segunda-feira, 1 de novembro de 2010

2 DE NOVEMBRO: O DIA DOS ESQUECIDOS

No dia 1º de novembro os católicos comemoram o Dia de Todos os Santos e no dia seguinte, o Dia de Finados. Mas, enfim, por que o dia 2 de novembro pode ser chamado de "O Dia dos Esquecidos"?

Em outra ocasião vimos que no tempo em que foi oficialmente criada a Igreja Católica - século 4 -, não era consenso entre seus sacerdotes a crença de que os mortos poderiam interceder pelos vivos, de modo que a corrida aos sepulcros dos "santos" foi inclusive desestimulada.

Mas ainda assim a Igreja sancionou o que se tornou uma tradição, no caso a reverência àqueles que eram considerados mártires, cujo registro inicial de um dia destinado aos tais aponta para o século 4.

Mas havia um "porém". Por que somente os mártires deveriam receber um dia comemorativo? E quanto aos demais mortos?

Assim como Augusto invejou a Júlio César e batizou o oitavo mês de agosto em homenagem ao seu nome - e ainda acrescentou um dia para não ficar com um dia a menos do que o mês de julho -, os defensores dos mortos anônimos reivindicaram o mesmo direito de que desfrutavam os grandes mártires cristãos.

E foi dessa inveja que nasceu o Dia de Finados.

Como o Dia de Todos os Santos era comemorado em 1º de novembro, a Igreja entendeu por bem - oficialmente a partir do século 13 - designar o dia seguinte (no caso 2 de novembro) para se comemorar o dia de todos os mortos.

Interessante é que os "aniversariantes" do dia 1º eram reconhecidamente heróis, ao passo que os "aniversariantes" do dia 2 poderiam ser, inclusive, perseguidores dos heróis.

Em outras palavras, poder-se-á interpretar também que o morto que é alvo das orações no Dia de Finados pode ter sido até mesmo um candidato à perdição eterna, porquanto a oração aos mortos tem por fim resgatá-lo do purgatório, segundo se depreende do significado da teologia católica.

Ou seja: orar pelos mortos no Dia de Finados é reconhecer que o parente provavelmente não está em um local agradável.

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4 comentários:

  1. Independentemente da causa da origem do dia de finados, pois vejo rituais semelhantes no Oriente,reconheço no dia de finados uma oportunidade de resgate da memória através das pessoas, até porque a concretização da história passa por ações de pessoas. O ser humano é isso: FAZ UM RITUAL VOLTADO PAR AO PASSADO, AGE NO PRESENTE, PLANEJA O FUTURO E SABE QUE NAQUELE FUTURO, PÓS SEU FUTURO, TAMBÉM SERÁ UM FINADO LEMBRADO. Forma de continuar vivo, além do DNA nos descendentes. Um forte abraço, Robério. Parabéns pela postagem informativa.

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  2. Pois é, há dois grandes questionamentos, eu diria. Um quanto ao aspecto religioso-teológico e o outro quanto à memória - elemento que permite resgatar ou fortalecer o legado de quem já se foi.

    A postagem em questão cuidou, unicamente, de tentar esclarecer - além da raiz histórica - o significado teológico que há por trás do ato litúrgico, a meu ver pouco questionado.

    Seu comentário, Valdecy, é de grande importância porque levanta, inclusive, a possibilidade de justificar a participação do Estado na manutenção do evento litúrgico, na condição de incentivador da preservação desse bem imaterial.

    É certo também, creio eu, que a forma mais eficaz de perpetuar o legado de um ser humano que já se foi é através da divulgação das ideias da pessoa em questão.

    Indiscutivelmente relembrar um parente que já se foi parece ser algo inato, o que nos sugere que tal memória ocorre não necessariamente num dia determinado, embora quando isto ocorre (como o Dia de Finados), parece haver uma tendência a uma maior reflexão.

    De qualquer forma, acredito que a data em questão tem como maior beneficiária mesmo a Igreja Católica, que vê no evento a concretização de um de seus dogmas, mesmo reconhecendo, como já o fiz, a importância do ato para o resgate da memória (bem imaterial coletivo) e uma forma do familiar se sentir (talvez) mais próximo do parente que já se foi, elemento este puramente subjetivo, que deve ter todo o respeito do Estado e dos concidadãos.

    Muito obrigado por seu comentário, sempre lúcido e semeador de reflexão. Abraço.

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  3. Só complementando meu comentário anterior, "Dia dos Esquecidos" é uma forma de dizer que no início somente os santos e mártires eram lembrados oficialmente, enquanto a grande maioria dos mortos caía no esquecimento, como de fato foi assim que vigorou por muito tempo.

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  4. Valdecy, devo esclarecer algo mais: quando eu disse que a grande beneficiária é a Igreja Católica, estou me referindo especialmente ao Dia de Finados.

    Digo isto porque sou conhecedor de sua valiosa luta em preservar a memória dos casarões da barragem de Senador Pompeu e dos mortos no Campo de Concentração que existiu na mesma cidade, razão por que a referida luta se mistura ao evento católico ocorrido anualmente no dia 14 de novembro.

    Vou tentar ser mais claro: um é o Dia de Finados, outro é a caminhada que ocorre no referido município, mesmo sabendo que os dois estão diretamente associados à memória dos mortos. Da mesma forma eu citaria a luta do padre Vileci, de Juazeiro, em não deixar morrer o que ocorreu no Sítio Caldeirão.

    Como se vê, os dois eventos (em Crato e Senador Pompeu) estão associados a uma memória reconhecidamente de interesse coletivo, ao passo que o Dia de Finados não necessariamente, daí porque, vendo por este lado, eu aprovo incondicionalmente os dois eventos (em Crato e Senador Pompeu).

    Valeu!

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