segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O RELATO HISTÓRICO SOBRE OS ÚLTIMOS MOMENTOS DE SÓCRATES: PLATÃO PODE NÃO TER SIDO FIEL AOS FATOS HISTÓRICOS


Imagem da internet

Não é de hoje a afirmação de que Sócrates e Jesus Cristo têm muito em comum. Dentre tais coincidências, as mais conhecidas são: não deixaram nenhum registro escrito; seus ideais e história de vida foram contados por seus próprios discípulos; os dois foram condenados por suas ideias e foram vistos como inimigos potenciais do Estado.

Das coincidências em questão, uma merece atenção especial, e tem relação direta com a credibilidade de suas mensagens: como seus discípulos puderam se lembrar de fatos, os quais foram contados nos mínimos detalhes?

Citemos apenas dois exemplos de cada lado: Marcos e Lucas não acompanharam Jesus, mas ainda assim puderam contar em riqueza de detalhes não só a mensagem de Cristo como também conversas das quais  Jesus teria participado. Por outro lado, Platão conta, igualmente em riqueza de detalhes, a defesa de Sócrates quando este foi processado, bem como relata suas últimas palavras (que renderam um livro, no caso Fédon) antes de tomar cicuta.

Para os cristãos, os evangelistas foram usados pelo Espírito Santo, o que justificaria a riqueza de detalhes, embora haja quem aponte discrepâncias entre os próprios evangelistas - o que comprometeria a afirmação de que o Espírito Santo é, efetivamente, o grande mentor dos Evangelhos. Isso não vem ao caso, agora.

No caso de Platão, o problema pode ser maior do que o esperado, ainda que tais objeções tenham sido lançadas com menor força do que em relação à Bíblia. 

Para uma melhor compreensão do que pretendemos analisar, é imprescindível a leitura integral de Fédon. Só assim o leitor terá a dimensão do que se pretende nesta matéria.

Como é de praxe nos diálogos platônicos, o autor se utiliza de personagens para discorrer sobre suas ideias, por cujo meio também retrata fatos relacionados à vida de Sócrates.

No diálogo em questão (Fédon), o personagem Equécrates indaga ao personagem Fédon se este se encontrava na prisão quando Sócrates tomou cicuta. A resposta é positiva. A introdução, portanto, já nos remete a fatos ditos históricos, no caso à própria morte do filósofo.

Um pouco mais adiante, Fédon é questionado sobre quem se encontrava lá, e afirma seguramente que Platão se achava doente, razão por que não compareceu. Ou seja, Platão não presenciou a conversa que Sócrates teve com seus discípulos no último dia de vida.

Então temos um problema: Platão não estava presente, mas por outro lado registrou uma longa conversa (o que daria aproximadamente 60 páginas) entre Sócrates e os discípulos, nas quais fez constar fatos minimamente sequenciais, os quais sugerem tratar-se de acontecimentos reais e não meras ilustrações.

No dia em que Sócrates bebeu o veneno, ele (Sócrates)  recebeu vários de seus discípulos, com quem teve uma demorada conversa acerca da vida pós-morte e dos meios pelos quais o ser humano poderia alcançar um destino feliz. Todo o desenrolar da conversa acontece de forma ininterrupta, tanto que o autor registrou alguns dissabores enquanto durou a preleção do filósofo.

Tomemos como exemplo, o choro de Xantipa (esposa de Sócrates), que, ao notar a presença dos discípulos de seu marido entrarem na prisão, ficou aos prantos. Na ocasião ela estava com um filho do casal nos braços (provavelmente ainda criança), quando bradou: "Sócrates, é a última vez que teus amigos irão conversar contigo e que tu irás conversar com eles". Platão nos conta que, ao ouvir o choro de sua esposa, Sócrates se dirigiu a Críton (um dos discípulos presentes) e teria dito: "Levem-na para casa". Xantipa teria saído aos prantos, batendo no próprio peito. É uma história real.

Platão também narra que o carrasco (aquele que levou o veneno para Sócrates) não se conteve e chorou. O autor também descreve, em detalhes, as últimas palavras do filósofo, através das quais a posteridade soube que Sócrates morreu devendo um galo, e teria rogado que um de seus discípulos (provavelmente o mais rico deles), quitasse sua dívida.

Fédon é um livro extraordinário. Depois de A República, talvez o melhor que Platão já produziu. É suficiente para compreendermos a opinião de Sócrates acerca da alma, da vida pós-morte, da relação entre o homem e os deuses gregos. É nele que encontramos a resposta para uma pergunta que ainda existe: Sócrates era ou não era ateu? Não, definitivamente Sócrates estava longe de ser ateu.

Afinal, Fédon é fiel à história ou mera ilustração de Platão para compor suas ideias? Se Platão inventou situações, se ele colocou palavras na boca dos discípulos, por que a historiografia tem aceito o fato de Sócrates ter morrido pelo uso de cicuta, e mais do que isso, ter protagonizado talvez o mais longo bate-papo ininterrupto já registrado na história? E se Platão foi fiel aos fatos, como ele pôde reproduzir, nos mínimos detalhes, a conversa que Sócrates teve com seus discípulos, inclusive retratando diversas situações e dissabores, a exemplo do que trouxemos acima, se Platão não estava presente? se Platão foi capaz de tal feito, ou melhor, se Fédon foi capaz de memorizar nos mínimos detalhes todo o desenrolar da conversa, por que não Marcos e Lucas?

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