domingo, 3 de julho de 2011

EM CARTAS FILOSÓFICAS, VOLTAIRE REPROVA O PRESBITERIANISMO PRATICADO NA INGLATERRA NO SÉCULO 17 E FAZ DURAS CRÍTICAS AO PROTESTANTISMO DA ÉPOCA

Em Cartas Filosóficas, o consagrado pensador iluminista, Voltaire (1694-1778), emite sua opinião acerca do presbiterianismo praticado na Inglaterra durante o século 17. O conteúdo não é contado nos livros didáticos e provavelmente pouco conhecido pelos atuais evangélicos. Embora seja uma opinião pessoal do filósofo, o teor nos serve para conhecer alguns elementos históricos da época, dentre os quais o próprio presbiterianismo e a relação entre as igrejas protestantes da época.

Voltaire inicia afirmando que o referido segmento protestante "não é outra coisa senão o calvinismo puro tal como havia sido instalado na França e que subsiste em Genebra". De cara, ele acusava os presbiterianos de praticarem zelo excessivo, que iam desde a vestimenta a modos comportamentais, uma característica dos protestantes ditos puritanos.

O filósofo traz outra grave acusação: afirma que os líderes presbiterianos recebem pouco dinheiro de suas igrejas, fato este que os impede de viver no mesmo luxo dos bispos católicos. Voltaire vai além: assegura que reside aí o motivo que leva o presbiterianismo a condenar a vida luxuosa - exatamente porque não pode (na época) se elevar financeiramente como pretendem seus membros.

A propósito, Voltaire sugere que, em matéria de pobreza e riqueza financeira, os presbiterianos estão para Diógenes assim como os católicos estão para Platão. Como é sabido, Diógenes (o Cínico) era extremamente pobre, ao passo que Platão, de farta riqueza.

O filósofo iluminista é de parecer, ainda, que os ditos protestantes foram mais deselegantes com o rei Eduardo Carlos II (deposto por um presbiteriano, Oliver Cromwell) do que o mesmo Diógenes havia sido com Alexandre, o Grande.

Conforme nos relata a história grega, Diógenes tomava banho de sol quando, inesperadamente, recebeu a visita do temido imperador. Este, que apesar da riqueza e do poder de que dispunha, demonstrava considerável admiração por Diógenes, que, de forma crítica, preferiu viver em um barril, sem os mínimos hábitos de higiene.

Quando se aproximou do rebelde Diógenes (que tomava banho de sol), Alexandre se identificou e se mostrou pronto a atender a um pedido daquele, desde que não fosse seu trono. Como resposta, Diógenes pediu que o rei saísse de sua frente, pois havia se colocado entre o "banhista" e o sol, de modo que o lazer estaria comprometido. O feito entrou para a história como um dos atos mais deselegantes já praticados contra um rei.

Segundo Voltaire, depois de deposto, o rei Carlos II foi vítima de grandes humilhações pelos presbiterianos. Uma porque o rei foi obrigado a assistir a quatro pregações evangélicas todos os dias, além de receber ordens para não jogar - e outras penitências sobre as quais o filósofo não declinou.

O francês Voltaire atesta, ainda, que o puritanismo praticado pelos presbiterianos escoceses é superior ainda aquele ensinado pelo antigo romano Catão, que, de praxe, se insurgiu contra o luxo, impondo uma autera disciplina moral na administração pública.

As acusações vão além e chegam a afirmar que o presbiteriano "afeta um andar grave, um ar zangado, traz um enorme chapéu, um longo manto sobre um casacão curto, prega pelo nariz e chama de prostitutas da Babilônia todas as igrejas nas quais alguns eclesiásticos estão bem contentes por terem cinquenta mil libras e nas quais o povo é muito bom para suportá-los e ainda chamá-los de Monsenhor, Vossa Grandeza, Vossa Eminência".

Outro dado curioso retirado de Voltaire é com relação à santificação do domingo na Inglaterra. Para ele, foram os presbiterianos que impuseram tal costume, de sorte que a população ficou proibida de trabalhar e de se divertir. Assim, segundo o mesmo autor, os ingleses ficaram privados do lazer cultural no que diz respeito à ópera (bastante difundida no Renascimento) e ao teatro, sem falar que o jogo com cartas foi proibido. Em vez de divertimento no domingo, o povo deveria orar e ouvir pregações na Igrejas.

A mais grave das acusações trazidas por Voltaire tenha, talvez ainda hoje, amostras no cotidiano do meio protestante. O filósofo afirma que, embora o anglicanismo e o presbiterianismo fossem as duas denominações protestantes mais abundantes na Inglaterra, as demais eram bem-vindas, de modo que, do ponto de vista externo, havia comunhão entre as igrejas, "enquanto a maioria de seus pregadores se detesta reciprocamente". Embora pouco conhecido (e embora o verbo "detestar" não seja o ideal), há, na recente história do protestantismo no Brasil, muitos casos em que líderes e pregadores evangélicos se digladiam em seus sermões dominicais. Como se vê, tais "picuinhas" são históricas e não uma invenção do século XX.

Voltaire finaliza dizendo que se na Inglaterra existisse somente uma denominação protestante, o despotismo seria um fato. Se existissem duas, ambas lutariam entre si até a morte recíproca, mas - termina o autor -, "como há trinta, vivem em paz e felizes" (ele fala, aqui, da relação pública entre as igrejas e não das picuinhas internas do dia a dia).

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