leia, na íntegra, o Juramento de Hipócrates, que serviu de inspiração para a versão atual. Só lembrando que o dito juramento foi modificado várias vezes, duas delas já no presente século.

Hipócrates é considerado o pai da medicina.


JURAMENTO DE HIPÓCRATES

"Eu juro, por Apolo, médico, por Esculápio, Higéia e Panacéia, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes.

Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substância abortiva.

Conservarei imaculada minha vida e minha arte.

Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam.

Em toda a casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução sobretudo longe dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados.

Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto.

Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça."

ABAIXO, A ÚLTIMA VERSÃO DO JURAMENTO PROFERIDO PELOS MÉDICOS


"NO MOMENTO DE SER admitido como membro da profissão médica:

EU JURO SOLENEMENTE consagrar a minha vida a serviço da humanidade;

EU DAREI aos meus professores o respeito e a gratidão que lhes são devidos;

EU PRATICAREI a minha profissão com consciência e dignidade;

A SAÚDE DE MEU PACIENTE será minha primeira consideração;

EU RESPEITAREI os segredos confiados a mim, mesmo depois que o paciente tenha morrido;

EU MANTEREI por todos os meios ao meu alcance, a honra e as nobres tradições da profissão médica;

MEUS COLEGAS serão minhas irmãs e irmãos;

EU NÃO PERMITIREI que concepções de idade, doença ou deficiência, religião, origem étnica, sexo, nacionalidade, filiação política, raça, orientação sexual, condição social ou qualquer outro fator intervenham entre o meu dever e meus pacientes;

EU MANTEREI o máximo respeito pela vida humana;

EU NÃO USAREI meu conhecimento médico para violar direitos humanos e liberdades civis, mesmo sob ameaça;

EU FAÇO ESTAS PROMESSAS solenemente, livremente e pela minha honra."

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sexta-feira, 24 de setembro de 2010

FAMOSOS ESCRITORES BRASILEIROS VACILAM NO PORTUGUÊS

Alguns modernistas brasileiros, tendo à frente o poeta Mário de Andrade, defendiam que uma frase poderia ser iniciada por um pronome átono, ao contrário do que dizia - e ainda diz - a regra gramatical pertinente ao caso.

Eles defendiam, portanto, que frases do tipo "O vi hoje", são corretas. Ou ainda: "As conheci há pouco".

A reação não demorou a chegar, o que fez os modernistas recuarem, com exceção de Mário de Andrade, que mesmo diante das ponderações de Manuel Bandeira, preferiu continuar no erro.

O escritor Guimarães Rosa também pisou na bola. A palavra estória, comumente aceita como sendo um relato de fatos não comprovados ou fictícios, fora designada para tal fim no início do século XX por um acadêmico brasileiro, mas sem respaldo etimológico.

Etimologistas dizem, no entanto, que tal neologismo é uma frescura estilística, uma vez que, no Português, não há razão linguística para adotá-lo, mesmo quando se queira diferenciá-lo de história.

Envolto pela tradição folclorística do termo, o conhecido escritor Guimarães Rosa acabou publicando, em 1962, um livro com o título Primeiras Estórias.

Portanto, segundo recomendação etimológica, não se deve usar o termo estória, mesmo em se tratando de evento fictício.

Era comum, desde o século XIX, mentes brasileiras das mais diversas áreas do conhecimento guardarem um amor especial pela língua portuguesa, tanto que muitos, não somente da Literatura, mas do Direito, Filosofia, História e até da Medicina, dedicaram boa parte de seu tempo com o estudo da nossa língua. E faziam questão de demonstrar o que haviam aprendido.

Tal fenômeno se deveu, provavelmente, à imediata associação do profundo conhecimento da língua portuguesa à erudição, objeto de desejo de muitos homens e mulheres das mais diversas áreas.

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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

DISCURSO DE RUI BARBOSA EM DEFESA DOS ADVOGADOS CONSTITUI-SE NUMA BANDEIRA EM PROL DO PODER QUE A PALAVRA EXERCE SOBRE O SER HUMANO

Para os mais íntimos do Direito e da História certamente não é surpresa a importância que é atribuída ao jurista Rui Barbosa para a diversificação e proliferação de ideais republicanos e democráticos no Brasil.

Foi consagrado internacionalmente em 1907, no Congresso de Haia, onde defendeu o espaço geográfico brasileiro. Ele e um diplomata alemão foram considerados os dois homens mais influentes no referido congresso.

Jurista nato, sustentou em discursos a importância da figura do advogado para a solidificação da democracia. Tais discursos partiram da lavra de Rui Barbosa exatamente porque o bacharelismo brasileiro sofria duras críticas, quando era acusado de ser mais teórico e menos prático.

Eduardo Prado, escritor e um dos membros fundadores da Academia Brasileira de Letras, foi, no século XIX, o maior crítico do bacharelismo brasileiro, pois, segundo o academista, o bacharel havia sido complacente com os males da política do país. No século XX, por sua vez, foi Gilberto Freyre quem teceu fortes críticas ao curso de Direito da Faculdade de Recife, tradicionalmente uma das melhores do país, cuja crítica guardava certa sintonia com a do escritor paulista.

A crítica de Eduardo Prado não foi somente teórica. Em sua propriedade rural havia um caboclo que era de uma habilidade extraordinária, pois fazia de tudo um pouco. O academista o apelidou de "Bacharel" e quando ele (Eduardo Prado) passava por alguma dificuldade, dizia rindo: "Chamem o Bacharel, que ele conserta tudo."

Segundo Prado, que era monarquista convicto, esse "conserta tudo" é que teria trazido os males para a República.

Dez anos após a morte do academista, Rui Barbosa proferiu, em maio de 1911, um discurso de posse no Instituto dos Advogados Brasileiros, através do qual fez duras críticas aos críticos do bacharelismo. Eis parte das palavras do renomado orador baiano:

"Os governos arbitrários não se acomodam à autonomia da toga, nem com a independência dos juristas, porque esses governos vivem rasteiramente da mediocridade, da adulação, da mentira, da injustiça, da crueldade e da desonra. A palavra os aborrece porque a palavra é um instrumento irresistível de conquista de liberdade. Deixai-a livre, onde quer que seja e o despotismo está morto."

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