terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O "AR" DA CIDADE LIBERTA?

Ainda hoje há quem prefira a vida no campo à vida na cidade, não importa se esta é grande ou pequena. Outros, pelo contrário, não suportam o silêncio da vida rural e se declaram amantes das grandes metrópoles. As opiniões divergentes em torno da cidade não são invenções da Modernidade, como veremos adiante. Antes, até mesmo concepções teológicas enriqueceram o debate em torno da vida urbana - que chegou inclusive a ser interpretada como uma personificação do inferno.

Uma era a cidade na Idade Antiga e outra era a cidade na época da transição da Idade Média para a Idade Moderna/Contemporânea. Inicialmente eram os muros o maior referencial de uma cidade. Quanto mais fortificada mais bem conceituada era pelos moradores e visitantes.

A Idade Média, no entanto, abraça uma concepção incorporada por Aristóteles e Cícero, grandes defensores de uma nova visão, pois defendiam que o maior referencial de uma cidade não é o muro e sim o ser humano que nela reside.

Alguns expoentes medievais, como Agostinho, Isidoro de Sevilha (téologo da Igreja) e Alberto Magno endossaram a nova visão, o que favoreceu ainda mais sua expansão a partir do início do século 13.

Alberto Magno, por exemplo, considerado o maior filósofo e teólogo alemão da Idade Média e considerado o primeiro a aplicar a filosofia aristotélica no cristianismo, divulgou, em muitos de seus sermões, que cidades com ruas estreitas e sombrias são comparadas ao inferno, ao passo que os grandes palácios, ao paraíso. Na verdade, o estudioso estava afirmando um modelo de urbanização, que deveria primar pelo espaço, pela liberdade.

E por falar em liberdade, é na própria Idade Média que surge um conhecido provérbio alemão: "O ar da cidade liberta". A explicação existia, sobretudo, pelo fato da cidade ter possibilitado uma maior liberdade - aliás, bem mais - do que a vida rural, então marcada pelo feudalismo, quando os servos estavam ligados à propriedade, de modo que não poderiam se mudar para outras localidades. Era comum gerações inteiras nascer e morrer numa mesma localidade rural. "Liberdade", aqui, também é uma referência à possibilidade de se conhecer algo novo, seja em relação à vida sexual, à vida material e a novas concepções de mundo.

Havia, no entanto, quem condenasse a vida na cidade. Uma das maiores personalidades do século 12, Bernardo de Claraval (São Bernardo), foi a Paris, então a maior cidade europeia, e afirmou: "Fugi do meio da Babilônia, fugi e salvai vossas almas, fugi todos juntos para as cidades de refúgio, ou seja, os mosteiros".

Em contrapartida, Filipe de Harvengt, escritor esclesiástico do século 12 e conhecedor da vida nos mosteiros, pregava: "Impelido pelo amor da ciência, eis que estás em Paris e encontraste essa Jerusalém que tanto desejam". Ou seja, o religioso estava dizendo que Paris é a cidade perfeita para se morar.

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