quarta-feira, 4 de maio de 2011

O PONTIFICADO DE JOÃO PAULO II FOI UM PROGRESSO OU UM REGRESSO?

Dia 1º de maio entra para a história não somente como o Dia do Trabalho, mas agora pela beatificação de João Paulo II, o Papa que caiu na graça dos fiéis católicos. Esforços é o que não faltam no sentido de solidificar a versão de que ele foi um Pontífice moderno, de ter sido um grande protagonista do diálogo inter-religioso, de ter sido, enfim, uma ponte que estreitou abismos históricos que separavam a Igreja do mundo e dos demais segmentos religiosos.

Não é bem assim que está nos anais de seu pontificado, e o blog tentará mostrar, de forma breve, que o governo de João Paulo II foi, em alguns aspectos, um retrocesso, sendo que muitas ações "infalíveis" que emanaram do referido Papa estiveram diretamente associadas a Ratzinger (Bento XVI), então seu confidente número 1 e visto por muitos pesquisadores como um cardeal típico da Igreja histórica.

Até hoje o atual Papa não engole o Iluminismo nem o século 19, considerados dois grandes monstros para a Igreja Católica, tanto que ele, em agosto de 1984, chegou a afirmar que estava "convencido de que o dano em que incorremos nestes vinte anos se deve ... fora da Igreja, a um confronto com uma revolução cultural no Ocidente".

Afinal, o que tem a ver tal afirmação com o Papa (agora beato) João Paulo II, já que ela fora pronunciada por Bento XVI? Antes de tentarmos responder, vale relembrar que Bento XVI fora escolhido por João Paulo II para ser o Prefeito da Congregação para a Doutrona da Fé (a Inquisição, numa versão moderna). Os dois eram amicíssimos, e não dispensavam os encontros às portas fechadas às sextas-feiras, de sorte que as decisões do então cardeal Bento XVI tinham a aprovação de João Paulo II.

O Concílio Vaticano II, realizado no início da década de 60 passada, foi um marco na histórica da Igreja: acabou com a missa em latim, extinguiu o Index, e, por meio de uma encíclica publicada em 1963, o então Papa, João XXIII, abraçou e aprovou o progresso que seus antecessores do século 19 tanto condenaram. Se João XXIII (não confundir com João Paulo II) não tivesse morrido tão cedo, certamente a Igreja Católica seria outra. Karol Wojtyla não estava preparado para dar continuidade (alguns anos depois) ao que fora iniciado por João 23 e, apoiado pelo então cardeal Ratzinger, decidiu, de forma dissimulada, embargar a Contemporaneidade.

Partindo do pressuposto de que o mundo moderno era um potencial inimigo da Igreja, João Paulo II atacou: percebendo que muitos sacerdotes desejavam uma Igreja mais evoluída, digna do século XX, o então Papa (hoje beato) ordenou, em 1989, que Ratzinger exigisse oficialmente que os novos nomeados para os seminários e universidades católicas – incluindo reitores e professores de teologia e filosofia -, fizessem não somente uma profissão de fé, como também um juramento de fidelidade. Isto mesmo: professores de filosofia jurando, oficialmente, que em suas aulas não deveria ser ensinado algo que viesse embargar os princípios e projetos católicos, dentre os quais a infalibilidade papal.

Em 1990, a Congregação, dirigida por Ratzinger, produziu um rascunho do que seria o novo Catecismo Universal da Fé Católica, um documento que continha mais de 350 páginas. Dentre tantos outros ensinamentos, estava a confirmação de que o Papa não erra, jamais erra. Além do quê, o texto dizia: “A tarefa de dar uma interpretação autêntica da Palavra de Deus, seja em sua forma escrita ou na forma da tradição, foi confiada apenas ao departamento do ensino vivo da Igreja”. Era a confirmação, a aceitação e a imposição de valores eclesiásticos duramente combatidos por crédulos e incrédulos em quase toda a história da Igreja.

O rascunho fora enviado a todos os bispos católicos ao redor do Planeta e pedia sugestões; mas vazou e a imprensa não pensou duas vezes e o publicou. Um grande número de católicos e não católicos ficou chocado com o conteúdo, recheado de uma psicologia raivosa, pronta a rebater e condenar a Modernidade. Muitos se decepcionaram e viram morrer a chance de contemplar uma Igreja digna do presente século.

Logo que o documento vazou, Ratzinger (hoje Bento XVI), e com a aprovação de João Paulo II, apressou-se para evitar uma grave crise interna, uma vez que eram divergentes as opiniões dos sacerdotes que compunham a própria Igreja Católica. Assim se expressou o governo de João Paulo II, através de Ratzinger: “A liberdade do ato de fé não pode justificar o direito de dissidir. Essa liberdade não indica liberdade em relação à verdade, mas a livre determinação da pessoa em conformidade com a sua obrigação moral de aceitar a verdade”.

Em outras palavras, somos livres para pensar, mas somente se for dentro da vontade da Igreja, caso contrário estamos usando dessa liberdade para nos insugirmos contra a Igreja e, portanto, contra a verdade. O texto era claro: que sejam combatidos os pensamentos contrários aos da Igreja.

Lembremo-nos, também, de que João Paulo II defendeu que somente a Igreja Católica pode interpretar suficientemente a Bíblia, algo duramente combatido desde os tempos medievais. Não era o que defendia João 23. Impossível falar do governo de João Paulo II e não associá-lo à noção de regresso, pelo menos em relação ao papa que deu início ao Concílio Vaticano II.

No governo de João Paulo II, padres foram expulsos por pensarem diferente. Uma freira brasileira foi desterrada para a Bélgica, sob o pretexto de que deveria melhor interpretar a Bíblia. Um padre alemão, que por quatro vezes foi obrigado a comparecer aos tribunais nazistas, afirmou que a Congregação dirigida por Ratzinger (quando João Paulo II era Papa) era mais ofensiva em seus interrogatórios do que os referidos tribunais de Hitler. Ele, o citado padre, experimentou de perto os dois inquisidores e certamente não falou à toa.

A presente matéria não tem por fim rebater ou desacreditar o “milagre” atribuído a João Paulo II, mas apenas expor, para reflexão, fatos históricos que, por conveniência católica, não chegam de forma clara ao mundo.

É difícil, também, não imaginar que Ratzinger esteja interessado em santificar João Paulo II por questões pessoais, afinal, por mais que os bastidores do pontificado de João Paulo II não lhe sejam tão favoráveis como divulgam, ele foi um papa do povo, ao contrário de Ratzinger, que durante o tempo em que esteve à frente da Congregação (antiga Inquisição), ficou marcado como um homem cruel, duro, típico representante do catolicismo histórico que marcou séculos. É, sem dúvida, uma oportunidade de amenizar um pouco sua má fama, ainda que realmente João Paulo II esteja conversando com Deus, e intercedendo por seus novos fiéis.

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