quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

"POR QUE HAVÍAMOS DE VIVER TÃO LONGE UM DO OUTRO? COMO SERIA BOM SE ESTIVÉSSEMOS JUNTOS EM SEU QUARTINHO"

O texto acima sugere uma correspondência endereçada por uma pessoa apaixonada a uma outra que se achava distante, naquele momento. Não se sabe se era um caso de paixão, mas pelo menos de uma amizade colorida. O texto em questão é da lavra do culto imperador Pedro II a uma amiga, a condessa de Barral.

Mais de cinquentas depois da morte do imperador, o neto da condessa doou ao Museu Imperial de Petrópolis as cartas que ela recebera do amigo, cujo conteúdo não deixa dúvidas sobre a proximidade dos dois.

Embora muito tímido quando jovem, depois de adulto D. Pedro II viveu alguns romances extraconjugais. Sobre a condessa, o que se sabe ao certo é que os dois mantinham um forte relacionamento amigável.

Ela tinha muitas das características que ele apreciava: gostava dos livros, de história, de poemas, de artes, de literatura. Juntos escreveram uma História de Portugal. "Estudávamos juntos, e não havia mapas que não percorrêssemos juntos, não nos escapando nem mesmo um lugarejo da Herzegovina", escreveu D. Pedro II em recordações posteriores.

Os dois tinham o hábito de ler o mesmo livro e de participar das missas aos sábados. Ela trazia Paris para o Rio de Janeiro. Era uma mulher culta.

As suspeitas acerca de um relacionamento amoroso não faltaram. Uma das filhas de D. Pedro II teria flagrado algo diferente: "Mamãe, por que é que, durante as lições, papai pisa no pé da condessa?", teria indagado a filha à mãe.

"Às 9 horas apago a luz e mando todo mundo deitar, e sabe do que me lembrei quando subi a escada com a velinha na mão, sendo toda a casa no escuro? Ora se sabe!" Este texto parece revelar algo mais além de uma amizade.

Quando ela foi embora para Paris, D. Pedro se referia aos velhos tempos como "tempos felizes". "Quem me dera poder passar um instantinho ao menos do tempo em que estudávamos juntos. Escreva-me o mais que puder, preciso de suas cartas."

Combinaram que trocariam constantemente correspondências, que deveriam ser queimadas. Ele as queimava todas; ela, não.

Condessa de Barral também se preocupava com o amigo, e quando ele já estava velho, escreveu-lhe: "Não passe assim a metade de sua vida deitado ... não leia depois da comida, mas faça exercícios a pé".

Quando D. Pedro II foi deposto, em 1889, voltou a residir na Europa, tendo morado alguns meses na casa da velha amiga, em cuja oportunidade relembraram e reviveram algumas das práticas de outrora, uma das quais as caminhadas em conjunto.

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