quarta-feira, 28 de julho de 2010

COAGIDOS PELO PRÓPRIO JUDICIÁRIO, COMERCIANTES BRASILEIROS ERAM OBRIGADOS A CONTRIBUIR COM DINHEIRO PARA IRMANDADE CATÓLICA

Crescemos ouvindo que São Jorge está na lua montado em seu cavalo branco, disputando uma batalha contra um poderoso dragão. E ninguém menos do que os homens medievais para temerem os valentes e malditos dragões.

A adoração ao santo tem origem na Idade Média, embora ele tenha morrido no séc. IV d.C. É patrono de vários países da Europa, inclusive Portugal, de quem herdamos -principalmente o Rio de Janeiro -, as crenças e liturgias em torno do santo.

No século XVIII já existiam, no Rio de Janeiro, irmandades que levavam o nome de vários santos católicos, sendo um deles São Jorge. No mesmo século, já era considerado o principal santo do Rio: liderava as procissões, inclusive do Dia de Corpus Christus.

Uma das regras da instituição assegurava que "todos os mestres que tivessem loja aberta dos ofícios anexos à mesma irmandade, ou seja, os de serralheiro, ferreiro, cuteleiro, espingardeiro, latoeiro, funileiro, ferrador, espadeiro, dourador e barbeiro" estavam obrigados a ingressar na irmandade.

Para fazer parte, o futuro membro deveria pagar uma taxa de adesão, outra de exame e ainda pagaria uma anuidade.

Somente no final do século XVIII é que ficou acertado todo o ritual de adoração e o rico adorno que o santo deveria usar no dia da festa oficial, 23 de abril.

Nesta data, dois dos lojistas eram cuidadosamente selecionados para seguir o santo em todo o trajeto. Se por acaso eles recusassem, seriam expulsos, coagidos a pagar uma multa e ainda estariam no dever de pagar a anuidade, mesmo não pertencendo mais à irmandade, caso pretendessem manter a loja aberta.

No início do século seguinte, ao invés das penas serem abrandadas, elas se tornaram mais pesadas. Quem desobedecesse e se negasse a ir à procissão seria preso e em seguida se tornaria alvo de um processo de execução de cobrança, sem direito a sair da prisão até que pagasse toda a dívida.

O juiz e o escrivão eram encarregados de fiscalizar o cumprimento, não somente da participação na procissão, mas o da execução de cobrança também. Ou seja: o Judiciário acusava e ele mesmo julgava.

Isto mostra a completa dependência do Judiciário em elação ao Estado e por conseguinte à religião abraçada pelo Estado brasileiro da época, que por sinal ainda era colônia.

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