sexta-feira, 19 de novembro de 2010

"DEUS ME GUARDE DE FICAR SOZINHA COM UM HOMEM, POR MAIS SÁBIO QUE PAREÇA, NUM LUGAR SOLITÁRIO"

A frase acima não fora proferida por uma freira, nem por uma ermitã. É de autoria de uma princesa, prometida em casamento sem ao menos ter conhecido o noivo antes da cerimônia de núpcias (aliás, somente o conheceu depois de casada). Leia, agora, um breve histórico das confidências de uma jovem mulher que foi muito feliz no início do casamento e morreu triste e traída por seu marido, que era brasileiro.

Trata-se de D. Leopoldina (1797 - 1826), esposa de D. Pedro I. No ano de seu casamento - que se deu por procuração em 1817 -, deixou a Áustria para morar no Rio de Janeiro, onde residia seu noivo. Totalmente entregue ao casamento, chegou a escrever algumas autoinstruções que pretendia seguir depois que estivesse morando no Brasil e casada com o príncipe brasileiro. Eis o que escreveu:

"Eu me vestirei com toda a modéstia possível; meu coração será eternamente fechado ao espírito perverso do mundo; evitarei despesas inúteis, o luxo indecente, roupas mundanas e escandalosas; Deus me guarde de ficar sozinha com um homem, por mais sábio que pareça, num lugar solitário."

Quando embarcou para o Brasil, trouxe uma biblioteca, um grande enxoval e coleções de ciências naturais (era amante de tal ciência), além de três caixões, para eventual falecimento na viagem.

Segundo a própria, sempre teve vontade de conhecer a América. No início do casamento, escreveu:

"As noites são mágicas nos trópicos, cheias de ruídos, produzidos por seres que piam, batem asas, rastejam entre folhas secas ... frutos maduros que tombam das árvores, água que corre entre pedras e o coaxar dos sapos ... Não existe o silêncio, jamais, neste lado do mundo."

Sobre o marido e as noites de amor, confidenciou: "Faz dois dias que estou junto do meu esposo ... estou muito feliz ... O meu muito querido esposo não me deixou dormir".

Aos poucos se decepcionou com o Brasil e com o marido. Na próxima semana transcreveremos sua última carta à família, na qual faz revelações surpreendentes sobre o príncipe brasileiro, que provavelmente foi um assassino.

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2 comentários:

  1. O parágrafo que se inicia em "As noites são mágicas nos tropicos... até "neste lado do mundo", não faz parte da correspondência da princesa Leopoldina - aliás, o estilo é literário e em nada se aproxima do estilo epistolar da princesa. Quem o cita como tal, por engano, é Laurentino Gomes, autor de 1822. O parágrafo em questão é de minha autoria e pode ser encontrado na pág. 69 do meu livro "Leopoldina e Pedro I - a vida privada na corte", publicado em 2004 pela eiditora Jorge Zahar, bem antes, portanto, da publicação de 1822. O erro já foi reconhecido por Laurentino Gomes e por sua editora, que me prometeram, já lá se vão alguns meses, publicar uma errata, o que não fizeram até hoje. Em caso de dúvida, pode ser consultada Leila Name, da Ediouro, que é quem está cuidando do assunto.
    Atenciosamente
    Sonia Sant'Anna
    www.soniasantanna.com.br

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  2. Aqui está a comprovação do que eu disse há pouco sobre o engano na citação de um texto meu, por Laurentino Gomes, como sendo de autoria da imperatriz Leopoldina:
    http://books.google.com.br/books?id=OQsInQ9jxqMC&pg=PA69&lpg=PA69&dq=As+noites+s%C3%A3o+m%C3%A1gicas+nos+tr%C3%B3picos&source=bl&ots=3o5S2py18b&sig=w9KT4sr1LiSlPmZesqaC5HhcZbo&hl=pt-BR&sa=X&ei=Dn3gUPTtMZPY9QTvpoHwDw&ved=0CEcQ6AEwAw#v=onepage&q=As%20noites%20s%C3%A3o%20m%C3%A1gicas%20nos%20tr%C3%B3picos&f=false

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