terça-feira, 19 de abril de 2011

TEXTO SELETO ESCRITO EM MEADOS DO SÉCULO 16 REVELA UM POUCO SOBRE O CANIBALISMO INDÍGENA BRASILEIRO

Dia 19 de abril é oficialmente o Dia do Índio, uma criação (no caso do Brasil) do governo de Getúlio Vargas, cuja data serviria, além de outras temas correlatos, para que fossem feitos estudos e discussões sobre a cultura e sobre o espaço físico a que têm direito.

Não abordaremos a referida temática, mas nos limitaremos a expor um texto escrito em torno de 1556, por um alemão que foi feito prisioneiro pelos tupinambás, então canibalistas, assim como outras tribos da época. O livro Viagem ao Brasil, de Hans Staden (prisioneiro e autor do texto) foi uma das primeiras obras sobre o canibalismo dos índios brasileiros e, sem dúvida, é uma relíquia a ser preservada pelos amantes da história. Diz o texto:

"Quando chega o momento de se embriagarem, como é seu costume quando devoram alguma vítima, fazem de uma raiz uma bebida que chamam Kawi; bebem-na toda e matam o prisioneiro. No dia seguinte, ao beberem à morte do homem, cheguei-me para a vítima e lhe perguntei: 'Estás pronto para morrer?' Riu-se e me respondeu: 'Sim'."

Prossegue mais adiante o autor-testemunha, dando continuidade ao relato:

"Eu tinha comigo um livro, em língua portuguesa, que os selvagens tiraram de um navio que aprisionaram com o auxílio dos franceses; fizeram-me presente desse livro.

Deixei o prisioneiro e li o livro, e tive muita dó dele. Voltei a ter com ele porque os portugueses têm estes Maracajás por amigos, e lhe disse: 'Eu também sou prisioneiro como tu e não vim aqui para devorar a tua carne, foram os outros que me trouxeram'. Então respondeu que sabia bem que a nossa gente não come carne humana.

Disse-lhe mais, que não se afligisse porque, se lhe comiam a carne, sua alma ia para outro lugar, onde vão também as almas da nossa gente, e ali há muita alegria. Então perguntou-me se isso era verdade. Eu respondi que sim, e ele me disse que nunca vira a Deus. Respondi que na outra vida havia de vê-lo; e quando acabei de falar, deixei-o.

Na mesma noite em que com ele falei, levantou-se um forte vento, soprando tão horrorosamente que tirava pedaços das cobertas das casas. Os selvagens zangaram-se então comigo, e disseram-me (...) 'O maldito, o santo, fez agora vir o vento, porque olhou hoje no couro da trovoada', que era o livro que eu tinha. E eu alegrei-me com isso, porque o escravo era amigo dos portugueses e eu pensava que o mau tempo impedisse a festa. Orei, então, a Deus e Senhor, dizendo: 'Se tu me preservaste até agora, continua ainda porque estão zangados comigo."

A leitura do livro (que será a próxima indicação deste blog para o mês de maio) revela que o alemão Hans Staden era um homem altamente católico, e em todo instante esteve certo de que Deus o guardaria da morte no Brasil. Staden esteve duas vezes no país, no referido século e, quando chegou à Europa, publicou - inclusive com desenhos -, seu testemunho acerca de sua própria prisão pelos índios brasileiros e o modo pelo qual conseguiu escapar.

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